Gasto militar global subiu 2,6% no ano pandêmico de 2020

A militarização do planeta segue o curso normal. Dados divulgados nesta segunda-feira (26) pelo Instituto Internacional de Estocolmo de Pesquisa pela Paz (SIPRI) indicam que em 2020 o mundo gastou 1,98 trilhão de dólares (quase R$ 11 trilhões) em armamentos e outros equipamentos militares, enquanto os povos enfrentam os efeitos da crise catalisada pela pandemia e as persistentes crises sociais e humanitárias, inclusive as resultantes das guerras. Os Estados Unidos continuam à frente, representando sozinhos 39% dos gastos mundiais no setor.

De acordo com os dados do SIPRI, o crescimento de 2,6% do gasto militar mundial contrasta com o encolhimento de 4,4% do PIB, segundo projeções de outubro do Fundo Monetário Internacional (FMI). Por isso, a proporção do gasto militar em relação ao PIB ficou em uma média de 2,4%, maior que a de 2,2% em 2019. Foi o maior aumento interanual do peso do setor militar no PIB global desde 2009, quando houve desaceleração devido à crise econômica e financeira de então.

Os Estados Unidos, em primeiro lugar no ranking, gastaram 778 bilhões de dólares no setor militar em 2020, um aumento de 4,4% com relação a 2019. De acordo com a pesquisadora do SIPRI Alexandra Marksteiner, o aumento deve-se principalmente ao investimento estadunidense em pesquisa e desenvolvimento e a projetos de longo prazo, como a modernização do arsenal nuclear e à compra de armas em larga escala.

O incremento é movido a acusações contra a China e a Rússia de apresentarem grandes ameaças aos Estados Unidos. A narrativa anti-China foi intensificada pelo governo do Republicano Donald Trump, que se empenhou por aumentar o orçamento militar do país, assim como o da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), mas a tendência já se verificava no governo Democrata de Barack Obama.

Sobre o bloco militar, o SIPRI informa que quase todos os seus 30 membros aumentaram os seus gastos militares em 2020. Destes, 12 membros gastaram mais de 2% dos respectivos PIBs no setor, superando o compromisso com a diretriz da OTAN. Ao mesmo tempo, os EUA e a OTAN, que o Conselho Mundial da Paz (CMP) e outras forças da paz classificam de “o braço armado do imperialismo”, continuam mobilizando tropas e equipamentos para a região Ásia-Pacífico e o leste europeu, numa postura de confrontação aberta contra a China e a Rússia.

Segundo a página da OTAN, o bloco decidiu que o orçamento para 2021 será de 258,9 bilhões de euros (mais de 1,7 trilhão de reais hoje) para o setor dito civil —num bloco militar— e 1,61 trilhão de euros (quase 11 trilhões de reais hoje) para o setor militar.

Além disso, a revisão estratégica da OTAN anunciada em novembro de 2020 refletiu o empenho por evitar a ascensão chinesa. Aprofundando e adaptando o “Pivô para a Ásia” promovido no Governo Obama, o novo relatório da OTAN insta os seus membros a dedicar mais tempo, recursos políticos e ações contra “as ameaças securitárias apresentadas pela China”, que o documento classifica de um “rival sistêmico de espectro completo”. O presidente estadunidense Joe Biden e seus homólogos da Austrália, Índia e Japão relançaram em março uma iniciativa conjunta e de alto nível para “travar a China” no Pacífico, que já existia informalmente desde 2000.

Outras tendências

O SIPRI aponta ainda que entre os membros da OTAN, o Reino Unido sobe de posição e converte-se no 5º país a mais dedicar recursos ao setor militar, gastando 59,2 bilhões de dólares (um aumento de 2,9% em relação a 2019). A Alemanha teve um incremento de 5,2%, gastando 52,8 bilhões de dólares (28% a mais do que o gasto há uma década). Em geral, o gasto militar de toda a Europa cresceu 4% entre 2019 e 2020.

A China continua em segundo lugar, tendo dedicado 252 bilhões de dólares ao setor militar em 2020, representando um aumento de 1,9% em relação a 2019 e 76% em relação à década passada, de incremento constante. Ainda assim, a China gasta hoje menos de 1/3 do orçamento estadunidense e, em termos reais, o aumento não significou maior carga no orçamento devido ao crescimento positivo do PIB chinês, indica o pesquisador Nan Tian. “O crescimento continuado do gasto chinês deve-se em parte à modernização militar de longo prazo e aos planos de expansão, em linha com a vontade manifesta de se colocar ao mesmo nível das outras potências militares líderes,” afirma.

Já a Rússia gastou 2,5% a mais no setor em 2020, chegando a 61,7 bilhões de dólares, mas ficando aquém do previsto no seu orçamento militar em 6,6%.

Entre os 15 países com maiores gastos no setor em 2020 estão a Arábia Saudita e Israel. A Índia, Japão, Coreia do Sul e Austrália, alinhados à política estadunidense e à OTAN, foram, individualmente, e depois da China, os que mais gastaram no setor militar na Ásia e Oceania.

Na América do Sul, o gasto militar caiu em 2,1% em 2020, até os 43,5 bilhões de dólares. O Brasil, país com maior gasto militar na região, teve uma redução de 3,1%, dedicando menos ao setor do que o previsto em orçamento.

No Oriente Médio, o gasto militar combinado de 11 países para os quais o SIPRI tem dados caiu 6,5% em 2020, para 143 bilhões de dólares.

Na África Subsaariana os gastos militares cresceram 3,4% em 2020 até os 18,5 bilhões de dólares, com Chade, Mali, Mauritânia, Nigéria e Uganda à frente.

Do CEBRAPAZ