Ícone do site CEBRAPAZ

Os dois pesos e as duas medidas da questão nuclear. Por Jorge Cadima

Foi divulgada a nova doutrina nuclear (NPR) dos EUA. A comunicação social destacou a nova promessa de “não usar ou ameaçar usar armas nucleares contra estados que não possuam armas nucleares, sejam signatários do TNP (Tratado de Não Proliferação Nuclear) e cumpram com as suas obrigações de não proliferação nuclear”. A declaração foi apresentada como prova do “pacifismo” do atual presidente dos EUA. Que não haja ilusões.

Que uma declaração de que não se pretende usar armas nucleares contra quem não as tem seja visto como um passo importante, revela bem quão agressiva e perigosa é a maior potência imperialista do planeta. Mesmo esta modesta declaração parece não ter sido pacífica, uma vez que a NPR foi divulgada com vários meses de atraso sobre o previsto.

Mas os EUA continuam a reservar-se o direito de lançar um ataque nuclear inicial contra países que têm armas nucleares, países onde vive quase metade da humanidade: a China, a Rússia, a Índia, o Paquistão, além dos aliados dos EUA (Reino Unido, França, Israel). Potenciais alvos de ataques nucleares são também países que sejam considerados prevaricadores da não-proliferação e o documento faz questão de citar dois: Irã e Coreia do Norte.

Apesar de invectivar contra países que considera não respeitarem o TNP, o documento dos EUA nada diz sobre os países que nem sequer assinaram o Tratado de Não Proliferação. A razão é óbvia: entre eles está Israel – a única potência nuclear do Oriente Médio e fiel aliado dos EUA.

Que já ameaçou repetidamente atacar o Irã. Os dois pesos e duas medidas estão para durar.

Para que não fiquem dúvidas, a NPR diz textualmente: “Os Estados Unidos não estão preparados, no momento atual, para adotar uma política universal que considere que o único objetivo das armas nucleares seja desencorajar um ataque nuclear”. A NPR declara que os EUA querem impor a sua visão de não proliferação, incluindo “controlar todo o material nuclear vulnerável a nível mundial, no espaço de quatro anos”, deixando antever que as profissões de fé “pacifistas” serão usadas para reforçar a agressividade da potência imperialista.

Há fatos que não podem ser esquecidos: os EUA têm o maior orçamento militar da História, igual às despesas militares de todos os restantes países juntos. Estão empenhados em múltiplas guerras e agressões. Estão empenhados na militarização do espaço e no desenvolvimento de “uma arma que possa colmatar o vazio (resultante de cortes no arsenal nuclear): mísseis armados com ogivas convencionais que podem atingir qualquer parte do planeta em menos de uma hora” (Washington Post, 8/4/2010). Este novo sistema ofensivo dá pelo nome de “Prompt Global Strike” (Ataque Global Rápido).

O Washington Post relata a reação do ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Lavrov: “Os Estados do mundo dificilmente aceitarão uma situação em que as armas nucleares desapareçam, mas armas não menos desestabilizadoras surgem nas mãos de alguns membros da comunidade internacional”. O general na reserva russo, Leonid Ivashov, usa linguagem menos diplomática: “o conceito Prompt Global Strike visa sustentar o monopólio dos EUA na esfera militar e alargar o fosso entre si e o resto do planeta. Em conjunto com a instalação de defesas antimísseis que visam tornar os EUA imunes a ataques de retaliação da Rússia e da China, a iniciativa Prompt Global Strike vai tornar Washington num ditador global na era moderna.

Na sua essência, a nova doutrina nuclear dos EUA é um elemento do novo conceito estratégico de segurança que seria mais adequadamente descrito como uma estratégia de total impunidade.

Os EUA estão a aumentar o seu orçamento militar, desencadeiam a Nato como gendarme mundial e planejam exercícios de vida real no Irã para testar na prática a eficiência da iniciativa Prompt Global Strike. Ao mesmo tempo, Washington está a falar dum mundo “totalmente livre de armas nucleares”.

A justa e necessária desnuclearização global passa pela derrota do militarismo imperialista.

* Jorge Cadima é professor na Universidade Técnica de Lisboa e analista de política internacional

Fonte: Avante

Sair da versão mobile