Conselho da Paz estadunidense rechaça política externa de Trump e convoca ao protesto

Membro do Secretariado do Conselho Mundial da Paz, o Conselho da Paz dos EUA manifestou contundente rechaço ao recente discurso do presidente Donald Trump na Assembleia Geral das Nações Unidas, já amplamente condenado por movimentos sociais e governos de todo o mundo. No texto, publicado em 24 de setembro, a organização estadunidense apela às forças nacionais por uma mobilização massiva contra a política externa beligerante e imperialista exposta por Trump dias antes, na sede da ONU. Leia o texto a seguir:

Na Assembleia Geral das Nações Unidas, Trump obliterou a Carta da ONU e declarou guerra contra o mundo

O Movimento da Paz dos EUA não deve e não pode se deixar continuar em silêncio

Conselho da Paz dos EUA – 24 de setembro de 2017

Presidente Trump:

  • “Os Estados Unidos da América estão entre as maiores forças do bem para a história do mundo… na América*, não buscamos impor nosso estilo de vida a ninguém.”
  • “Devemos garantir o respeito à lei, respeito às fronteiras e o respeito à cultura…”

Mas:

  • “Como presidente dos Estados Unidos, sempre colocarei a América* em primeiro lugar.”
  • “[A]caba de ser anunciado que gastaremos quase US$ 700 bilhões em nosso Exército e na defesa… Nosso Exército estará em breve mais forte do que jamais esteve.”
  • “[Um] pequeno grupo de regimes fora da lei… viola cada princípio em que as Nações Unidas se baseiam.”
  • “Demasiado frequente, o foco [da ONU] não tem estado em resultados, mas na burocracia e no processo… Não podemos esperar por… burocratas distantes – não podemos. Devemos resolver nossos problemas… ou seremos… derrotados.”
  • “Os EUA têm grande força e paciência, mas são forçados a defender a si próprios ou os aliados, não teremos escolha se não destruir completamente a Coreia do Norte. O Homem Foguete está numa missão suicida para ele mesmo e para o seu regime.”
  • “Enfrentamos decisões não só sobre a Coreia do Norte. Já passa da hora de as nações do mundo confrontarem outro regime imprudente…”
  • “O governo iraniano mascara uma ditadura corrupta com o disfarce de democracia… não podemos permitir que um regime assassino continue com essas atividades desestabilizadoras enquanto constrói mísseis… O Acordo sobre o Irã foi uma das piores e mais unilaterais transações em que os EUA já entraram…
  • “Também mudei completamente as regras de combate em nossa luta [no Afeganistão] contra o Talibã…” 
  • “As ações do regime criminoso de Bashar al-Assad… chocam a consciência de toda pessoa decente… Por isso é que os EUA realizaram um ataque a míssil contra a base aérea que lançou o ataque [químico].”
  • “[O]s EUA posicionam-se contra o regime corrupto e desestabilizador de Cuba… [N]ós não levantaremos as sanções contra o governo cubano até que ele faça reformas fundamentais.”
  • “Também impusemos sanções duras e calibradas contra o regime socialista de Maduro na Venezuela… A ditadura socialista de Nicolás Maduro infringiu dor terrível e sofrimento a pessoas de bem daquele país… Estamos prontos para tomar mais ações caso o governo da Venezuela insista neste caminho…” 
  • “O problema na Venezuela não é que o socialismo foi mal implementado, mas que foi implementado fielmente… Da União Soviética a Cuba e à Venezuela, onde quer que o socialismo verdadeiro, ou o comunismo, foi adotado, resultou em angústia, devastação e fracasso. Aqueles que pregam os princípios destas ideologias desacreditadas só contribuem para o contínuo sofrimento das pessoas… A América* está com cada pessoa que vive sob um regime brutal. Nosso respeito pela soberania também é um chamado à ação.”

Deixamos as próprias palavras do presidente Trump nas Nações Unidas falarem por si. Seu discurso na Assembleia Geral da ONU em 19 de setembro de 2017 foi o ápice da desonestidade, da hipocrisia, do grandiosismo imperialista e um desprezo completo pela Carta das Nações Unidas e o direito internacional. Também manifestou a intenção do governo estadunidense de reavivar a velha Guerra Fria.

Trump falou da “ameaça nuclear” da Coreia do Norte, chamando o líder daquele país de “Homem Foguete”, sem mencionar que os EUA e as forças aliadas estão, ao mesmo tempo, realizando exercícios militares nas fronteiras norte-coreanas, com o objetivo de uma potencial invasão daquele país. Tampouco mencionou o fato de os EUA terem instalado [sistemas] antimísseis para ataque preemptivo próximo às fronteiras norte-coreanas e que mantêm mais de 23 mil soldados na Coreia do Sul.

Trump falou da “ameaça nuclear” do Irã enquanto o Irã, cercado por todos os lados pelas forças nucleares estadunidenses, assinou um acordo com os Estados Unidos e cinco outros estados para evitar o desenvolvimento de armas nucleares.

Trump falou do “regime criminoso de Bashar al-Assad” enquanto dezenas de milhares de terroristas criminosos, armados e financiados pelos Estados Unidos e seus aliados, causam devastação ao povo sírio, sob a proteção das forças terrestres e aéreas ilegais dos EUA na Síria.

Trump falou do “regime desestabilizador de Cuba” sem mencionar o fato de que o governo estadunidense e a CIA terem persistentemente tentado desestabilizar a revolução cubana e seu governo, assassinar seu líder, ocupar ilegalmente o seu território de Guantánamo e manter o bloqueio estadunidense de Cuba em violação das reiteradas resoluções da mesma Assembleia Geral da ONU à qual se dirigia.

Trump falou de “tomar uma atitude” contra a “ditadura socialista” do presidente Maduro caso a “Venezuela insista no seu curso.” (No passado, ele também afirmou que “não iria descartar a opção militar” contra a Venezuela.) Mas ele escondeu o fato de que foram os Estados Unidos que agiram ilegalmente contra a democracia na Venezuela quando ensaiou o golpe contra o então democraticamente eleito presidente Hugo Chávez, e que ainda o fazem ao tentar derrubar o atual presidente democraticamente eleito, Nicolás Maduro.

Está claro, pelas palavras de Trump, que o “caminho” que mais o preocupa, não só na Venezuela, mas também em Cuba, é o caminho da saúde gratuita, da educação gratuita, dos serviços públicos gratuitos para todas as pessoas; um caminho que Trump tenta bloquear e reverter em seu próprio país.

Infelizmente, toda a atenção da mídia corporativa e a maior parte das objeções do movimento da paz ao discurso do presidente Trump têm focado apenas em suas ameaças contra a Coreia do Norte e à óbvia necessidade de desescalada das tensões. Mas por mais importante e urgente que isso seja, trata-se de negligenciar o quadro geral.

Analisando o discurso completo, fica bastante claro que a situação é muito mais perigosa do que aparenta. Estamos lidando agora com um desvio qualitativo na política externa oficial estadunidense – ironicamente anunciado na sede das Nações Unidas – para afastá-la dos princípios da Carta da ONU e do direito internacional, em direção a uma declaração unilateral de guerra e intervenção, pelos Estados Unidos, contra qualquer país que se coloque no caminho da sua ambição por dominação global.

A política de Trump “A América* primeiro”, como anunciada por ele nas Nações Unidas, estará no centro da política externa do governo estadunidense a partir de agora. Isso significa um rearranjo total das relações internacionais de forma a servir apenas aos Estados Unidos e aos seus interesses estratégicos e econômicos. Obviamente, tal política imperialista, como exposta por Trump em seu discurso nas Nações Unidas, não pode ser promovida sem violar os princípios da Carta da ONU e o direito internacional.

O movimento da paz estadunidense tem responsabilidade especial no impedimento de tal resultado catastrófico. Mas nenhuma proclamação ou declaração pública pode sozinha impedir a catástrofe. O que é urgentemente necessário é uma frente unificada, antiguerra, anti-intervencionista, composta por todos os segmentos do movimento da paz capaz de mobilizar um movimento de massa eficaz contra o imperialismo e a guerra.

O Conselho da Paz dos EUA insta a todas as organizações de paz nos EUA a realizar protestos locais, regionais e nacionais e a visitar membros do Congresso, incluindo ocupações simbólicas, e a exigir que o governo estadunidense:

  • Cesse as violações estadunidenses da Carta das Nações Unidas do direito internacional;
  • Cesse as tentativas dos EUA de sabotar as economias e sistemas políticos de outros Estados; pare de ameaçar e derrubar outros governos soberanos; pare de usar sanções econômicas como meio de prejudicar governos soberanos;
  • Encerre as intervenções políticas e militares estadunidenses nos assuntos internos de outros países; respeite a soberania de todas as nações, inclusive da Síria, Venezuela, Cuba e Coreia do Norte;
  • Remova o bloqueio econômico estadunidense contra Cuba; devolva Guantánamo a Cuba;
  • Encerre os exercícios militares conjuntos dos EUA com a Coreia do Sul; cesse todas as formas de ameaça contra a Coreia do Norte; assine um tratado permanente de paz com a Coreia do Norte através de negociações diplomáticas pacíficas;
  • Respeite todos os tratados dos EUA com outras nações, inclusive o Acordo Nuclear com o Irã;
  • Feche todas as bases militares estadunidenses em todo o mundo;
  • Inicie esforços para expandir as zonas livres de [armas] nucleares em todo o mundo; apoie o recém-negociado Tratado da ONU proibindo as armas nucleares;
  • Reduza consideravelmente os gastos dos EUA com o guerra e o Exército; rescinda o orçamento militar de US$ 700 bilhões e gaste os fundos em saúde, educação, criação de empregos e outros serviços sociais.

O Conselho da Paz dos EUA está pronto para se unir a todas as forças da paz para organizar os protestos massivos mais amplos possíveis contra a política externa estadunidense extremamente beligerante e imperialista anunciada por Donald Trump nas Nações Unidas.

* “América” significando Estados Unidos. [N.T.]

Fonte: US Peace Council
Tradução: Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz (Cebrapaz) / Moara Crivelente