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Shimon Peres é Shimon Peres. Ahmadinejad é Ahmadinejad

Shimon Peres, presidente de Israel, está no Brasil para uma visita de cinco dias. Na montanha de referências a seu nome que saiu nos sites de jornais nas últimas horas, não notei nenhum tom crítico. Peres já discursou no Senado, já ganhou título de Cidadão Honorário de Brasília, já criticou o Irã e logo vai com seu teatro para Rio e São Paulo. Onde estão os jornalistas e comentaristas brasileiros amigos da paz mundial, que ainda há pouco babavam contra o presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad, o Demônio, e sua adiada visita ao Brasil? Algo me diz que nos próximos dias o presidente israelense será tratado com tapete vermelho nas páginas de jornais, revistas e nos noticiários da tevê. Prevejo que será como se o príncipe de Mônaco circulasse pelo território nacional. Me permito listar alguns fatos que, suspeito, não serão destaque na mídia pacifista brasileira.

Em um livro de memórias, Shimon Peres admitiu sem muito peso na consciência que Israel desviou dinheiro doado por judeus de todo o mundo, com propósitos humanitários, para o programa nuclear clandestino do país, nos anos 1950-60. Aliás, Peres é conhecido como o homem que intrduziu o armamento nuclear no Oriente Médio, ainda que não tenha sido por isso que levou pra casa o Nobel da paz.

— Ahmadinejad e Peres segundo o roteiro —

Em maio de 2002, Peres, então ministro do exterior, foi aos EUA fazer lobby pela invasão do Iraque. Em entrevista à CNN, disse que “Saddam Hussein é tão perigoso quanto bin Laden”, e que os Estados Unidos não deveriam esperar sentados até que ele pusesse seu arsenal nuclear para trabalhar. Era mais do que chegada a hora de derrubar o ditador barbudo.* Em setembro do mesmo ano, impaciente com os despreparados inspetores da ONU que não descobriam logo os mais que evidentes planos de Saddam para conquistar o mundo, Peres disse que, de qualquer forma, “A campanha contra Saddam Hussein é necessária. Inspeções e inspetores são bons para pessoas decentes, mas pessoas desonestas facilmente enganam as inspeções e os inspetores.” Em Fevereiro de 2003, irritou-se com a oposição francesa à guerra, e questionou a conveniência do país europeu fazer parte do Conselho de Segurança da ONU como membro permanente.**

No discurso ao senado brasileiro, Shimon Peres criticou a futura visita do presidente iraniano Ahmadinejad. Disse que não tem nada contra o povo iraniano, que suas desavenças são com o atual líder. Será? Em 1993, tão logo Clinton subiu ao poder nos EUA, Peres, então primeiro-ministro, e outros líderes de Israel começaram uma campanha para denegrir o Irã. Temiam que uma aproximação entre Washington e Teerã acabasse por deixar Israel como um parceiro não tão preferencial dos EUA, agora que a Guerra Fria acabara. Então, o que propagar? Que o Irã não passa de um Estado que gesta, exporta e patrocina terroristas, claro. Que o Irã, em suma, “é um perigo mundial”, para usar a frase original que o excelentíssimo presidente soltou no Senado.

Em 1993, o presidente iraniano era Ali Rafsanjani, um moderado, inimigo do radicalismo da “República Islmâmica” e oponente do atual presidente Ahmadinejad, para quem perdeu as eleições em 2005. Não fez diferença para Israel que Rafsanjani fosse presidente em 1993, assim como não fez quando outro moderado, Mohammad Khatami, ocupou o cargo de 1997 a 2005.

Aliás, em 2003, mal Saddam fora defenestrado do poder, Shimon Peres começou a advogar outro ataque, agora contra o Irã – sim, o Irã de Khatami, não o de Ahmadinejad. Enquanto o embaixador israelense em Washington espalhava que a queda de Saddam “não era o bastante”, Peres publicou artigo no Wall Street Journal, em junho, intitulado “We must unite to prevent an Ayatollah Nuke“. Dada a precisão da análise anterior de Peres, sobre o perigo representado por Saddam, esse artigo no WSJ só pode ser mais uma prova de que se trata realmente de um homem determinado a lutar pela paz, sempre e com todas as armas ao alcance.

Por último, tendo que encarar as duras e conhecidas verdades do recente Relatório Goldstone da ONU (sobre o mais recente show de massacre de civis palestinos por Israel, conhecido como Guerra de Gaza), Shimon Peres o classificou de “uma paródia da história” — isto é, da “história” adequada a Peres/Israel.

— Estudantes de Oxford recepcionam Shimon Peres em novembro de 2008 —

Mas não espere ler muito sobre isso nas reportagens, editoriais e colunas da imprensa brasileira. Se você quiser ver sangue de verdade, terá que esperar o próximo dia 23, quando Ahmadinejad, a besta em pessoa, pisa em solo brasileiro. Isto é, se as forças da paz não o alcançarem antes.

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* Essa e outras informações do post estão no imperdível The Israel lobby and US foreign policy.
** “Peres questions France permanent status on security council” – Ha’aretz, 20 de fevereiro de 2003.

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