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Cebrapaz faz lançamento continental de campanha contra bases estrangeiras

Além de promover um rico debate sobre soberania e autodeterminação dos povos na América Latina, a atividade promovida pelo Cebrapaz (Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz) nesta quinta-feira (28/1) lançou a campanha “América Latina e Caribe, uma região de paz”, pela erradicação de bases militares estrangeiras no continente.

A campanha foi lançada em conjunto com diversas entidades dos movimentos sociais após o debate “A presença militar dos Estados Unidos na América Latina”, durante o Fórum Social Mundial em Porto Alegre (RS), que se encerra hoje (29) com a Assembleia dos Movimentos Sociais, marcada para as 10 horas na Usina do Gasômetro.

A presidente do Cebrapaz, Socorro Gomes, abriu o debate dizendo que a América Latina está em disputa, mas que, “embora o poder do imperialismo seja imenso, também nós acumulamos vitórias”, e citou como exemplos a resistência de meio século de Cuba contra as tentativas dos Estados Unidos de derrubar o regime socialista ainda em vigor naquele país; e a capacidade do movimento popular brasileiro de ter revertido a concessão de território em Alcântara, no Maranhão, para a instalação de base militar norte-americana.

Joel Sanchez, do Equador, parabenizou povo brasileiro por completar oito anos que o Brasil logrou vitória na luta contra a implementação da Área de Livre Comércio das Américas (Alca). Para ele, essa luta se constitui em um tripé, composto ainda pela questão da revisão das dívidas públicas e externas dos países periféricos, e da luta contra a militarização e contra a permanente ameaça de guerras. Outra vitória citada por Joel foi à saída das tropas americanas da base de Malta, no Equador. Sanchez terminou sua intervenção apontando agenda vigorosa no ano de 2010.

Golpe em Honduras continua

O debate contou ainda com a presença da hondurenha Lorena Zelaya, que destacou que o golpe de Honduras continua e agora o “presidente” de direita assumiu o poder, tal como desejado pelas “elites golpistas”, como classificou Lorena. Para a hondurenha, trata-se de “uma triste derrota para a América Latina” e completa dizendo que o desfecho do golpe em Honduras “demonstra que há uma nova estratégia onde as bases estrangeiras se apresentam não mais como opressoras, mas, como prestadoras de serviços humanitários”.

Lorena relatou a luta do povo hondurenho sob repressão, e denunciou: “Tudo isso cercado da brutal conivência e silêncio da mídia quanto à resistência popular”. Ao mesmo tempo, destacou a enorme solidariedade proveniente dos meios alternativos de comunicação.

Lorena Zelaya revelou ainda as articulações de ex-embaixadores americanos na articulação e financiamento do golpe, estando as visitas deles a Honduras sempre justificadas como combate ao narcotráfico. Ela encerrou dizendo que os exércitos da América Latina são “irmãos entre si”, e que, mesmo com essa derrota, muita coisa mudou no amadurecimento do seu povo.

A principal liderança do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), João Pedro Stédile, também participou do ato, e afirmou que a Via Campesina e o MST vão levar campanha para suas assembleias populares em maio e em todas as outras atividades. Stédile propôs introduzir a questão das bases militares no referendo sobre as questões climáticas, proposto pela Coordenação Latino-Americana de Organizações Camponesas.

A proposta é realizar este debate durante Cúpula Mundial de Movimentos Sociais sobre a Mudança Climática, que o presidente boliviano, Evo Morales, quer realizar em Cochabamba entre 19 e 22 de abril. Stédile propôs incluir também uma questão sobre a Quarta Frota neste referendo.

Cuba: tornar revolução irreversível

A representante de Cuba, Lourdes Regueiro, do Centro de Estudos da América, destacou que o processo emancipatório que está em curso na última década na América Latina está sob ameaça e ataque explícito. Mesmo Cuba tem diante de si a tarefa de tornar sua revolução irreversível, e é um desafio. Lourdes falou ainda da tensão e do desejo do povo cubano para retomar o controle do território de Guantanamo que, no governo Bush, se transformou em um campo de torturas.

Sobre a campanha de desmilitarização, ela entende que é preciso reforçar as alianças de solidariedade e manter uma articulação “séria e monolítica”, para responder ao avanço a militarização, movimento que acontece sob o manto das “ações humanitárias”. Lourdes denunciou que estas ações humanitárias são apenas fachada para um novo avanço do controle do Império, representado pelos Estados Unidos. Para exemplificar, citou a invasão militar, e não de médicos e engenheiros, como seria necessário, no Haiti.

Lourdes finalizou sua fala enfaticamente: “Não podemos nos enganar, hoje são mais de 200 mil soldados americanos nas 865 bases espalhadas por todo mundo, sempre em regiões onde as riquezas minerais, aqüíferos e diversidade biológica são incontestáveis”.

O representante do MST, Joaquim, reforçou apresentou os materiais da campanha “América Latina e Caribe, uma região de paz” e convocou o conjunto dos movimentos a “colocar a campanha nas ruas”. Em apoio à campanha falaram ainda representantes do Jubileu Sul, da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), do Encuentro Nuestra América, da CUC da Guatemala, da Assembleia Permanente dos Direitos Humanos da Argentina, do Grito dos Excluídos Continental, da Organização Caribenho dos Estudantes (Oclae), do Congresso Popular do Paraguai e, por fim, a representante da Marcha Mundial das Mulheres leu o manifesto de lançamento da campanha.

Resistência ao imperialismo

O manifesto que diz que, “diante da nova escala de agressões do imperialismo” contra “o processo de mudanças que se vive na América Latina”, é necessário preparar “a mobilização para a resistência”. Segundo o documento, “a invasão do Haiti depois do terremoto (do último dia 12), a reativação da IV Frota (Naval dos EUA), as iniciativas golpistas apoiadas pelos americanos em Honduras, o bloqueio a Cuba e as agressões contra Venezuela, Bolívia e outros países” revelam “as intenções imperiais” de Washington em relação à América Latina.

O paraguaio Daniel Amado, da organização La Comuna, sugeriu aos ativistas prepararem um grande mobilização em Assunção, que, em meados de agosto, abrigará o Fórum Social da América.

Socorro Gomes encerrou os trabalhos conclamando a todos e todas a tornarem a campanha “um movimento político forte e intransponível pelas forças imperialistas”. O encaminhamento final foi que a campanha contra as bases estrangeiras será promovida em todos os eventos que o Fórum Social Mundial realizar ao longo de 2010, em cerca de 30 países.

Fonte: Sônia Latgê e Luana Bonone (Portal Vermelho)

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