Socorro Gomes afirma confiança na unidade dos povos na luta pela democracia e a paz em encontro anti-imperialista em Havana

A presidenta do Conselho Mundial da Paz Socorro Gomes representou a entidade no Encontro Anti-imperialista, de Solidariedade, pela Democracia e contra o Neoliberalismo, que aconteceu entre 1 e 3 de novembro e em que participaram 1.332 delegados de 789 organizações de 86 países, inclusive o Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz (Cebrapaz). Leia mais sobre o encontro e sua declaração final clicando aqui. Abaixo, leia o discurso de Socorro Gomes, que participou do Painel “Democracia, soberania e anti-imperialismo“:

Encontro Anti-imperialista de Solidariedade, pela Democracia e Contra o Neoliberalismo | 1 a 3 de novembro de 2019 | Havana, Cuba

Democracia, soberania e anti-imperialismo

Contributo da Presidenta do Conselho Mundial da Paz, Socorro Gomes

Queridos companheiras e companheiros,

É uma honra compartilhar com vocês este espaço e encontrarmo-nos neste evento, de onde sairemos ainda mais fortalecidos em nossa luta anti-imperialista, contra o neoliberalismo e o neocolonialismo que a tantos nos afeta duramente, em diversos continentes.

Nestes dias temos a oportunidade de ressaltar quais são as raízes e efeitos de tais políticas, mas também o que estamos fazendo para fortalecer nossa unidade e seguir mobilizados, em resistência. A convergência e a articulação entre nossos distintos movimentos é chave para seguirmos acumulando forças na luta dos povos por democracia, soberania e paz.

Sabemos que uma democracia fortalecida, substantiva, e não uma democracia das elites, de 1 ou 2%, e que um sistema internacional mais justo e equitativo, baseando no multilateralismo e no respeito mútuo entre as nações, não interessam às potências promotoras do imperialismo e do neoliberalismo, para os quais é necessário controlar o povo e tirar dele apenas o seu consentimento, seu trabalho e seu futuro. Para isso, e porque os povos não se submetem facilmente, princípios como a igualdade de soberania entre as nações, a não ingerência, até a democracia e os direitos humanos que as potências hegemônicas tanto usam para disfarçar seus reais objetivos, com sua ingerência, devem ser atravessados, tergiversados, ou simplesmente violados.

É com inspiração e para nos animar que devemos, porém, ler os sinais da luta e a mobilização constantes. Seguimos resistindo mesmo que sob as condições mais adversas das últimas décadas, com o avanço do reacionarismo, o conservadorismo e até o protofascismo, de onde emergem as forças antidemocráticas que ameaçam os povos em várias partes do mundo, não apenas na América Latina e o Caribe.

As forças antidemocráticas, aliadas ao imperialismo estadunidense, muito fizeram para nos derrubar e acabar com a confiança popular na possibilidade de seguir lutando para derrotar este sistema de exploração, dominação e opressão. Mas fracassaram. Ainda que tenhamos os mais graves desafios em nossa luta contra a guerra em tantas partes do planeta, contra a militarização e as ameaças constantes à soberania de nações que não se rendem à agenda do império, logramos mostrar que não será fácil liquidar o processo de avanços como o experimentado nas últimas décadas na América Latina e Caribe.

Devemos ressaltar a grande vitória eleitoral de Alberto Fernández e Cristina Kirchner na Argentina, onde o povo escorraçou o Macri e sua submissão ao Fundo Monetário Internacional do Governo; a eleição de Obrador no México, tão próximo da besta imperialista; e a reeleição do companheiro Evo Morales na Bolívia, além da bravíssima resistência da Revolução Bolivariana na Venezuela contra os golpistas ou as ameaças de agressão, e a própria Revolução Cubana, em seus gloriosos 60 anos de construção apesar do bloqueio criminoso dos EUA. Vemos no Equador os massivos protestos contra as medidas ditas de “austeridade” impostas por Lenín Moreno a um povo até há pouco tempo esperançoso com o progresso de uma Revolução Cidadã; na Nicarágua, em defesa da gloriosa Revolução Sandinista e resistência aos intentos de golpe; no Brasil, o povo fortalece sua mobilização e resistência às arbitrariedades e ameaças do governo Bolsonaro contra seu próprio povo e contra seus vizinhos, um governo que promove a violência e destrói a tradição brasileira de empenho pela integração regional solidária e soberana e a promoção da paz na região, enquanto se mantém mobilizado na demanda pela liberação imediata do ex-presidente Lula, prisioneiro político do golpe ainda em curso, com sua inocência reconhecida; e no Chile, onde as pessoas, fartas das consequências gravíssimas do neoliberalismo, saem às ruas e são prontamente respondidas com a repressão típica dos que se dão conta de que o povo não pode aceitar estas políticas. A truculência da repressão, com 20 mortes e muitos feridos, como vimos, é clara demonstração do caráter reacionário e de agressividade contra os povos, uma grave ameaça à Paz.

Exemplo da política deletéria é, por outro lado, a forma criminosa com que tratam a Venezuela o imperialismo e seus aliados, com base na propaganda mentirosa sobre a crise para tentar derrubar o governo legítimo daquele país. Por isso uma das prioridades em nossa luta é o apoio irredutível ao povo venezuelano, vitimado por um cerco criminoso que tanto custou à nação e articulado inclusive no seio das instituições e grupos dominados pelos EUA, como a Organização dos Estados Americanos, o “ministerio de las colonias yanqui”, como a classificou o ex-chanceler cubano Raúl Roa García; e ao povo cubano, que há seis décadas resiste a toda sorte de planos, inclusive genocidas, por destruir a Revolução e afogar esta nação que, até nos momentos mais difíceis, segue comprometida com sua heroica solidariedade com os diversos povos do mundo em luta.

Reiteramos frequentemente nossa denúncia do total desprezo dos Estados Unidos pelo direito internacional, pelo direito dos povos à autodeterminação (inclusive para decidir sobre seus sistemas políticos), a manipulação descarada da bandeira dos direitos humanos como um instrumento a mais com que justificar a ingerência e a agressão; e o descompromisso dos EEUU com o multilateralismo, os tratados e as instituições internacionais que poderiam servir de verdade para a construção de uma ordem internacional democrática, justa, representativa e de cooperação. Mas isso não interessa aos Estados Unidos, que se autoproclamaram a polícia do mundo, a potência hegemónica cujos interesses o planeta deve servir. E é porque a unidade entre os povos, em solidariedade internacionalista, dificulta e sim, pode derrotar o sistema de dominação sob o mando estadunidense, vemos agravar sua agressividade contra as nações que não se rendem.

Os Estados Unidos têm a intenção declarada de domínio sobre o continente latino-americano e caribenho. A infame Doutrina Monroe da “América para os americanos”, ou seja, para os EUA, segue praticada, de forma agressiva e abertamente. A militarização imperialista da região se realiza de maneiras diversas. As quase 80 bases, suas frotas e manobras militares e sua política de domínio de espectro completo implicam que as forças dos Estados Unidos sejam capazes de conduzir ações instantaneamente e de forma sincronizada em todas as áreas, por mar, terra, ar e também no espaço e as comunicações e informações.

Mas é por não nos rendermos que seguimos lutando, juntos. A democracia, la soberania nacional, os direitos humanos, a justiça social, a solidariedade entre os povos e aa paz são princípios nossos, dos povos, movimentos sociais e entidades várias que nos mobilizamos com determinação e compromisso, e não podem ser tão facilmente manipulados pelo imperialismo para nos atacar, tentando derrubar governos legítimos e insubmissos, as gloriosas revoluções em curso, ou a esperança dos povos de que sim, é possível tornar aqueles princípios realidade. Estamos certos, portanto, e com base na História, de que apesar da crueldade e a grande força bélica do imperialismo, de sua covardia, não se trata de força invencível. Com a unidade e a luta dos povos, será derrotado e construiremos um mundo de paz.