Jovem saaráui imola-se em protesto contra ocupação marroquina

Um jovem saaráui, Ahmed Salem Lemghaimad, foi declarado morto nesta quarta-feira (6), poucos dias após ter ateado fogo ao próprio corpo. Ahmed, de 24 anos de idade, imolou-se no sábado (2), na fronteira de Gargarat entre o território do Saara Ocidental ocupado pelo Reino do Marrocos, a porção liberada pelos saaráuis em quase duas décadas de luta armada, e a Mauritânia.

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Em nota veiculada nesta quinta-feira (7) pela agência Sahara Press Service (SPS), o Ministério para Assuntos dos Territórios Ocupados, da República Árabe Saaráui Democrática (RASD), condenou a ocupação marroquina e afirmou que Ahmed não viu outra forma de expressar sua rejeição às políticas repressivas a não ser a imolação diante da polícia marroquina e das forças da Missão das Nações Unidas para o Referendo no Saara Ocidental (MINURSO), posicionadas na fronteira.

O Ministério “responsabiliza o Estado Marroquino pela morte do jovem rapaz e por todos os assassinatos cometidos durante estes mais de 40 anos de ocupação e espólio, e insta a comunidade internacional a tomar medidas urgentes para acabar com esta tragédia humana,” cita a SPS.

De acordo com um membro da Equipe Media, que realiza a cobertura da situação no território ocupado, antes do ato, o jovem, que vivia em El Aiún, capital do Saara Ocidental, gravou um vídeo explicando que protestava contra o assédio que sofria por parte da polícia marroquina quando comercializava chá, roupas e outros produtos na fronteira. Ele defendia seu direito a trabalhar como um cidadão saaráui que vive na cidade ocupada de El Aiún e contava vir de uma família humilde que dependia do seu sustento.

Segundo a mesma fonte, a família denuncia que Ahmed foi levado de ambulância, por terra, até um hospital em Casablanca, Marrocos, a 1.800 km de Gargarat. Além disso, embora a administração do hospital tenha declarado sua morte na quarta (6), não se sabe ao certo quando Ahmed morreu. O corpo teria sido enterrado em El Aiún sem o conhecimento da família, que segue sob pressão por ter protestado contra o anunciado enterro de Ahmed em Casablanca e ter acusado as forças marroquinas de responsabilidade pelo sucedido, conta o membro da Equipe Media.

A representação da Frente para a Libertação de Saguía el-Hamra e Rio de Oro (Polisario) para a Organização das Nações Unidas (ONU) comunicou no domingo (3) o caso de Ahmed ao secretário-geral adjunto para as operações de manutenção da paz Jean-Pierre Lacroix e ao representante especial do Secretário-Geral para o Saara Ocidental, Stuart Colin. Na carta, a representação denuncia os maus-tratos e a discriminação sofrida pelos saaráuis nas mãos dos oficiais marroquinos, de acordo com a SPS.

A Polisario também reforça denúncia de que a presença marroquina no local viola os termos do acordo de cessar-fogo em vigor desde 1991 e ameaça a vida dos saaráuis que passam por Gargarat. “Esta situação é intolerável, é fundamental, neste momento, que as Nações Unidas assumam sua plena responsabilidade e garantam o pleno cumprimento do cessar-fogo e os termos do Acordo Militar número 1”, afirma a missiva.

O Saara Ocidental está ocupado militarmente pelo Marrocos desde 1975, quando a Espanha retirou-se da antiga colônia, deixando em suspenso o processo de descolonização. Em 1976, a Polisario declarou a RASD, hoje reconhecida por cerca de 80 países. O conflito armado continuou, contra o Marrocos, até que em 1991 um cessar-fogo foi estabelecido prevendo a realização de um referendo de autodeterminação, cuja organização é o cerne do mandato da Minurso, mas que segue pendente.

Dezenas de milhares de saaráuis vivem em campos de refugiados na Argélia e outros vivem sob a ocupação marroquina, denunciando brutais e sistemáticas violações de direitos humanos enquanto aguardam pelo prometido referendo para determinar o seu destino destino e o do Saara Ocidental.

Cebrapaz,
Com Equipe Media e Sahara Press Service