Derrota dos EUA no Afeganistão mostra com nitidez o desenho da nova ordem mundial

Somente o tempo dirá se a tomada do poder pelo Talibã no Afeganistão terá sido uma tragédia humanitária e um prejuízo inarredável para o direito internacional humanitário, o que se somaria ao plantel de crimes do imperialismo estadunidense, responsável em primeira e última instância pelo desfecho do conflito que provocou e sustentou durante duas longas décadas. Ou se resultará em progresso e estabilidade para um país em conflitos internos e guerras externas há cerca de 40 anos. 

Por José Reinaldo Carvalho*

É algo a verificar, porquanto o Talibã não é um partido monolítico nem uma milícia homogênea. Corresponde a um mosaico de forças políticas, tribos, clãs, grupos de senhores da guerra e tem afinidades com diferentes influências regionais. Da formação surgida  em 1994 e que governou o Afeganistão de 1996 a 2001, até os dias que correm passou também por reconfigurações internas. Novamente no governo depois de vitorioso em uma guerra pela expulsão de forças de ocupação estrangeiras, é preciso captar-lhe os sinais, algo que prudentemente têm feito algumas chancelarias, especialmente da Rússia e China e o Conselho de Segurança das Nações Unidas, que, reunido nesta segunda-feira (16) em caráter emergencial enviou-lhe mais apelos do que reprimendas e admoestações. 

Se pairam estas dúvidas quanto ao significado e desdobramentos da chegada do Talibã ao poder, algo, porém é certo e ficou patente nos acontecimentos deste domingo. No Afeganistão ficou impresso com tintas fortes o traço mais marcante do mundo contemporâneo, uma tendência incontornável de nossa época: o declínio do imperialismo estadunidense e de sua hegemonia, com o desenho de uma nova situação geopolítica. Não me apego nos detalhes comparativos para medir as semelhanças e diferenças entre Cabul de agosto de 2021 e Saigon de abril de 1975, mas ressalto que tanto quanto os episódios de quase meio século atrás, os de hoje fazem parte desse processo de decadência dos Estados Unidos, incluindo nos fatos mais recentes a derrota no Iraque e na Síria. 

Fato insofismável: depois de 20 anos de guerra imperialista e ocupação militar com seus parceiros belicistas da Otan, os EUA saem derrotados, humilhados, escorraçados da nação afegã , o que põe fim inglório a uma das mais longas guerras imperialistas da história. Contendo lágrimas de sangue e tremores, o chefe da Casa Branca e seu patético secretário de Estado tentaram enganar a própria nação e a opinião pública internacional com o conto de que “o país venceu a guerra” porque afinal depois de 10 anos de deflagrada a agressão ao Afeganistão conseguiu assassinar Osama Bin Laden, homiziado no … Paquistão. E ainda ficaram no país centroasiático por mais dez anos até conseguirem construir um dispositivo de segurança para supostamente garantir a estabilidade do país. 

Cabe aqui fazer um balanço sumário da derrota americana. Aos dados do saldo trágico. Durante os 20 anos da guerra neocolonial, morreram cerca de 180 mil pessoas, 50 mil das quais civis. Mais de 60 mil pessoas ficaram gravemente feridas e 11 milhões de refugiados deixaram suas casas e o país. Mais de 2.500 vidas de norte-americanos e 1.100 de aliados pereceram nos territórios acidentados do Afeganistão. O “imperialismo benigno” que levaria as luzes para combater as trevas talibânicas em nome da “guerra infinita ao terror”, viu surgir sob os tacões, armas modernas e blindados do seu “invencível” exército 20 novas organizações terroristas no lugar de apenas uma existente antes de 7 de outubro de 2001, data em que começou a guerra.   

O presidente que a iniciou, George W. Bush, e seus sucessores, asseguraram que estabilizariam politicamente o país. Deixaram, porém, um regime político frágil, carente de legitimidade e respaldo popular. E juraram que tornariam o Afeganistão capaz de garantir a própria segurança com um exército de 300 mil homens. Tudo indica que eram soldados fantasmas. Calcula-se que o número de combatentes não passava de 60 mil. A ofensiva final do Talibã, em que literalmente passeou ao longo do território nacional, mostrou que ou esse exército não estava adestrado nem armado para o combate ou decidiu entregar-se, o que não deixa de ser uma forma de adesão ao assalto final ao poder pelo Talibã. 

O fracasso estadunidense foi em toda a linha e inclui a situação socioeconômica do país. Como força de ocupação os Estados Unidos não se interessam em implantar políticas de desenvolvimento e depois de 21 anos de guerra e ocupação legaram um dos países mais pobres do mundo. Antes da guerra o país tinha 38,3% de sua população vivendo em estado de pobreza, índice que saltou para 70%. De acordo com a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento (USAID), 6,8 milhões de afegãos vivem sob risco de insegurança alimentar aguda. 

O único indicador de prosperidade do Afeganistão ao longo destas duas décadas é a produção e o tráfico de drogas. O Relatório Mundial sobre Drogas de 2019, divulgado pelo Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC), revelou que já em 2017, o Afeganistão tinha se tornado o maior produtor mundial de ópio, com 86% do volume total.

Outro aspecto – e este é o mais importante – sobre o qual não cabem dúvidas é que os EUA foram derrotados pelo povo afegão. Independentemente do caráter político e ideológico e dos métodos da força política que se investiu do poder, é incontornável a constatação de que o povo do Afeganistão derrotou o imperialismo estadunidense em uma guerra prolongada pela independência nacional, o que encerra muitas lições, entre elas a de que guerras coloniais, agressões à soberania nacional, violações do direito sagrado à independência resultam mais dia, menos dia em fracasso para os que as perpetram. 

Na luta do povo afegão se entrecruzaram fatores próprios de sua formação nacional e evolução política, muitos e diferenciados fatores étnicos e tribais, cuja compreensão nos escapa. 

A força política e militar que protagonizou a vitória afegã é o Talibã, organização fundamentalista, obscurantista, que usou métodos terroristas contra o povo , em especial as mulheres. 

Por óbvio, este articulista não tem qualquer identidade política, ideológica ou metodológica com o Talibã, que pertence à linhagem dos grupos reacionários violentos e terroristas fomentados pelo imperialismo estadunidense para combater o governo revolucionário afegão dos finais dos anos 1970 e a ocupação soviética (solicitada pelos revolucionários), ao longo da década de 1980. 

Registrar a derrota contundente do imperialismo estadunidense e saudar o passo que o povo afegão dá na conquista da sua independência nacional não significa apoiar o novo regime Talibã. Mas tampouco nossa diferenciação deste nos leva a apoiar a histeria da propaganda imperialista. 

Na análise dos acontecimentos internacionais vale muito uma boa dose de realismo e senso de observação das mudanças. Tudo indica que será constituído um governo de jure e de facto, sobre os quais outros governos e a própria ONU se posicionarão. Este governo criará mecanismos de estabilidade ou vai querer reinar no caos? Vai buscar a legitimidade ou simplesmente vai governar pelo terror? Não encontraremos as resposta baseando-nos apenas na experiência de governo do Talibã de 1996 a 2001. A China, país amigo dos povos e nações que lutam pela independência , já emitiu seus sinais 

O Talibã que derrotou o imperialismo nesta guerra pode ser o mesmo, filosoficamente, mas no contexto do mundo de hoje não será o mesmo de 1996-2001. Ao longo dos últimos 20 anos passou por mutações, até porque não é um bloco monolítico mas um conjunto de facções. No enfrentamento ao inimigo externo correspondeu também a sentimentos de camadas profundas do povo afegão e adquiriu experiência política e diplomática. O Afeganistão tem um entorno geográfico pontilhado de potências regionais e mundiais e um cinturão de organizações econômicas e militares que têm por vértices a Rússia e a China. O país socialista asiático adquiriu musculatura econômica e política, além de autoridade e assertividade internacional. Ao mesmo tempo que se preocupa com a segurança de suas fronteiras em face do perigo de infiltração de terroristas, sabe que manter a Ásia Central como região estável tem um custo (e um benefício) que exige mais empenho econômico do que militar. Por isso oferece o desenvolvimento compartilhado via a Iniciativa Um Cinturão, Uma Rota. 

“A China respeita a vontade e a opção da população afegã”, disse a porta-voz da chancelaria chinesa, Hua Chunying, em coletiva de imprensa realizada nesta segunda-feira em Pequim. De acordo com a percepção chinesa, a concretização da paz constitui o desejo tanto dos mais de 30 milhões de afegãos, como dos países da região e da comunidade internacional.  

“Registramos a declaração feita no domingo pelo Talibã, de que a guerra terminou e o Talibã vai ajudar o estabelecimento de um governo islâmico aberto e inclusivo, além de adotar ações responsáveis em garantir a segurança dos cidadãos afegãos e dos corpos diplomáticos”, disse a porta-voz. 

Segundo Hua, a China mantém contatos com o Talibã com base no respeito à soberania do Afeganistão e na vontade de todas as facções do país, e tem desempenhado papel construtivo na solução política da questão afegã. A China respeita o direito do povo afegão de decidir o próprio destino, e está disposta a desenvolver relações amistosas de boa vizinhança com o país”.

Por seu turno, a Rússia anunciou que está em contato com oficiais do Talibã por meio de sua embaixada em Cabul e o Irã já ofereceu seus bons ofícios para contribuir com a pacificação do país.  

A situação está em evolução e é necessário acompanhar cada desdobramento. Para as forças progressistas, o principal é manter-se em posição de luta anti-imperialista, o que implica defender a independência do Afeganistão e os direitos de seu povo. 

*Jornalista e secretário geral do Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz (Cebrapaz)