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As guerras são herdadas. Por Daniel Luban

Após um ano e meio de governo, qualquer esperança de que a administração de Barack Obama conseguisse uma mudança na política externa dos Estados Unidos se desfez. O mandatário até agora mostrou ter pouca inclinação para romper com o passado quando se trata de relações internacionais.

O governo de George W. Bush fez o público estadunidense conhecer nomes como Guantanamo (pelas torturas contra suspeitos de terrorismo), Faluja (pela sangrenta ofensiva de 2004 contra essa cidade iraquiana) e Blackwater (pela participação de mercenários dessa empresa de segurança privada em ações bélicas).
 
Durante o governo de Obama os nomes são Bagram (prisão nessa base militar dos Estados Unidos no Afeganistão), Waziristão (zona paquistanesa onde as forças de Washington lutam contra insurgentes) e Predator (tipo de avião não tripulado que organizações de direitos humanos acusam de assassinar civis em ações da CIA).
 
Para que fique claro, isto não significa, como sugeriram alguns desiludidos partidários de Obama, que o chefe de Estado “não seja diferente de Bush”, sobretudo se a referência for ao obstinado primeiro mandato deste último que eles têm em mente. Embora a diplomacia de Obama com o Irã, por exemplo, careça de inspiração — com uma grande energia dedicada a aprovar sanções internacionais que são provocativas e inúteis —, também é certo que trabalha ativamente para evitar uma guerra aberta com esta república islâmica.


Isso é muito mais do que se poderia dizer, naturalmente, se o presidente fosse John McCain ou Sarah Palin, ambos do opositor Partido Republicano e com posturas muito mais belicistas em matéria internacional.
 
Obama também patinou em confrontações com o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, mas ao menos demonstrou uma consciência de que o cheque em branco que Bush oferecia ao Estado judeu agora é insustentável, ao contrário dos republicanos, que dão pleno apoio à ideologia da Grande Israel (ocupando as terras árabes) dos colonos judeus.
 
No entanto, embora Obama não cometa os mais graves excessos de seu antecessor, permanece solidamente fiel ao que o analista internacional Andrew Bacevich define como a “ideologia de segurança nacional”, que reina nos Estados Unidos desde a Segunda Guerra (1939-1945). Pouco importa se esta filosofia é resultado de uma convicção pessoal de Obama ou de pressões políticas.
 
A verdadeira pergunta é: alguém deveria se surpreender? Havia alguma razão para crer que um governo de Obama marcaria uma mudança importante na política externa norte-americana, ou os partidários progressistas do agora presidente depositaram nele suas esperanças sem contar com evidências que o justificasse? Em alguns assuntos, como a política com os suspeitos de terrorismo detidos, Obama claramente descumpriu as promessas que fez quando era candidato, mas em muitos outros, particularmente na escalada da guerra no Afeganistão, simplesmente seguiu os objetivos que havia declarado.
 
O livro The American Way of War: How Bush’s Wars Became Obama’s (A Guerra à Maneira Norte-Americana: Como as Guerras de Bush se Converteram nas de Obama, Haymarket Books, 2010), Tom Engelhardt faz um profundo exame da política externa de Washington desde 2001, e detalha como Obama herdou, e em alguns casos exacerbou, os males da era Bush.
 
Engelhardt não dá explicitamente sua opinião sobre o curso dos fatos, e se nega a cair em análises simplificadas e personalistas, como contrastar o “cruzado” Obama que cavalga para Washington para trocá-lo inteiro pelo Obama cínico que sacrifica seus princípios por conveniência política. Ao contrário, coloca para o leitor a possibilidade de que as forças que fazem com que a política externa dos Estados Unidos seja o que é hoje transcendam os personalismos, e sugere que, para mudar a postura de Washington no mundo, será preciso mais do que votar nos “bons”.
 
Engelhardt é mais conhecido como o homem por trás do site TomDispatch.com, que, desde os atentados terroristas de 11 de setembro de 2001 em Nova York e Washington, lança as mais mordazes críticas à política externa norte-americana. Com o site colaboram analistas que incluem todo o espectro ideológico, desde Bacevich, na direita, até Noam Chomsky, na esquerda.
 
O livro de Engelhardt reúne alguns de seus melhores ensaios escritos para o site entre 2004 e 2010. Uma característica assombrosa do texto é como flui sua redação, sem costuras, apesar de a primeira parte ter sido escrita no primeiro mandato de Bush e o restante há uns poucos meses. Isto é por si só um indício de como as coisas mudaram tão pouco. Seu livro anterior, The End of Victory Culture (O Fim da Cultura da Vitória), era uma perspicaz análise de como a cultura popular dos Estados Unidos deu forma ao discurso triunfalista da Guerra Fria.
 
O autor demonstra que a cultura da mídia de massa influencia o que comumente se considera domínio dos políticos. O primeiro capítulo examina como os ataques de 11 de setembro de 2001 deram forma ao panorama político norte-americano na última década, de maneira tanto óbvia quanto sutil, e também como encontraram particular ressonância em uma população que há tempos se preparava psicologicamente para um apocalipse ao estilo cinematográfico.
 
Engelhardt pergunta o quanto teria sido diferente o curso da história se o World Trade Center não tivesse caído. Sem o horror visual do desmoronamento das torres, talvez os políticos se sentissem menos inclinados a lançar a toda força uma “guerra mundial contra o terrorismo”.
 
Ou, talvez, a sede de vingança do público norte-americano teria sido saciada apenas com a derrubada do movimento islâmico Talibã no Afeganistão, e talvez Washington não tivesse invadido o Iraque pela percebida necessidade de “ir justo ao coração do mundo árabe para sufocar algo” em resposta, segundo o jornalista Thomas Friedman, colunista do The New York Times.


Fonte: IPS/Envolverde

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