COLUNA | Caio Botelho – Trump e a nova ofensiva imperialista na América Latina

Por Caio Botelho*

A invasão militar dos Estados Unidos à Venezuela em janeiro de 2026, culminando com o sequestro do presidente Nicolás Maduro para Nova York, marca um ponto de inflexão alarmante nas relações hemisféricas. O que testemunhamos não é simplesmente mais um dentre diversos capítulos da histórica ingerência estadunidense em nossa região, mas a consolidação de uma doutrina explicitamente neocolonial que trata a América Latina como laboratório de controle e zona exclusiva de domínio imperial.

A operação militar apelidada de “Resolução Absoluta” não deixa margem para ambiguidades. Com mais de 150 aeronaves, incluindo caças F-22 e F-35, bombardeiros B-1 e sistemas de guerra cibernética, as forças armadas dos EUA desmantelaram as defesas venezuelanas, bombardearam infraestrutura civil e capturaram um presidente eleito de um país soberano. O saldo oficial reporta cerca de 100 pessoas mortas, entre militares e civis — números que podem ser significativamente maiores. Este não foi um ato de “aplicação da lei”, como cinicamente alegou a Casa Branca. Foi uma invasão em plena regra, uma violação flagrante da soberania nacional e do direito internacional.

O que torna esta agressão particularmente reveladora é a franqueza com que Trump admitiu suas verdadeiras motivações. Não se trata de combater o narcotráfico, como alega a narrativa oficial, mas sim de apropriar-se das vastas reservas de petróleo da Venezuela. “Vamos administrar a Venezuela até a transição de poder”, declarou Trump sem rodeios, acrescentando que a receita gerada iria para empresas petrolíferas estadunidenses e para os cofres de Washington como “reembolso por danos”. Esta linguagem não é de um presidente democrático, mas de um conquistador saqueando territórios colonizados. Esbarra, entretanto, na postura firme do governo venezuelano, agora liderado interinamente pela presidenta Delcy Rodriguez.

A Doutrina do Terror

A Venezuela não está sozinha na mira do arsenal imperial. As ameaças proferidas por Trump contra outros países latino-americanos revelam um padrão deliberado de intimidação. A Colômbia, sob o governo progressista de Gustavo Petro, tornou-se alvo de acusações infundadas. Trump, sem apresentar qualquer evidência, rotulou Petro como “líder do narcotráfico” e “homem doente que gosta de produzir cocaína”, chegando ao absurdo de sugerir abertamente uma intervenção militar colombiana. “Para mim, parece uma boa ideia”, disse o presidente estadunidense ao ser questionado sobre invadir a Colômbia. A resposta de Petro foi digna e firme: ele está disposto a “pegar em armas” para defender a soberania de seu país, classificando a operação na Venezuela como uma “aberração” que destruiu o estado de direito internacional.

Cuba, por sua vez, enfrenta uma severa dificuldade econômica deliberadamente orquestrada. Trump previu que a ilha “está pronta para cair” devido ao corte do fornecimento de petróleo venezuelano. A estratégia é de estrangulamento econômico, usando sanções e bloqueios que já custaram mais de 7,5 bilhões de dólares à Cuba apenas entre março de 2024 e fevereiro de 2025, segundo o governo cubano. O presidente Miguel Díaz-Canel reafirmou, com dignidade, que qualquer relação com os EUA deve basear-se no respeito mútuo e na não-interferência, não em “hostilidade, ameaças e coerção econômica”.

Esta ofensiva regional é, nas palavras de analistas, uma reencarnação da política do “big stick”, ou “grande porrete”, de Theodore Roosevelt. Trump formalizou esta abordagem no que denominou “Doutrina Donroe” — uma reinterpretação da Doutrina Monroe de 1823 que afirma a supremacia absoluta dos EUA no hemisfério ocidental. A Estratégia de Segurança Nacional de 2025 estabelece explicitamente a intenção de negar a competidores não-hemisféricos, especialmente a China, qualquer capacidade de posicionar forças ou controlar ativos estratégicos na região. A América Latina, nesta visão, não é composta por nações soberanas com direito à autodeterminação, mas sim por territórios a serem controlados e recursos a serem explorados.

Resistência no coração do Império

Curiosamente, algumas das vozes mais contundentes contra esta política imperialista surgem das próprias ruas estadunidenses. O movimento “No Kings” (Sem Reis) mobilizou milhares de pessoas em mais de 2.600 atos de protesto em todos os 50 estados norte-americanos, além de manifestações solidárias na Europa e no Canadá. O nome do movimento é eloquente: “Nos EUA não temos reis”, gritam os manifestantes, denunciando o que percebem como uma deriva autoritária perigosa.

Os protestos têm como alvo não apenas a política externa agressiva de Trump, mas também suas ações domésticas: as deportações em massa de imigrantes, a criação de centros de detenção apelidados de “Alligator Alcatraz”, o uso de tropas federais e da Guarda Nacional para reprimir manifestações, o confronto aberto com o Congresso e o Judiciário, e o desmantelamento de agências públicas. Em Los Angeles, Nova York, Boston, Chicago e Washington D.C., multidões saíram às ruas em defesa da democracia e dos princípios constitucionais.

A resposta republicana foi previsível e reveladora. O presidente da Câmara, Mike Johnson, rotulou as manifestações como “comícios antiamericanos” e “comícios de ódio à América”, acusando os participantes de serem “comunistas”, “marxistas” ou “tipos Antifa”. Governadores republicanos como Greg Abbott, do Texas, e Glenn Youngkin, da Virgínia, colocaram a Guarda Nacional em alerta, preparando-se para reprimir os protestos pacíficos. Esta caracterização dos próprios cidadãos estadunidenses como inimigos internos apenas por exercerem o direito constitucional de protesto é sintomática do autoritarismo crescente que preocupa observadores dentro e fora dos EUA.

Os lacaios regionais

Infelizmente, Trump não age sozinho na região. Conta com o apoio entusiástico de governos de direita e extrema-direita que se alinham servilmente aos interesses de Washington. Javier Milei, presidente da Argentina, destaca-se como o mais fervoroso aliado regional de Trump. Milei não apenas endossou a invasão à Venezuela — chamando-a de “libertação” em vez de invasão — como ofereceu apoio argentino caso fosse solicitado. “Estou de acordo com os Estados Unidos avançando e, se precisarem do meu apoio, eles o terão”, declarou Milei.

O contraste com líderes como Luiz Inácio Lula da Silva, do Brasil, e Gustavo Petro, da Colômbia, é gritante. Brasil, Colômbia, Espanha, México e Uruguai emitiram declaração conjunta condenando a ação militar estadunidense. Estas vozes, porém, encontram-se em minoria num cenário regional onde outros governos optaram pelo silêncio cúmplice ou pelo apoio explícito.

Países como Chile, onde José Antonio Kast chegou ao poder com campanha focada na insegurança e migração, Bolívia, onde a direita retomou o controle após anos de governo do MAS, e Equador, onde Daniel Noboa conduz gestão neoliberal militarista, integram este bloco conservador que facilita a agenda imperial. Honduras, onde a contestada vitória de Nasry “Tito” Asfura foi anunciada por uma autoridade eleitoral parcial e em meio a denúncias de fraude e interferência estrangeira, especificamente de Trump, ilustra como a influência estadunidense vai além da diplomacia e adentra a manipulação eleitoral direta.

A saída é a a luta

O que está em jogo transcende a Venezuela, a Colômbia ou Cuba. O que presenciamos é a tentativa de reimposição de uma ordem hemisférica onde a América Latina existe apenas como zona de recursos e mercados para os Estados Unidos, sem direito à soberania, autodeterminação ou projetos políticos independentes. A “Doutrina Donroe” não é retórica vazia, mas programa concreto de ação que combina coerção militar, estrangulamento econômico, manipulação eleitoral e pressão diplomática.

A resposta adequada a esta ofensiva imperial não pode ser o alinhamento submisso exemplificado por Milei e outros. Tampouco pode ser o silêncio ou a neutralidade conivente. A defesa da soberania nacional, da autodeterminação dos povos e do direito internacional exige coordenação regional efetiva, fortalecimento de instituições multilaterais latino-americanas e solidariedade ativa com os países sob ataque.

Os protestos nos Estados Unidos demonstram que mesmo dentro do império existem forças progressistas que reconhecem a ilegitimidade e imoralidade destas políticas. Cabe aos povos e governos latino-americanos que valorizam a independência e a dignidade nacional estabelecer alianças com estas forças, denunciar sistematicamente as violações do direito internacional e construir alternativas de integração regional que não dependam da benevolência de Washington.

A história da América Latina está repleta de exemplos de resistência bem-sucedida ao imperialismo. Nos momentos mais sombrios, quando o “grande porrete” parecia invencível, foram os povos organizados, conscientes e mobilizados que conquistaram a soberania. A atual ofensiva de Trump é brutal e perigosa, mas não é invencível. Resistir é a única opção compatível com a dignidade de povos livres.

*Caio Botelho é economista e membro da Direção Executiva Nacional do Cebrapaz – Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz.

Esse é um artigo de opinião e não necessariamente reflete a opinião do Cebrapaz

Pintura do artista Óscar González “Guache”