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Discurso de Socorro Gomes na Segunda Conferência Trilateral dos países que integram o Tratado de Livre Comércio com a América do Norte (Nafta) e a Asociação para a Segurança e a Prosperidade (SSP) |
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Escrito por ...
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17/10/2009 |
1 - Quando no
início dos anos 1990, o ex-presidente dos Estados Unidos, George Herbert Walker
Bush, em meio aos acontecimentos que conduziram ao fim da Guerra Fria e à
primeira Guerra contra Iraque, proclamou
o advento da chamada Nova Ordem Mundial, estava na verdade anunciando um
terrível plano de dominação global cujas trágicas conseqüências se abateram
sobre a humanidade ao longo das duas últimas décadas e principalmente entre
2001 e 2008.
A proclamação da "nova ordem" visava
estabelecer os meios e modos para percorrer "o novo século americano".
Seguiu-se um período de uso indiscriminado da força bruta, desprezo pela
legalidade internacional e pelas instituições multilaterais, de militarização
crescente das relações internacionais, de decisões unilaterais, de menoscabo às
Nações Unidas, de dominação unipolar, de imposição da primazia dos interesses
estadunidenses no mundo.
A posição internacional dos Estados Unidos
foi marcada pela denominada guerra infinita ou permanente ao terrorismo, que ao
ser identificado não só com organizações e redes informais, mas com estados
nacionais classificados como integrantes do chamado eixo do mal, assumiu todos
os contornos de guerras de agressão contra países e povos, sob o pretexto de
promover ataque preventivos contra os que eram considerados terroristas ou
protetores do terrorismo.
Em decorrência disso, foram desencadeadas
as guerras de agressão ao Afeganistão e ao Iraque e de Israel ao Líbano e ao
povo palestino. Países independentes, como a Síria, o Irã e a República Popular
Democrática da Coréia, por motivações diversas, foram alvo de campanhas e
ameaças de agressão. Surgiram novos focos de tensão, com a guerra do Cáucaso, a
expansão da OTAN para o leste da Europa e a afirmação de novo conceito estratégico
desse braço armado do imperialismo que institucionalizou sua presença em
conflitos fora da Europa. A militarização se intensificou com a proliferação de
bases militares, a criação do Comando Africano (AFRICOM), a competição naval no
Oceano Indico para neutralizar a China e o relançamento da Quarta Frota da
Marinha de Guerra dos Estados Unidos na América Latina.
2 - Com a eleição
do novo presidente dos Estados Unidos, Barak Obama, em novembro de 2008, a humanidade passou a
viver na expectativa de uma mudança de rumos na situação internacional, que se
traduziria na abertura de uma nova era de paz, convivência democrática entre as
nações, segurança, respeito ao direito internacional, vigência dos direitos
humanos e restauração do multilateralismo sob a égide de uma Organização das
Nações Unidas reformada e pró-ativa na solução pacífica dos conflitos. Tais
expectativas foram alimentadas por uma aparatosa propaganda e pela exaltação da
capacidade de regeneração e transmutação da superpotência estadunidense.
Mas o movimento pela paz não se deve
permitir ilusões. Mesmo considerando as diferenças de métodos e estilos entre
os partidos Democrático e Republicano e o perfil distinto do presidente Obama
comparativamente ao seu antecessor, o qual passou a história como o mais
agressivo e antidemocrático presidente dos Estados Unidos, moralmente condenado
como fautor de crimes de guerra contra a humanidade, devemos analisar os
fenômenos com objetividade para procurar entender o que está em curso na
realidade dos Estados Unidos e internacional.
O objetivo explícito de Barack Obama,
manifestado desde a campanha eleitoral do ano passado, é recuperar a liderança
mundial dos Estados Unidos, em todos os domínios - político, diplomático
econômico, fazendo valer se necessário, o seu poder militar. "Para
triunfar -disse Barack Obama durante a campanha eleitoral - necessitamos de uma liderança que entenda a
conexão entre nossa economia e nossa força no mundo. Nós ouvimos frequentemente
acerca de dois debates - um em segurança nacional e outro sobre a economia -
mas é uma distinção falsa. Devemos ser fortes em casa e fortes no exterior -
essa é a lição de nossa história. Nossa economia apóia nosso poder militar e
aumenta nosso nível diplomático, e esses são os cimentos da liderança americana
no mundo. Agora, devemos renovar a competitividade americana para apóia nossa
segurança e liderança global". (Discurso de campanha na Virgínia, em 22 de
outubro de 2008). Em ouro pronunciamento na mesma campanha eleitoral, Obama
anunciou objetivo de "fazer deste século
outro século dos Estados Unidos",
o que em sua opinião será alcançado "com
uma nova direção e uma nova
política".
3 - A profundidade
da crise econômica do capitalismo que tem seu epicentro nos Estados Unidos, as
fragilidades estruturais da economia do país, as dívidas, os déficites gêmeos,
a deterioração do padrão dólar, os sinais de declínio da hegemonia econômica
norte-americana no mundo, a gravidade da crise social, as dificuldades da
agenda política interna e sobretudo as derrotas sofridas no terreno
internacional fazem com que o novo presidente busque um caminho distinto do que
foi percorrido nos últimos anos. O país precisa de uma agenda externa mais
estável, recompor alianças, restituir prestígio, restaurar a imagem. Por isso o
presidente, já no discurso de posse, em 20 de janeiro deste ano, falou de "restaurar as fortes alianças e a diplomacia
americana", o que leva alguns acadêmicos a falar nas condições para o
exercício do "poder brando" e do "poder inteligente".
Os primeiros meses do novo presidente têm
sido, assim, marcados na área externa por uma combinação de pragmatismo,
cautela, habilidade política em face de problemas delicados, muita retórica,
ações pendulares e grandes operações de marketing político. O presidente Obama
refere-se criticamente à política de instalação de colônias na Cisjordânia, mas
reafirma o compromisso com a "segurança" de Israel, mantém a ajuda militar e
autoriza a participação do exército norte-americano em exercícios militares conjuntos
com o exército israelense. Anuncia que fechará o campo de concentração de
Guantánamo, relaxa os aspectos mais odiosos do bloqueio a Cuba e em seguida
prorroga a vigência da lei que autoriza o bloqueio à revolucionária Ilha.
Participa de reunião de cúpula com chefes de Estado de toda a América Latina,
preconiza o início de uma nova época nas relações hemisféricas mas continua a
fustigar e provocar os governos antiimperialistas nomeadamente os da Venezuela
e da Bolívia. Revoga o plano de instalação do escudo anti-mísseis na República
Tcheca e na Polônia mas anuncia simultaneamente que os Estados Unidos continuam
comprometidos com um sistema de defesa com mísseis antibalísticos.
4 -
Essencialmente, a situação internacional não registra progressos em favor da
paz, no que diz respeito às ações dos Estados Unidos e seus aliados, nem à
diminuição das tensões ou focos de conflitos.
5 - As chamas da
guerra continuam a arder no Iraque sob ocupação das tropas estadunidenses. O
anúncio do plano de retirada a longo prazo não contribuiu para estabilizar a
situação. A presença de tropas de ocupação continua a provocar escaramuças
militares e incidentes políticos.
6 - O presidente Obama defendeu a continuidade da
chamada "guerra ao terrorismo", deslocando o seu centro para o Afeganistão.
Desde o início do seu mandato, tem defendido que os Estados Unidos necessitam
de mais tropas e recursos para ganhar a guerra no Afeganistão e confrontar a
crescente ameaça da Al Qaeda na fronteira com o Paquistão. A Guerra do Afeganistão,
herança maldita do governo de George W. Bush, vai convertendo-se cada vez mais
na guerra de Obama. No último dia 20 de setembro, o presidente declarou que esta guerra não tem praz para acabar. "Eu
não tenho um prazo final para a retirada" do Afeganistão, disse ele em
entrevista a um programa televisivo.
Nesse mesmo dia, o jornal "The Washington
Post" divulgou documento escrito pelo general Stanley McChrystal, comandante
das forças norte-americanas e da OTAN no Afeganistão e enviado ao secretário da
Defesa dos Estados Unidos, Robert Gates, em 30 de agosto, afirmando que os
Estados Unidos precisam enviar mais tropas ao Afeganistão a fim de evitar uma
derrota. "O fracasso em prover recursos
adequados (mais tropas) resulta no risco de um conflito mais longo, mais
mortes, custos mais elevados, e em última instância, uma perda de apoio
político. Qualquer um desses riscos, por sua vez, pode resultar no fracasso da
missão.
O general propõe acelerar o aumento do
número de soldados. A meta atual é expandir o contingente de 92 mil para 134
mil até dezembro de 2011. Sua proposta é atingir esse nível até outubro de
2010.
7 - Seguindo o
mesmo curso de primazia militar, os Estados Unidos têm quase um milhar de bases
militares espalhadas pelo mundo. O novo governo propôs o aumento dos gastos
militares, que correspondem a quase a metade dos gastos de todos os demais
países somados. O Orçamento militar da Casa Branca foi incrementado em 4%, ao
passo que foi aumentada também a verba destinada a financiar as guerras do
Iraque e do Afeganistão (mais 75,5 bilhões de dólares para 2009 e mais 1e30
bilhões de dólares para o ano de 2010).
8 - Ultimamente
passou para o centro da política do imperialismo norte-americano o aumento da
presença militar na América Latina e no Caribe, como o demonstram o
relançamento da Quarta Frota, no apagar das luzes do governo de George W. Bush
e o acordo militar entre os Estados Unidos e a Colômbia que prevê a instalação
de sete bases militares do da superpotência do Norte nesse país sul-americano.
Por este acordo, as forças armadas
estadunidenses utilizarão três instalações militares colombianas nas regiões de
Malambo, na costa norte do Caribe, aolado da Venezuela, Palanquero, no rio
Magdalena, a 100 km a noroeste de Bogotá, no centro do país, e
Apiay, nas planícies orientais, próximo à fronteira brasileira . A estas se agregam as bases de Tolemaida no
centro do país e Larandia, perto da fronteira com o Equador. A iniciativa prevê
ainda a utilização da base naval da Baía de Málaga e a de Cartagena, na Costa
do Caribe, por navios de guerra dos Estados Unidos. Com duração de dez anos, o
acordo permitirá que os norte-americanos tenham 1.400 homens, entre civis e
militares na Colômbia e contará com investimentos da ordem de 5 bilhões de
dólares. Com muita propriedade, o líder cubano, companheiro Fidel Castro,
chamou essas bases militares de "sete punhais no coração da América". O
presidente venezuelano Hugo Chávez denunciou em termos contundentes:
"Queremos
denunciar que este fato é parte de um plano político e militar, orquestrado
para acabar com o projeto da União das Nações Sul-americanas (UNASUL), além de
ser a maior ameaça neste momento histórico, para as infinitas riquezas que
jazem em nosso continente, isto é: o ouro negro, nosso petróleo; o ouro azul,
as grandes reservas acuiferas; o ouro verde, nossa Amazônia" (Carta do
presidente Hugo Chávez aos presidentes dos países que compõem a UNASUL, 10 de
agosto de 2009). No mesmo documento, o presidente da República Bolivariana da Venezuela
assinalou: "Seria um grave erro pensar
que a ameaça é apenas contra a Venezuela; dirige-se a todos os países do Sul do
continente. Geopoliticamente estamos ao sul da hegemonia e é uma realidade que,
transcendendo a tendência política dos governos do mundo, o problema da guerra diz
respeito a toda a humanidade".
Os Estados Unidos reativaram a Quarta
Frota de sua Marinha de Guerra num momento em que a América Latina ruma para a
consolidação de um bloco regional que se caracteriza pelas posturas solidárias,
independentes e soberanas, construindo fóruns regionais como o Mercosul, a
Unasul, a Alba e o Conselho de Defesa Sul-Americano, afastando-se objetivamente
da tutela estadunidense. Acrescente-se que em meio a este processo foi
derrotada a tentativa dos Estados Unidos de impor à América Latina a criação de
uma Área de Livre Comércio, a ALCA. O relançamento da Quarta Frota ocorre
também num momento em que o Brasil realiza importantes descobertas petrolíferas
na Costa, que o podem levar a ser um dos grandes produtores de petróleo do
mundo. Trata-se de uma perigosa ameaça à soberania dos povos e países da
região.
9 - A América
Latina está vivendo, desde 1998, com a eleição do presidente venezuelano Hugo
Chávez, uma etapa inédita e sua história política desde a primeira
independência há 200 anos. Ao longo do século XX a região foi vítima do
sistemático intervencionismo norte-americano. Nas décadas de 1960 e 1970 teve
lugar o ciclo das ditaduras militares pró-estadunidenses. E nos anos 1980 e 1990, a região foi presa
econômica, social e politicamente das engrenagens do neoliberalismo codificado
no chamado Consenso de Washington.
Da eleição de Hugo Chávez em 1998 até o
momento, ocorreram muitas vitórias políticas eleitorais, fruto da acumulação de
forças pelos povos, que levaram ao poder coalizões de esquerda e
centro-esquerda. Hoje, boa parte dos países da região são dirigidos por
governos progressistas, democráticos, populares e antiimperialistas que estão
contribuindo para alterar a geopolítica
mundial. O sentido mais geral dos fenômenos em curso na região é a formação de
uma corrente progressista e a acumulação de vitórias os povos e países em
termos de independência, soberania, democracia, mecanismos de participação
popular, justiça, desenvolvimento e progresso social.
Nesse quadro de avanços progressistas na
América Latina, ressalta a celebração do 50º aniversário da Revolução Cubana,
com a reafirmação dos valores de resistência, luta e empenho para construir uma
nova sociedade.
Depositária da amizade e da solidariedade
dos povos irmãos e dos governos progressistas da região, Cuba conquistou duas
significativas vitórias políticas e diplomáticas nos últimos meses - seu
acolhimento no sistema interamericano durante a Cúpula de Sauípe, realizada na
Bahia, Brasil, em dezembro do ano passado, e a recente revogação do artigo que
a excluía da OEA, durante a histórica reunião realizada em São Pedro Sula, Honduras, ainda
sob os auspícios do governo do presidente Zelaya.
10 - Por isso,
para o imperialismo norte-americano e a despeito da retórica e da habilidade do
presidente Obama, está no centro das suas preocupações estratégicas recuperar o
controle geopolítico da América Latina. É neste quadro que se inscreve a
militarização - Quarta Frota e bases na Colômbia -, o golpe de Estado em
Honduras e as tentativas das oligarquias reacionárias em diferentes países para
criminalizar os movimentos sociais.
11 - Em todo este
contexto, o Conselho Mundial da Paz reafirma sua condenação às estratégias
guerreiras do imperialismo norte-americano e seus aliados, à militarização e
todas as ameaças à paz. Exige a retirada das tropas de ocupação do Iraque e do
Afeganistão e a libertação da Palestina, com a criação do seu estado nacional.
Manifesta indeclinável solidariedade com os povos latino-americanos na luta por
sua independência e soberania, pela democracia e a integração, contra a
ingerência do imperialismo
estadunidense, contra a Quata Frota e as bases militares na Colômba e em todos os países da região.
Toronto, Canadá, 2
de outubro de 2009.
Socorro Gomes
Presidente do
Conselho Mundial da Paz
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