A seguir, reproduzimos o texto disponibilizado pelo dirigente comunista chileno Daniel Jadue, que serviu de base para sua intervenção no debate virtual realizado em 19/11, intitulado “Os desafios da esquerda chilena e latino-americana”, promovido pelo Cebrapaz.
Por Daniel Jadue*
Introdução: Para Além da Encruzilhada, a Crise Orgânica
A esquerda latino-americana e chilena enfrenta uma encruzilhada estratégica: uma crise orgânica no sentido gramsciano: uma situação em que o velho não termina de morrer e o novo não consegue nascer. Os ciclos progressistas demonstraram ser possível gerenciar a pobreza com mais eficácia do que a direita, mas não conseguiram – e ouso dizer que a maioria nem se propôs a fazê-lo – alterar a matriz neoliberal extrativista e dependente. O resultado é um desencanto profundo, uma fratura entre a base social e seus representantes políticos, e um vazio de horizonte que a ultradireita preenche com narrativas reativas e punitivas.
Neste contexto de orfandade estratégica, o pensamento de Rosa Luxemburgo e Frantz Fanon age como um duplo antídoto: o primeiro contra o pragmatismo sem princípios e o segundo, contra a renúncia à subjetividade revolucionária. De Luxemburgo, recuperamos a dialética entre reforma e revolução não como polos opostos, mas como uma tensão criativa, onde cada conquista parcial deve ser medida pela sua capacidade de fortalecer o poder popular e a consciência de classe. De Fanon, herdamos uma crítica total que vai da economia política à psique, revelando que a dominação não se sustenta apenas com exércitos e mercados, mas com a inferiorização internalizada do oprimido, que em nosso caso se revela como vergonha de classe e vergonha ideológica.
Esta apresentação se aprofunda em três desafios nodais que emergem deste diálogo: a batalha pela hegemonia cultural, a reconstrução do poder popular como contrassociedade, e a reivindicação do conflito, com seu papel pedagógico, como princípio de realidade e de cura desta doença que aflige, por igual, a classe trabalhadora e os partidos de esquerda.
I. O Primeiro Desafio: A Batalha pela Hegemonia e a Descolonização da Linguagem
O neoliberalismo não é apenas um modelo econômico; é, acima de tudo, um projeto civilizatório que produz um senso comum à sua medida. Seu triunfo mais duradouro é a colonização da imaginação e da nossa mente, conseguindo que suas hierarquias e categorias sejam vividas como verdades naturais e inquestionáveis. Fanon, em Pele negra, máscaras brancas, diagnosticou este processo como a “epidermização da inferioridade”: o colonizado acaba se vendo com os olhos do colonizador. Sua analogia contemporânea é o que poderíamos chamar a “epidermização neoliberal” da esquerda e da classe trabalhadora: a internalização de uma lógica que nos transforma em empreendedores de nossa própria precariedade, em culpados pelo nosso fracasso individual em um sistema desenhado para o benefício de poucos, e os partidos de esquerda em verdadeiros administradores do dano sem horizonte nem antídoto.
Esta operação se executa através da linguagem. Quando a esquerda abraça o “economês” – falando de “capital humano”, “empregabilidade”, “focalização” ou “sustentabilidade fiscal” – não está sendo pragmática; está capitulando. Fanon nos fala com uma clareza que deprime: Ao adotar a língua do senhor, renuncia à possibilidade de nomear o mundo a partir da experiência da classe trabalhadora e aceita suas hierarquias e suas verdades como naturais e indiscutíveis. A esquerda contemporânea, ou pelo menos uma parte importante dela, que inclusive hoje se autodenomina progressista, por sua vergonha ideológica e de classe, substitui “exploração” por “produtividade”, “luta de classes” por “diálogo social”, e “direitos sociais” por “gasto social”. Esta é a síndrome da “esquerda mascarada”, aquela que, em sua ânsia por respeitabilidade, em seu desejo de habitar a república, acaba administrando a ordem que jurou transformar, replicando o papel da “burguesia nacional” que Fanon denunciou como classe intermediária e traidora.
O desafio, portanto, é travar uma batalha cultural pela hegemonia. Isso implica uma tarefa árdua de desaprendizagem e reinvenção linguística. Significa, como no exemplo de Recoleta, nomear as instituições com um sentido de classe e memória histórica (“Farmácia Popular Ricardo Silva Soto”), disputando não apenas os recursos, mas o símbolo. Significa construir uma contranarrativa que desmonte os mitos fundadores do neoliberalismo: que a riqueza é fruto do mérito individual, que o mercado é o alocador ótimo de recursos, e que a democracia se esgota no ritual eleitoral a cada quatro anos. Sem vencer esta batalha das ideias, sem criar um novo senso comum a partir de baixo, sem nos desfazer da vergonha ideológica e de classe que o colapso da URSS e o discurso do fim da história nos geraram, toda vitória política será efêmera e sempre acabaremos devolvendo o aparato do Estado ao senhor que o deixou sob nossos cuidados por um tempo.
II. O Segundo Desafio: O Poder Popular como Contrassociedade e a Superação do Fetichismo Estatal
Rosa Luxemburgo alertou, em sua crítica à social-democracia alemã e depois à burocracia bolchevique, sobre o perigo de confundir a conquista do aparato estatal com a realização da revolução. Para ela, a verdadeira emancipação reside na “autoatividade das massas”, na capacidade da classe trabalhadora de autogovernar-se através de conselhos, assembleias e formas de democracia direta. Esta é a lição que o progressismo latino-americano esqueceu: concentrou-se no palácio do governo e descuidou do tecido organizativo que o havia levado até lá, acreditando que a transformação podia ser decretada de cima.
Fanon, por sua vez, em Os Condenados da Terra, previu com amarga clarividência como a “burguesia nacional” pós-colonial se limitaria a ocupar o lugar do colono, convertendo a independência formal em uma nova forma de dependência neocolonial. A analogia com a “esquerda neoliberal” é perturbadora: uma casta dirigente que, uma vez no governo, se torna gestora competente da acumulação capitalista, sufocando a autonomia dos movimentos sociais e canalizando a participação em instâncias consultivas e domesticadas, em troca de aumentar as migalhas que o sistema nos reparte para evitar o protesto e manter desmobilizada a classe, que não se atreve a se levantar para não prejudicar o que uma parte dela considera seu governo, sem perceber que a cada dia que passa aumentam aqueles que já não acreditam mais em nós e que já não confiam em nós nem em ninguém que venha do sistema.
O desafio estratégico, então, é descentralizar o Estado como fetiche e construir poder popular a partir dos territórios. Isso não significa abandonar a disputa institucional, mas sim subordiná-la à construção de uma contrassociedade organizada. O poder real não se mede pelos cargos ocupados, mas pela capacidade das comunidades de se autogovernarem, resolverem seus problemas e defenderem suas conquistas. As experiências das cozinhas comunitárias (ollas comunes), as assembleias territoriais, as rádios comunitárias, as cooperativas de moradia e os projetos de economia solidária, os movimentos por teto, terra e trabalho são os embriões deste poder dual.
A esquerda deve redefinir seu papel: não ser a vanguarda que ilumina o povo de cima, mas sim o instrumento que coloca suas capacidades técnicas e organizativas a serviço da inteligência coletiva que surge de baixo. Sua tarefa é fortalecer estes espaços, conectá-los em rede e garantir que sejam escolas de democracia radical, onde se aprenda a deliberar, decidir e executar. Como demonstrou a experiência de Recoleta, quando o município se transforma em um parceiro das organizações sociais e não em seu patrão, abre-se a possibilidade de um cogoverno real que prefigura a sociedade do futuro.
III. O Terceiro Desafio: O Conflito como Princípio de Realidade e Terapia Social
A ordem neoliberal se funda em uma violência estrutural silenciosa e normalizada: a violência do salário indigno, da dívida usurária, da previdência miserável, do tempo devorado pelo transporte e pela sobrevivência. Diante desta violência lenta e insidiosa, a esquerda não pode cair na armadilha de condenar unicamente a “violência” reativa que eventualmente irrompe na superfície. Fanon, psiquiatra e revolucionário, compreendeu que a contraviolência do oprimido não é um ato patológico, mas um processo de desalienação e autoafirmação. É a resposta catártica a um sistema que nega a humanidade do colonizado e do oprimido, que o coloca em um lugar de não ser, que o torna invisível; e a contraviolência popular é, portanto, o primeiro ato através do qual se reconquista a dignidade, se volta a ser visto e se recupera a subjetividade perdida.
O Estallido Social de 2019 no Chile, assim como as jornadas de junho no Brasil, foram a encarnação fanoniana deste processo e, em nossos países, nem a esquerda nem a direita souberam lê-lo, reagindo da mesma maneira, a única que o Estado como instrumento de dominação de classe conhece, com fuzil e grade. Não foram “atos de vandalismo”, mas atos políticos de legítima defesa histórica. Foi o grito de povos que, após décadas de abuso e promessas não cumpridas, irromperam no espaço público para dizer “basta!”. Nesse processo, como Fanon observou na Argélia, a ação coletiva teve um efeito terapêutico: o medo se transformou em coragem, a impotência em potência, a raiva individual em organização coletiva. A praça ocupada se tornou um espaço de cura para as feridas psíquicas infligidas pelo modelo e, no caso do Brasil, os erros do governo que não conseguiu reagir a tempo e se colocar ao lado de seu povo, acabaram entregando-o à ultradireita com o resultado por todos já conhecido.
O terceiro desafio para a esquerda é, portanto, superar seu amor à governança neoliberal, ao diálogo e à política dos consensos; superar sua fobia ao conflito e reivindicá-lo como o princípio de realidade de toda sociedade dividida em classes, com seu papel pedagógico e sua potência para a construção da consciência de classe. A “paz social” pactuada sobre a injustiça não é paz, é pacificação. A verdadeira paz, a paz com dignidade, é filha do conflito resolvido mediante a transformação das estruturas que o geram. A esquerda deve defender o direito ao protesto, à greve e à insubordinação civil como ferramentas legítimas dos de baixo, assim como o direito penal, mesmo em sua versão burguesa, reconhece a “legítima defesa” diante de uma agressão ilegítima. Abraçar o conflito é entender, com Luxemburgo, que a liberdade de quem pensa diferente é a alma de toda democracia que aspire a ser algo mais do que a ditadura de uma minoria sobre a maioria.
Conclusão: Por uma Esquerda Fanoniana e Luxemburguista: Sem Medos e Sem Máscaras
Os desafios da esquerda latino-americana e chilena exigem uma autocrítica sem concessões e um salto imaginativo de proporções históricas. Não se resolverão com ajustes táticos ou com um retorno nostálgico a fórmulas do passado. Exigem uma reinvenção radical que, nas palavras de Simón Rodríguez, podemos resumir em “Inventar ou Errar”.
Esta reinvenção passa por:
- Tornar-se uma esquerda fanoniana: Que se atreva a descolonizar seu pensamento, sua linguagem e seu desejo. Que estabeleça um diálogo profundo com a classe trabalhadora em toda a sua renovada e ampla diversidade, com os movimentos feministas, ecologistas, indígenas e de diversidade sexual, entendendo que a luta de classes se entrelaça com a opressão patriarcal, colonial e racista.
- Tornar-se uma esquerda luxemburguista: Que recupere a democracia socialista como horizonte, onde a liberdade política e a igualdade econômica sejam inseparáveis. Que confie na espontaneidade criativa das massas e combata todo burocratismo, substituindo a lógica do aparato pela lógica da assembleia e evitando a todo custo o substitucionismo da classe pelo partido ou pelo aparato do Estado.
A tarefa é monumental, mas sua semente está em cada espaço onde a comunidade se organiza para cuidar, para produzir, para decidir. A esquerda que mereça de verdade o nome de esquerda será aquela que, deixando para trás a vergonha e o complexo de inferioridade, se reencontre com os “condenados da terra” do nosso tempo. Será aquela que, como diria Fanon, compreenda que “cada geração tem uma missão: cumpri-la ou traí-la”. A nossa, na relativa opacidade deste tempo, é a de inventar ou errar. Não há atalhos.
*Arquiteto, sociólogo, membro do Partido Comunista do Chile e ex-prefeito de Recoleta.
Esse é um artigo de opinião e não necessariamente reflete a opinião do Cebrapaz
