Ao Sputnik, diretor do Cebrapaz José Reinaldo Carvalho denuncia política externa conservadora e ofensiva do futuro governo Bolsonaro

Membro da Direção Executiva do Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz (Cebrapaz) e editor do portal Resistência, José Reinaldo Carvalho concedeu entrevista ao portal de notícias Sputnik, onde avaliou os rumos previstos para uma política externa brasileira conservadora e ofensiva sob o governo Bolsonaro. Leia a matéria do Sputnik a seguir, traduzida pelo Resistência.

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Deputado Eduardo Bolsonaro participa da Cúpula Conservadora das Américas, em Foz do Iguaçu, em 8 de dezembro.

Filho de Bolsonaro lança seus dardos contra Cuba, Venezuela e Nicarágua em cúpula conservadora

O deputado federal Eduardo Bolsonaro participou de um evento que busca articular a direita regional. Em seu discurso, atacou Venezuela, Cuba e Nicarágua, sugerindo até mesmo que o Brasil seja a sede de um tribunal para julgar autoridades desses países.

Eduardo Bolsonaro era um dos líderes da Cúpula Conservadora das Américas, que foi realizada no fim de semana passado em Foz do Iguaçu. Esta articulação internacional pretende ser uma contraposição ao Foro de São Paulo, que aglutina movimentos progressistas e organizações sociais do continente.

“No governo Bolsonaro o Brasil pretende converter-se em uma espécie de sede mundial, o pelo menos regional, da direita internacional. Isto é algo novo, que nunca ocorreu em outra época histórica no Brasil, nem sequer na época da ditadura militar. Isto é algo que os democratas e patriotas do Brasil não podem aceitar”, opinou em entrevista à Sputnik José Reinaldo Carvalho, diretor do Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz.

De fato, o presidente eleito felicitou por Twitter a iniciativa, referindo-se à sua vitória eleitoral como “uma resposta aos estragos” que em sua opinião os governos progressistas causaram “em todos os lugares, em especial na Venezuela”. “Este é o momento de propor novos caminhos e a Cúpula Conservadora das Américas representa esse desejo”, disse Jair Bolsonaro.

Participou do evento, também por videoconferência Olavo de Carvalho, considerado por muitos analistas como o ideólogo do presidente eleito. Mas as palavras que mais ecoaram foram as do deputado Eduardo Bolsonaro, que sugeriu a criação de um tribunal para julgar autoridades cubanas.

“Seria um motivo de satisfação para o Brasil, quem sabe, receber um tribunal para julgá-los pelos crimes contra a humanidade cometidos pelo regime cubano”, disse o filho do presidente eleito. Indicou também que seu país “não se tornaria uma Venezuela”.

Para José Reinaldo Carvalho, este tipo de declarações são “uma provocação contra países soberanos, contra países amigos”, e portanto “são inaceitáveis”. A gravidade de tais afirmações do deputado aumenta se se tem em conta que “é deputado federal, filho do futuro presidente da República e interfere nos assuntos da política externa brasileira”.

O diretor do Cebrapaz indicou também que a partir dessas afirmações e outras do presidente eleito e de seu filho, “pode-se dizer que estão buscando atribuir ao Brasil um papel de gendarme internacional na América Latina a serviço do imperialismo estadunidense”.

“Isto é muito perigoso. Houve uma mudança radical na política externa brasileira, porque todos sabemos que durante o período em que Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2011) e Dilma Rousseff governaram, o Brasil foi uma espécie de garantidor e avalista da paz”, afirmou José Reinaldo.

“O Brasil se destacou no concerto internacional não só pelas políticas pacifistas em si mesmas que defendeu na ONU e outros foros internacionais, mas também pelas políticas de integração econômica, social, física e política da região. Tudo isso mostrava um caminho para a paz através da integração e do desenvolvimento”, acrescentou.

Por outro lado, o analista indicou que “é um equívoco imaginar que os países citados sejam débeis e vulneráveis”, e dar de barato que “não têm respaldo internacional, amigos e aliados”.

Não obstante, José Reinaldo Carvalho sublinhou que as declarações de membros do governo de transição têm suscitado discordâncias de alguns setores internos.

Alguns militares, por exemplo, que manejam assuntos geopolíticos, “compreendem bem o que significa uma política de ataque, o que são políticas de defesa e o que são políticas de dissuasão”. Por isso, “sabem que o Brasil não pode envolver-se em aventuras”, arrematou José Reinaldo.

O próprio vice-presidente eleito, general de reserva Hamilton Mourão, descartou a possibilidade de uma intervenção militar na Venezuela, na contramão das declarações de outros integrantes do governo de transição e em discordância com o próprio presidente eleito.

José Reinaldo diz ainda que ao participar em evento como a Cúpula Conservadora com esse tipo de opiniões, Eduardo Bolsonaro está atuando como se fosse uma espécie de chanceler paralelo de fato, apesar de que o Brasil conta com diplomatas qualificados.

Fonte: Sputnik
Tradução: Resistência