Secretariado e entidades regionais do Conselho Mundial da Paz reúnem-se no Laos; leia do discurso de Socorro Gomes

A capital da República Democrática Popular do Laos, Vienciane, recebeu delegados de entidades de diversos países para as reuniões do Secretariado e da Região Ásia-Pacífico do Conselho Mundial da Paz (CMP), entre 24 e 26 de novembro. Os membros discutiram a conjuntura internacional e o plano de ação do CMP, visitaram locais dedicados às vítimas da guerra contrarrevolucionária protagonizada pelos EUA, que fez do Laos o segundo país mais bombardeado na História, e encontraram-se com representantes laocianos. Documentos da reunião serão divulgados em breve, mas o discurso da Presidenta do CMP, Socorro Gomes, já está disponível, a seguir.

Entidades regionais e de outros continentes participaram da Reunião da Região Ásia-Pacífico, que antecedeu a Reunião do Secretariado do Conselho Mundial da Paz no Laos, em novembro de 2019. Foto: KPL / Laos News Agency

Reunião do Secretariado do Conselho Mundial da Paz
Vienciane, Laos | 25 e 26 de novembro de 2019

Discurso da Presidenta do CMP, Socorro Gomes

Queridos companheiros e companheiras do Secretariado do Conselho Mundial da Paz,
Estimados amigos do Comitê Laociano de Paz e Solidariedade, que de forma tão hospitaleira, pelo que muito agradecemos, nos recebem em Vienciane, nos dando a oportunidade de acompanhar a Reunião da Região Ásia-Pacífico do CMP e conhecer de perto a luta do povo laociano;

É um grande desafio, mas também uma grande inspiração estarmos aqui reunidos, na atual conjuntura. Vemos sinais claros da força da resistência popular em diversas regiões do mundo diante das gravíssimas ameaças que o imperialismo e seus aliados seguem impondo.

Neste ponto, introduzimos o que temos discutido, defendido o rechaçado com diversas ações realizadas em todo o mundo, em constante mobilização, como deverão abordar o camarada Thanassis Pafilis, nosso secretário-geral, os coordenadores regionais da nossa organização e os membros nacionais. Assim, faremos uma avaliação geral do estado da nossa luta e dos nossos desafios, para identificar nossos objetivos, o que inclui, hoje, em termos de organização, a discussão preliminar da próxima Assembleia Mundial da Paz.

Companheiros, sabemos da urgência e a importância estratégica da ampliação da nossa frente de luta contra o imperialismo. Começo por este apelo, repetido sempre por cada um e uma de nós, porque nossos obstáculos e desafios são realmente cada vez mais graves.

As lutas dos povos de todo o mundo confluem para os principais eixos das nossas denúncias, como a falência de um sistema internacional dominado, hegemonizado e subjugado pelo imperialismo estadunidense, pelo império da guerra e o da exploração e a opressão.

Observamos a cada dia que o direito internacional, os princípios da Carta das Nações Unidas e as próprias instituições internacionais que se apresentam como promotoras da democracia e da justiça social são os primeiros manipulados, distorcidos pelo império quando não lhe interessam, ou não basta a ameaça generalizada de uso da força, a agressão e a guerra. Por isso, seguimos comprometidos com aqueles princípios, instrumentos dos povos e nações em luta pela libertação e defesa de suas soberanias, e cuja manipulação pelos Estados Unidos, a União Europeia e seus aliados mais virulentos, como Israel, não admitimos.

Observamos o que ocorre na região e no país que temos a grande oportunidade de visitar. Os companheiros laocianos contam-nos que os efeitos da guerra estadunidense contra o Laos foram graves e ainda se manifestam. A guerra dos Estados Unidos de 1964 a 1973 foi uma agressiva ingerência, em forma de ofensiva militar criminosa, no processo revolucionário do país —que, graças à valentia dos laocianos, sua liderança e a solidariedade internacional, se consolidou vitoriosamente no estabelecimento da República Popular Democrática do Laos. Como sempre, os EUA tinham seus planos e apoiavam as forças contrarrevolucionárias. Estima-se que na chamada Segunda Guerra na Indochina foram lançados aproximadamente três milhões de toneladas de explosivos, em 580 mil missões de bombardeios sobre o Laos, o segundo país mais bombardeado do mundo. Um recorde hediondo! Estima-se que mais de um terço das bombas não explodiu; com o fim da guerra, os artefatos seguiram vitimando o povo: 20 mil pessoas morreram ou ficaram feridas, sofrendo consequências até hoje.

Assim se demonstra a realidade das políticas imperialistas, que mudam de forma, mas não de conteúdo ou objetivo, segundo a conjuntura. Os Estados Unidos e seus aliados na Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), nestas e tantas outras ocasiões, como nas guerras contra o Vietnã, a ex-Iugoslávia, o Iraque, Afeganistão e tantos outros, mostram que são criminosos de guerra, perpetrando os mais hediondos crimes contra a humanidade.

É o que continuam sendo mesmo quando não estão lançando bombas, mas impondo sanções, bloqueio e cerco, ou apoiando diretamente os seus aliados, que sim fazem o serviço sujo, como Israel, Arábia Saudita e os golpistas e fascistas que proliferam por toda parte.

Na Ásia, acompanhamos atentos a ingerência em situações como as de Hong Kong, o Mar do Sul da China e a Península Coreana. Com manobras de guerra, alianças ofensivas ou respaldo a protestos duvidosos, os EUA e seus aliados continuam impondo seus planos. Há muito se denuncia o chamado Pivô para a Ásia desvelado no Governo de Barack Obama, mas são graves também as investidas de Donald Trump, agora apresentadas na forma de uma “guerra comercial” contra a China, e a militarização.

Como apontou a Reunião Regional de 2018 no Nepal, há significativa ingerência e cada vez mais tropas e numerosas bases militares estadunidenses na Ásia-Pacífico, também a segunda região com maior número de armas nucleares ativas. Tudo isso exacerba conflitos que poderiam ser resolvidos pacífica e soberanamente entre vizinhos que têm desafios graves em comum a solucionar, como a agudização do fundamentalismo religioso, o terrorismo, a pobreza, as endemias e tantos outros, que são interligados e demandam paz e estabilidades para serem solucionados.

Na América Latina e Caribe, os povos também enfrentam uma situação gravíssima de crescentes ataques à soberania de seus países. Quando muitos já haviam decretado o fim do progresso histórico rumo à emancipação, a justiça social e a integração soberana e solidária, vemos sinais e fatos concretos que nos inspiram a rebelar-nos contra o avanço neoliberal, conservador, reacionário e até protofascista que se apresenta em vários países, obstáculos ao progresso histórico. Um avanço que sempre conta com o respaldo do imperialismo estadunidense.

Na região, os povos lutam, com seus votos e nas ruas, contra o neoliberalismo, pela democracia, a soberania nacional e a justiça social na Argentina e no México, onde as forças democráticas venceram as eleições presidenciais, no Chile, Equador e Bolívia, onde as massas, nas ruas, levantam-se em rebeliões populares. A luta avança também com a bravíssima resistência da Revolução Bolivariana na Venezuela contra os golpistas ou as ameaças de agressão. Uma das prioridades da nossa luta continua sendo o apoio irredutível ao povo venezuelano, vitimado por um cerco criminoso que já tanto custou à nação. Denunciamos as manobras dos Estados Unidos e seus fantoches no chamado Grupo de Lima e na Organização de Estados Americanos, seu “ministério das colônias”.

Saudamos as vitórias da Revolução Cubana, em seus gloriosos 60 anos de construção do socialismo apesar do bloqueio criminoso dos EUA, bloqueio que se intensifica, com a ativação dos capítulos terceiro e quarto da Lei Helms-Burton, com o fim de estrangular o povo cubano, buscando destruir sua determinação de seguir defendendo sua soberania e consolidando sua revolução.

Também devemos denunciar a gravidade do mais recente golpe de Estado na região, na Bolívia, novamente para derrubar um governo legítimo, eleito pelo povo. As forças golpistas, racistas e fascistas, promovem, além da violação da Constituição, atos de violência de rua horrendos pela brutalidade cometida contra apoiadores do Governo legítimo do presidente Evo Morales. Saudamos o povo boliviano que sai às ruas, em protestos massivos, para contestar o golpe. Não se renderão!

Se antes os EUA realizavam intervenções diretas, com “coturnos no terreno”, como fizeram na Nicarágua, para buscar render o povo que os enfrentava, ou menos diretas, com o respaldo aos golpes militares sangrentos de que tantos povos vítimas, mas sobreviveram, agora esses métodos somam-se a outros, também devastadores, pela amplitude e a profundidade dos efeitos de suas guerras de nova geração, usando os meios de comunicação, redes sociais e todo tipo de apoios a grupos mais que suspeitos nos distintos países.

Amigas e amigos, os povos seguem mobilizados em todas as partes do mundo, quando as condições se mostram difíceis, quando as forças antidemocráticas, aliadas ao imperialismo estadunidense, tanto fazem para nos derrubar e acabar com a confiança popular de que é possível derrotar esse sistema de exploração, dominação e opressão.

Mas nós temos razões para confiar na luta dos povos. Prova disto é a resistência cotidiana, heroica e persistente do bravo povo palestino sob a sangrenta, criminosa e colonial ocupação militar israelense, cujos líderes seguem impunes por hediondos crimes contra a humanidade; também é prova disto a resiliência e a resistência do martirizado povo saaráui, nos campos de refugiados, em duras condições no deserto, ou sob a brutal ocupação militar marroquina, enquanto demandam a concretização da promessa de descolonização; também é prova a luta dos porto-riquenhos por sua libertação da colonização estadunidense; dos japoneses por expulsar de seu país as agressivas e numerosas bases militares dos Estados Unidos; da Coreia Popular, por seguir comprometida com a diplomacia, a paz e a estabilização da Península, pela reunificação com sua outra metade, enquanto respondem às provocações imperialistas; os sírios, que seguem também em gloriosa resistência à agressão dos EUA ou de vizinhos como a Turquia e a Arábia Saudita, enfrentando o terrorismo de grupos armados por eles e as invasões, enquanto o governo do país e seu povo seguem determinados a recuperar todo o seu território e a defender a soberania de sua nação; entre muitos outros.

Nestas batalhas se forja a unidade entre os povos, na solidariedade internacionalista, e a consciência de que é possível derrotar o sistema de dominação sob a ordem estadunidense.

Neste sentido se pronunciou em Baku, Azerbaijão, a 18ª Cúpula do Movimento dos Não-Alinhados, nascido do compromisso com a libertação dos povos. A Declaração de Baku recobra a importância da luta contra o colonialismo, o neocolonialismo, o racismo, todas as formas de intervenção estrangeira, agressão, ocupação estrangeira, dominação ou hegemonia, além da intenção do Movimento “de se tornar um fator de equilíbrio nas relações internacionais, fora das alianças militares dos centros de poder, que seguem sendo expressões concretas da política de não-alinhamento.”

O Conselho Mundial da Paz participou, enviando uma delegação. Escutamos então dos líderes das nações presentes seu compromisso com os princípios de Bandung e a Declaração de Objetivos e Princípios do Movimento na presente conjuntura, de “alcançar um mundo de paz, igualdade, cooperação e bem-estar para todos.” Fizemos nossa denúncia dos efeitos do imperialismo e o neoliberalismo sobre s povos e reforçamos nossa própria determinação na resistência.

Reforçamos a denúncia do desprezo total dos Estados Unidos pelo direito internacional e o direito dos povos à autodeterminação, inclusive para decidir sobre seus sistemas políticos. Denunciamos a manipulação imperialista da bandeira dos direitos humanos como instrumento para justificar a ingerência e a agressão; e o desprezo pelo multilateralismo.

A militarização do planeta segue a ritmo acelerado, trazendo sofrimento inaudito aos povos e determinando um rumo em direção a uma guerra de consequências imprevistas, que poderia até mesmo colocar em xeque a sobrevivência da humanidade.

Não há exagero no alerta quando notamos as quase mil bases militares dos EUA e da OTAN por todo o planeta, as frotas navais dos Estados Unidos dispersas por todos os oceanos, os exercícios de guerra, a disseminação de armas nucleares, ainda que se diga que o número de ogivas diminui enquanto são “modernizadas”, para alcançar mais distante e causar mais, ou menos, danos, segundo a intenção, banalizando seu emprego; os gastos militares que já somavam 1,8 trilhão de dólares em 2018, ou seja, 2,1% do PIB mundial, segundo o Instituto Internacional de Estocolmo de Pesquisa de Paz (SIPRI). Isto é uma afronta inaceitável a tudo o que os povos aspiram.

Companheiros e companheiras, neste ano, o CMP cumpre 70 anos de luta; devemos alçar sempre mais alto nossas bandeiras de resistência à opressão e à exploração, às ameaças à soberania das nações e à guerra. Para impor seus desígnios, saquear os recursos dos povos, controlar rotas estratégicas e subjugar as nações à sua agenda de dominação completa, os EUA e seus aliados na OTAN não medem consequências. As vítimas são os povos e seus anseios.

Sabemos que juntas e juntos podemos derrotar o imperialismo e construir um mundo de justiça social e paz, de solidariedade e cooperação. Os poderosos também sabem, por isso reagem da única forma que podem, com violência, agressão e guerra.

Fazemos sempre reiterados apelos pela ampliação da nossa frente de luta e buscamos avançar com medidas concretas, mas, como sabemos, é preciso reforçar esse empenho, começando pelo reforço da nossa própria unidade, através do nosso trabalho e inteligência coletivos. O estado do mundo é cada vez mais grave e, por isso, a luta, que se faz todo dia, que segue viva, é cada vez mais difícil. Por isso mesmo, é preciso reforçar a estratégia, e sabemos como.

Fim às guerras imperialistas!
Pela Justiça, a Paz e a Solidariedade entre os povos!
Seguimos em luta!
Viva o Conselho Mundial da Paz!