Em Guantánamo, Conselho Mundial da Paz discute ações contra o imperialismo; leia o discurso da presidenta Socorro Gomes

O Comitê Executivo do Conselho Mundial da Paz reuniu-se em Guantánamo, nos dias 20 e 21 de novembro, com o objetivo de seguir fortalecendo o movimento pela paz e avançar com propostas concretas na luta contra o imperialismo. Os membros, inclusive o Cebrapaz, assim como outras organizações internacionais, também do Seminário Internacional pela Paz e a Abolição das Bases Militares Estrangeiras, durante a próxima semana. A organização de ambos os eventos está a cargo do Movimento Cubano pela Paz e a Soberania dos Povos (MovPaz). Leia a íntegra do informe político da presidenta Socorro Gomes na reunião do Comitê Executivo:

Picasso, 1962 – Contra os armamentos e a militarização

Comitê Executivo – Conselho Mundial da Paz
Guantánamo, Cuba
Informe Político

Estimados companheiros e companheiras:

Encontramo-nos aqui em Guantánamo em um ano cheio de desafios e ameaças para os povos do mundo, para a segurança e a paz internacional. O imperialismo sempre se supera ao impor opressão e guerra, mas os povos continuam a demonstrar a sua determinação em resistência e luta. Portanto, nossas reuniões são marcadas pelo compromisso determinado e pela avaliação crítica do contexto em que vivemos, os percursos que seguimos.

Queremos, em primeiro lugar, agradecer muito sinceramente ao Movimento Cubano pela Paz e Soberania dos Povos, MovPaz, por organizar nossas reuniões. O seu papel e esforços são extremamente importantes e simbólicos, permitindo-nos reunir aqui na ilha revolucionária e expressar a nossa solidariedade ao povo cubano em suas lutas pela construção do socialismo.

Nossa participação no Seminário Internacional pela Paz e a Abolição das Bases Militares Estrangeiras demonstra a persistência de temas como este em nossa agenda de lutas. Guantánamo segue ocupada pelos EUA em sua afronta perniciosa à soberania do povo cubano, como a maior parte dos países latino-americanos e muitos outros em todo o mundo.

As vitórias cubanas acumulam-se e a nossa solidariedade com este povo valente e resistente é renovada e intensificada. A libertação dos cinco heróis cubanos e a retomada das relações diplomáticas com Estados Unidos são etapas importantes nesta nova fase. Continuamos comprometidos com a demanda pelo fim ao bloqueio criminoso à ilha revolucionária e pela retirada imediata da base militar dos EUA em Guantánamo.

O ano de 2015 traz ocasiões essenciais para reflexão e avaliação do curso da história que nos une contra a guerra e o imperialismo. Comemoramos a grande vitória dos povos resistentes contra o nazi-fascismo; recordamos as vítimas dos horrendos bombardeios atômicos dos EUA contra o Japão; recobramos o caminho determinado do Conselho Mundial da Paz em seus 65 anos de luta comprometida; avaliamos os 70 anos da Organização das Nações Unidas e o papel que ainda deve cumprir como um instrumento de povos e nações soberanas na defesa da paz mundial e do direito internacional; denunciamos a sobrevivência nefasta e o crescimento desproporcional da máquina de guerra imperialista, a OTAN; e reiteramos nossa demanda pela abolição imediata das armas nucleares, reafirmando o Apelo de Estocolmo, entre outras questões centrais da nossa agenda.

O Conselho Mundial da Paz saúda com alegria o hasteamento da bandeira da Palestina em frente à sede da ONU, enquanto observamos com profunda preocupação e repúdio a escalada de violência e ações cada vez mais brutais da ocupação sionista nos territórios palestinos. A repetição deste ciclo vicioso fatal e inaceitável deve-se à persistente impunidade do governo sionista por seus crimes de guerra, cometidos diariamente contra o valente povo palestino, e à aliança dos Estados Unidos, que sustentam um regime de opressão e ameaça contra os povos da região, também monopolizando um falso “processo de paz” que há duas décadas enraíza a ocupação.

O Oriente Médio está mergulhado no caos criado pela política imperialista de ingerência e suas “guerras por procuração”, no impulso à miríade de grupos armados e terroristas que assolam a região. A guerra na Síria entra em seu quinto ano, com mais de 240.000 mortos e milhões de refugiados que procuram escapar da violência em países vizinhos e travessias desumanas para a Europa e o resto do mundo. Eles chegam a seus destinos, depois de perder parentes ao longo do caminho, para enfrentar a xenofobia das políticas de países diretamente responsáveis pela sua condição de insegurança, sujeitos à militarização imposta por essas potências.

Os refugiados que vão para a Europa em busca de abrigo enfrentam o tratamento muitas vezes desumano e a insegurança de travessias clandestinas. Apenas de janeiro a outubro de 2015, mais de três mil seres humanos perderam suas vidas enquanto as tecnocracias discutiam os números e os limites da sua “boa vontade” para com os desterrados. Essa é uma tendência, porém. Desde 2000, segundo a Organização Internacional para as Migrações, mais de 22 mil pessoas morreram tentando chegar à Europa e outras milhares morreram tentando cruzar a fronteira entre o México e os Estados Unidos. Isso inclui também os imigrantes que fogem da pobreza extrema, especialmente da África, sujeito às políticas neocolonialistas das grandes potências, quer através da guerra contra a Líbia, Mali, República Democrática do Congo e República Centro-Africana, quer através de relações de exploração imperialista. O povo africano continua lutando por avanços para a dignidade humana, mas o continente também ainda é cenário de desafios inimagináveis no sentido de superar a guerra, em que as potências têm papel destruidor.

A condição de muitos iemenitas, iraquianos, curdos, afegãos, libaneses, palestinos e sírios também é resultado da estratégia do “novo Oriente Médio”, a ser construído através da instalação de regimes aliados à agenda imperialista, numa região rica e diversificada política e culturalmente, estratégica em termos de recursos energéticos, como sabemos. O terrorismo faz lá e também entre os muçulmanos as principais vítimas, mas as respostas islamofóbicas já se institucionalizam nos centros de poder.
Lamentamos profundamente ataques como aqueles perpetrados em Paris em meados de novembro e nos solidarizamos da forma mais sincera com o povo francês em sua dor. O terrorismo é um método cruel, injusto e brutal uma vez que tem como principal alvo pessoas inocentes. Ainda assim, a onda seletiva de solidariedade no mundo tem sido reveladora, enquanto outro atentado em Beirute matava também dezenas de pessoas. A guerra já está supostamente “normalizada” para alguns, assim como a morte e a violência, e isso é inaceitável. Todos os povos querem a paz.

Além disso, como nas respostas do governo francês e seu papel no conflito na Síria demonstraram, a luta contra grupos terroristas – muitos germinados pelo império – é usada para o ataque aos direitos democráticos dos seus próprios cidadãos ou imigrantes no país, ou até mesmo para justificar bombardeios criminosos prontamente ordenados por François Hollande, supostamente contra alvos do chamado “Estado islâmico” na Síria, sem autorização do governo sírio. Ao mesmo tempo, em reunião na Áustria, embora se tenha incluído um importante ator regional como o Irã, os líderes propunham discutir o futuro do povo sírio sem a presença do governo eleito. As potências imperialistas insistem em excluir um ator central para continuar a violar flagrantemente a soberania síria.

Também acompanhamos com preocupação a provocação dos Estados Unidos no Mar do Sul da China, onde a disputa territorial regional deve ser resolvida exclusivamente através do diálogo entre as partes envolvidas. Os Estados Unidos insistem em tentar controlar a situação através de seus aliados, especialmente o Japão, que impulsiona a revisão constitucional para aumentar seu setor militar contra a vontade do povo. Mais uma vez, o império trabalha pela desestabilização regional.

Este também continua a ser o caso na Europa do Leste, desde o golpe fascista na Ucrânia e a propagação da presença militar da OTAN na vizinhança da Rússia. Por este tipo de atuação, especialmente, o Conselho Mundial da Paz e os seus membros devem reforçar as suas ações pela dissolução dessa máquina de guerra ameaçadora e anacrônica. As importantes iniciativas do Conselho Português para a Paz e Cooperação, do Intal e do Conselho da Paz dos EUA devem ser reforçadas pelo CMP e disseminadas sistematicamente, tomando o lugar merecido entre as nossas prioridades. As ações de denúncia junto às massas e a luta coordenada pelo fim da OTAN são instrumentais e podem certamente mobilizar as populações.

Como sabemos, a OTAN nasceu como uma aliança agressiva. Sua sobrevivência é insustentável e tem como objetivo assediar os povos. Seus gastos militares são espólios diretos dos recursos de seu próprio povo para sustentar a ameaça contra outros povos em todo o mundo. Em 2010, quando confrontados com uma crise internacional devastadora que colocou milhões de pessoas no desemprego e até mesmo na pobreza, atacando os direitos sociais e dos trabalhadores, enquanto beneficiando a banca global, os Estados membros da OTAN destinaram 3,3% do seu Produto Interno Bruto (PIB) combinado, US$ 1,1 trilhão, e 1,1% de sua força de trabalho, à guerra.

Em 2014, de acordo com o Instituto Internacional de Estocolmo para a Pesquisa sobre a Paz (SIPRI), 34% dos gastos mundiais no setor militar foram dos EUA, quase três vezes mais do que a segunda maior despesa, a da China, de 12%. A decisão de 2006, entre os membros da OTAN, sobre o compromisso de 2% do PIB de cada país para esta máquina de guerra, indica uma ordem militarizada, de ameaça de guerra e de desvio dos recursos dos povos para a violência. Os membros europeus da OTAN gastaram naquele ano US $ 250 bilhões, em detrimento dos direitos econômicos e sociais alcançados depois de muita luta por seus povos. A militarização do planeta, por tanto, é um tema central em nossa agenda e devemos mantê-lo entre os itens mais caros a nós.

A mobilização contra as recentes manobras militares da OTAN em Portugal, Itália e Espanha foram cruciais para chamar a atenção do público. O deslocamento de armas pesadas, navios de guerra, milhares de soldados e até mesmo armas nucleares foi uma afronta aos povos num exercício odioso de demonstração de força para manter o mundo ameaçado e “dissuadido” de desafiar a hegemonia do império.

Em seu relatório anual sobre 2014, o novo Secretário-Geral da OTAN, Jens Stoltenberg, renovou o tom sobre o reforço da aliança e sobre “ameaças à segurança” para justificar sua brutalidade. Em setembro de 2014, a OTAN definiu o “Plano de Ação de Prontidão” que, de acordo com Stoltenberg, é o “reforço mais significativo da defesa coletiva da OTAN desde o final da Guerra Fria”, prevendo alianças com países de fora do bloco. Para isso, a aliança deve adaptar a sua “postura militar estratégica” aumentando a Força de Reação – uma força multinacional – para incluir a resposta quase imediata “à periferia do território da OTAN”. Esta foi a força testada nas manobras em Portugal, Itália e Espanha.

Como se não bastasse a investida belicosa, a OTAN segue se mobilizando contra o “extremismo” no Oriente Médio e para enfrentar a Rússia na sua própria vizinhança, mantendo a Ucrânia e Montenegro, entre outros, sob seu radar. Durante sua visita a Montenegro, em 14 de outubro, Stoltenberg avaliou as reformas no país como “essenciais” para a sua candidatura de adesão à aliança, mas instou o governo a “consolidar o apoio do público” para a etapa. Protestos brutalmente reprimidos alguns dias mais tarde nas ruas da capital de Montenegro, porém, mostraram que o caminho tomado estava longe de consensual para a população do país.

Amigos,

O Conselho Mundial da Paz reafirma, em crescente tom de alarme, sua posição determinada pela abolição completa e imediata das armas nucleares, exigindo o fim de uma lógica de chantagem e ameaça a toda a humanidade. O Apelo de Estocolmo permanece atual. As negociações deliberadamente inócuas e morosas entre as potências nucleares na conferência de revisão do Tratado de Não Proliferação (TNP) deste ano terminaram em vazio especialmente devido às posições de Israel e dos Estados Unidos, o que demonstra o descompromisso das potências com o desarmamento nuclear e a paz.

Não esqueceremos jamais das vítimas dos bombardeios nucleares de Hiroshima e Nagasaki há 70 anos perpetrados pelos Estados Unidos, que permanecem impunes pelos crimes terríveis contra a humanidade, após inaugurarem o uso de armas de destruição em massa. Também nos solidarizamos com as lutas das Ilhas Marshall e outros locais afetados pelos testes nucleares realizados pelas potências e o povo do Vietnã, exigindo o reconhecimento das responsabilidades dos Estados Unidos pelo uso do agente laranja contra populações em grande parte civis, ainda enfrentando as consequências horríveis desta arma química. Portanto, o desarmamento global é inerente à construção da paz, de um sistema internacional de cooperação e solidariedade, justiça e humanidade.

Da mesma forma, as bases militares estrangeiras permanecem centrais em nossa denúncia diária do imperialismo e do ataque frontal à soberania nacional. Temos de reforçar a nossa luta por sua eliminação, já que são expressões de uma ordem internacional de dominação e ameaça. Nos levantamos decididamente contra esta lógica belicosa e agressiva.

Para isso, defendemos o reforço de estruturas ainda essenciais para a nossa luta, tanto para a unidade entre os movimentos anti-imperialistas dos quais somos parte, como pela reforma crucial e urgente da ONU. Se esta não for cumprida, a ONU arrisca tornar-se cada vez mais ilegítima aos olhos dos povos. Sua instrumentalização pelo império, que detém o monopólio do uso da força e coerção por meio do Conselho de Segurança, arrisca a consolidação de um sistema de paz, justiça e cooperação. Portanto, é essencial que se dote de mais democracia e representatividade, cumprindo compromissos com os princípios da Carta das Nações Unidas, tão caros a nós.

Um exemplo de compromissos históricos ainda pendentes, entre muitos, é o processo de descolonização do mundo. Quando da criação da ONU, os movimentos de libertação nacional ganharam força em suas lutas pela independência. Soberania, autodeterminação, direitos humanos e justiça pareciam definir o futuro do mundo depois da guerra, e avançaríamos, assegurados por uma estrutura baseada nestes compromissos. Ainda assim, em nossa agenda permanecem as lutas contra estas formas retrógradas de dominação: o colonialismo e a ocupação. São os casos do Saara Ocidental, da Palestina, de Porto Rico, da Guiana Francesa, das Ilhas Malvinas e muitos outros. Somamo-nos a estes povos em sua luta heroica de resistência contra a dominação.

Companheiros e companheiras,

Ao comemorarmos a grande vitória dos povos contra o nazi-fascismo na Segunda Guerra Mundial, com a importante mobilização pelo 70º aniversário da Vitória, honramos a brava resistência em defesa da humanidade. Por isso, denunciamos com profunda preocupação o ressurgimento de forças fascistas em investida contra os movimentos progressistas em várias partes do mundo, inclusive na Europa.

Aliadas às políticas ofensivas e repressivas da direita no continente europeu e no latino-americano, sob o pretexto de combater crises políticas ou econômicas, entidades que se apresentam como democráticas e liberais revelam suas faces autoritárias no ataque decisivo contra os trabalhadores e trabalhadoras.

Além disso, em um contexto global marcado pela escalada da guerra e da agressão contra a soberania das nações, a América Latina está sob ataque de forças conservadoras que buscam reverter as vitórias da integração democrática, soberana e solidária e a busca da região por consolidar-se como uma zona de paz. Esta ofensiva não pode ser subestimada, e o papel do imperialismo não pode ser ignorado.

Reafirmamos nosso compromisso de defender a Revolução Bolivariana na Venezuela, e a nossa solidariedade inabalável. A Venzuela Bolivariana também se tornou uma bandeira de luta de todos os povos latino-americanos e uma referência para a luta anti-imperialista.

Devemos também enfatizar o desenvolvimento, em um processo complexo e tortuoso, das negociações de paz entre as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) e o governo colombiano. Paz na Colômbia é uma das principais reivindicações dos movimentos sociais populares, democráticos, patrióticos e anti-imperialistas na América Latina, incluindo as próprias FARC. Se materializada, será uma vitória destas forças e uma derrota dos militaristas, fascistas, paramilitares, traficantes e outros agentes do imperialismo na Colômbia e América Latina.

Amigos,

Temos diante de nós desafios e tarefas importantes. No próximo ano, realizamos a Assembleia do Conselho Mundial da Paz. Sua preparação é também um momento de reflexão, de luta e de renovados esforços das forças democráticas e amantes da paz. Temos importantes lutas a fortalecer e ampliar, como a campanha pela eliminação das bases militares estrangeiras, a abolição das armas nucleares, a dissolução da OTAN, entre outras, e devemos, mais do que nunca, fortalecer nossa solidariedade aos povos em resistência em Porto Rico, na Palestina, no Saara Ocidental, na Síria e no Iraque.

A urgência dessas lutas leva-nos também à urgência do fortalecimento do CMP até a nossa próxima reunião. Esperamos, entusiasmados e com alegria, vê-los no Brasil, certos de que nosso trabalho conjunto fortalecerá nossas lutas contra a opressão, a guerra e o imperialismo, pela paz entre todos os povos.

Muito obrigada,
Socorro Gomes

Guantánamo, 20 de novembro de 2015

 

 

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