Bolsonaro na ONU: Um discurso para a (pré-) história

A parte mais difícil de fazer uma resenha sobre o discurso do presidente Jair Bolsonaro, nesta terça-feira (24), na abertura da 74ª Assembleia Geral da ONU, é ter que ouvir e depois ler o discurso. Porém, mesmo depois deste penoso processo, resta uma forte sensação de incredulidade. 

Por Wevergton Brito Lima*

Imagem capturada de vídeo, enquanto Bolsonaro era apresentado para fazer o discurso.

Com exceção dos cada vez menos numerosos fãs incondicionais do Presidente, todo restante do mundo ficou impressionado com o primarismo do “pensamento” que guia as ações do presidente brasileiro.

O que já se sabia no Brasil agora é de pleno domínio público: Bolsonaro é inimigo de qualquer ideia que seja minimamente próxima da luta por justiça social, em defesa dos direitos humanos, do meio-ambiente e por avanços civilizatórios, que em sua paranoia são pautas ligadas ao “globalismo marxista”.

Sendo assim, os governos de Lula e Dilma, que tinham compromissos, em maior ou menor grau, com todas estas pautas, “levaram o Brasil à beira do socialismo”. Para salvar o Brasil deste destino nefasto, segundo o presidente brasileiro, “muitos tiveram que dar suas vidas”, sem citar os nomes dos mártires direitistas responsáveis por salvar o Brasil do bolchevismo e entrega-lo nos braços redentores do capital financeiro.

Segundo a BBC Brasil, “ao mencionar temas como o Foro de São Paulo, os médicos cubanos do programa Mais Médicos e dizer que o Brasil quase virou um país socialista, o presidente teria confundido o plenário da ONU com o da Câmara dos Deputados, onde passou sete legislaturas”.

Bolsonaro afirmou, entre outros disparates, ser um combatente contra uma conspiração de esquerda que está tentando “destruir a inocência de nossas crianças, pervertendo até mesmo sua identidade mais básica e elementar, a biológica”, ou seja, faltou muito pouco para, da tribuna da ONU, fazer referência à “mamadeira de piroca”, fake news disseminada por seus apoiadores para difamar as campanhas contra a homofobia, pois a frase é um claro ataque aos homossexuais, que “negam sua identidade biológica”, uma verdadeira obsessão de Bolsonaro. Freud explica, dirá alguém.

Tom Phillips, correspondente do jornal britânico The Guardian, tuitou, logo depois de Bolsonaro descer da tribuna: “Mesmo nos piores pesadelos, não tenho certeza de que diplomatas brasileiros tenham imaginado um discurso de Bolsonaro na Assembleia Geral das Nações Unidas tão arrogante, tão cheio de bílis e tão verdadeiramente calamitoso para o lugar do Brasil no mundo. #MeDaPenaPorBrasil”, escreveu.

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Greve Global pelo Clima no Rio de Janeiro, 20 de setembro de 2019. Foto: Pilar Olivares/Reuters

A estranha sociologia do presidente brasileiro garantiu à ONU que a corrupção no Brasil, antes de Lula e Dilma, era um problema quase insignificante. As queimadas na Amazônia são, em parte, responsabilidade do próprios índios e, para comprovar de forma científica tal fato, citou o nome de uma índia, youtuber bolsonarista, que tem mais de 200 mil seguidores na rede social e ganhou como recompensa fazer parte da Comitiva Presidencial, apesar de ser rejeitada por nove entre dez lideranças indígenas. Realmente, um argumento devastador.

“Cinco palmas lentas com sorriso irônico. Essa foi a reação da chanceler alemã, Angela Merkel, ao discurso do presidente Jair Bolsonaro na abertura da Assembleia-Geral da ONU”, informou a reportagem da BBC, que se atribuiu uma tarefa inglória: achar entre os centenas de chefes de Estado e diplomatas quem tenha gostado do discurso de Bolsonaro.

Encontrou dois exemplos: Trump (citado de forma reverente pelo capacho que ocupa a presidência do Brasil) e a “delegação da Nigéria que assistia ao discurso. Segundo eles, Bolsonaro é ‘um homem forte’, que lembra o presidente nigeriano Muhammadu Buhari, um militar com discurso feroz contra a corrupção”.

O jornalista Jamil Chade, que trabalha em Genebra, informou em seu blog hospedado no UOL: “Jair Bolsonaro não tinha chegado nem sequer à metade de seu discurso e meu WhatsApp, Signal e email já estavam sendo bombardeados por mensagens de diplomatas e representantes de entidades internacionais. Todos chocados com o que estavam ouvindo. Mas uma das mensagens, particularmente dura, veio de um representante que faz parte da cúpula das Nações Unidas: ‘Ele (Bolsonaro) acabou de perder a última chance de ser respeitado’”.

Rejeição e Zombaria

Mas foi o chanceler cubano, Bruno Rodríguez, quem colocou o “pingo nos is”: “Foram declarações cheias de ameaças para os países do Sul, particularmente para a Nossa América, e o que ouço entre as delegações da ONU é rejeição e zombaria”, disse Rodríguez à Telesur e à Prensa Latina.

“Eu rejeito categoricamente as calúnias de Bolsonaro a Cuba. Ele está delirando e anseia pelos tempos da ditadura militar. Deveria cuidar da corrupção de seu sistema de Justiça, governo e família. É o campeão do aumento da desigualdade no Brasil”, continuou o diplomata cubano, em resposta aos ataques de Bolsonaro que, em seu discurso, acusou Cuba de ter infiltrado agentes disfarçados de médicos para promover a revolução socialista no Brasil.

A verdade é que as ideias expressas pelo presidente brasileiro da tribuna da ONU não são apenas neofascistas (o que já seria por si só, muito grave), são toscas, medievais.

Em se tratando de Bolsonaro já era de se esperar, dirá alguém, e com razão. No entanto, é uma sensação mais ou menos parecida com o 7 a 1 que levamos da Alemanha na Copa do Mundo. Você sabe que aconteceu, mas é difícil de acreditar, pois a vergonha é planetária. Se o planeta ainda fosse plano – como acredita o astrólogo que serve de guru ao clã Bolsonaro – poderíamos nutrir a esperança de que as suas palavras iriam se perder ao ultrapassar a borda da terra, mas não, elas estão dando voltas no globo, causando a mesma perplexidade e fazendo surgir uma pergunta que se repete em vários idiomas, como um mantra: “como os brasileiros permitiram isso”?

*Wevergton Brito Lima é secretário-geral do Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz (CEBRAPAZ)