ARTIGO | José Reinaldo – O caso Epstein revela a imoralidade e a hipocrisia do sistema político dos Estados Unidos

Por José Reinaldo Carvalho*

O escândalo envolvendo Jeffrey Epstein é um episódio revelador da degenerescência da sociedade estadunidense e da hipocrisia do seu sistema político, apresentado ao mundo como democrático, mas na verdade muito distante do que se pode considerar uma democracia verdadeira.  

Muito além de um caso criminal, o episódio mostra a existência de uma estrutura de privilégios e cumplicidade que sustenta a impunidade de setores influentes da elite política e econômica, desmontando a imagem de “democracia exemplar” frequentemente propagada por Washington. 

O caso Epstein expôs crimes sexuais gravíssimos, incluindo pedofilia, e ao mesmo tempo, evidenciou a lógica de funcionamento de um sistema que protege os poderosos. Em vez de atuar como um instrumento universal de justiça, a engrenagem institucional estadunidense mostrou-se vulnerável à influência do dinheiro e das cumplicidades políticas. 

A chamada “democracia” estadunidense, que se apresenta ao mundo como guardiã dos direitos humanos, teve mais uma vez sua credibilidade abalada por um episódio em que a Justiça se mostrou negociável.

O caso revelou um país em que a fiscalização do poder não ocorre de maneira imparcial, mas é condicionada por redes de conveniência e acordos de bastidores. Enquanto os Estados Unidos utilizam discursos morais para acusar adversários externos e justificar punições internacionais, no plano interno toleram crimes e abusos quando praticados por figuras próximas aos centros de poder. 

Epstein circulava entre magnatas, políticos e celebridades. Sua presença constante nos círculos mais prestigiados do capitalismo financeiro estadunidense indica que sua ascensão não foi uma exceção, mas consequência de uma ordem social que recompensa riqueza e influência com acesso ilimitado. O aspecto mais explosivo do caso está justamente no fato de que ele foi acolhido, legitimado e protegido por estruturas que deveriam ser incapazes de tolerar sua permanência em espaços de prestígio. 

Se o sistema político dos Estados Unidos fosse de fato sustentado por princípios democráticos consistentes, Epstein dificilmente teria prosperado durante tanto tempo. Sua trajetória sugere que a retórica institucional não corresponde à realidade prática, marcada por desigualdade estrutural e blindagem seletiva.

Um dos elementos mais emblemáticos dessa distorção foi o acordo judicial firmado em 2008, que garantiu ao empresário um tratamento extremamente brando. O episódio tornou evidente que o aparato institucional dos EUA opera de maneira distinta dependendo de quem ocupa o banco dos réus. Para cidadãos comuns, o Estado exerce sua força com rigor. Para os ricos e influentes, a Justiça se converte em uma mesa de negociação. Não se trata de uma falha pontual, mas de uma cultura política moldada por privilégios e cumplicidade. 

A morte de Epstein na prisão, em 2019, ampliou ainda mais o clima de desconfiança. O Estado, que se apresenta como o mais eficiente do planeta, não conseguiu manter vivo um prisioneiro que poderia comprometer figuras poderosas, o que alimentou suspeitas sobre as circunstâncias do episódio. Questionamentos sobre possível assassinato e “queima de arquivo” ganharam força, já que a versão oficial de suicídio, embora registrada formalmente, não foi convincente.  

Esse ceticismo se baseia em um histórico de operações obscuras, manipulações e acordos informais que, ao longo do tempo, corroeram a credibilidade das instituições estadunidenses. O caso Epstein, nesse sentido, reforçou a percepção de que a democracia dos Estados Unidos se apoia em normas muitas vezes decorativas, aplicadas conforme interesses de ocasião. 

A contradição torna-se ainda mais evidente quando se observa a distância entre o discurso oficial e a realidade interna. O país que se apresenta como árbitro global dos direitos humanos foi incapaz de impedir que um predador sexual atuasse por décadas, protegido por sua proximidade com elites políticas e econômicas. Esse contraste destrói um dos pilares centrais da hegemonia estadunidense: a ideia de que seu poder internacional seria legitimado por valores morais superiores. 

Nesse cenário, a presença do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, aparece como um componente político particularmente sensível. Trump representa um tipo de liderança que prospera em um ambiente em que o espetáculo substitui a ética e em que a agressividade é confundida com autenticidade. Sua proximidade social com Epstein, registrada em fotos e eventos públicos, evidencia como os limites morais se tornaram cada vez mais frágeis entre as classes dominantes dos Estados Unidos.

Ainda que não exista comprovação judicial da participação direta de Trump nos crimes atribuídos a Epstein, o significado político dessa relação permanece relevante. O caso simboliza como homens poderosos transitam em redes de festas, luxo e influência sem compromisso com a responsabilidade pública. Representa também a normalização do cinismo e a cultura do “tudo é permitido” para aqueles que ocupam o topo da pirâmide do poder.

Trump construiu sua imagem pública como adversário do establishment, mas sua trajetória é marcada por conexões com a mesma elite decadente que afirma combater. O caso Epstein reforça essa contradição, ao sugerir que o populismo de direita nos Estados Unidos não representa uma ruptura real com o poder tradicional, mas uma adaptação mais agressiva e desprovida de limites éticos dos mesmos mecanismos de poder. 

Além disso, o episódio expõe traços antidemocráticos que se tornam visíveis na forma como a extrema direita atua: a política transformada em guerra cultural permanente, o desprezo por instituições e a tentativa constante de deslegitimar mecanismos de fiscalização e controle. Em um país já profundamente corroído pela desigualdade e pela influência do lobby corporativo, a democracia torna-se ainda mais frágil quando conduzida por figuras que desprezam a verdade e tratam o espaço público como instrumento de manipulação emocional.

O caso Epstein funciona, assim, como uma radiografia do poder nos Estados Unidos. Ele revela como as elites se protegem, como o sistema judicial pode ser moldado para servir aos ricos e como a política se mistura a redes sociais de influência que operam fora de qualquer transparência real. Mais do que isso, evidencia que o discurso moral estadunidense frequentemente atua como máscara conveniente para justificar intervenções e sanções externas, mas se torna descartável quando a corrupção e a podridão se instalam dentro de seus próprios círculos privilegiados. 

A hipocrisia ganha contornos ainda mais graves porque os Estados Unidos não apenas toleram esse tipo de decadência, mas a projetam para o mundo como modelo cultural e político. A mesma sociedade que se vende como referência civilizatória é aquela em que um predador sexual conseguiu circular livremente entre milionários e políticos, enquanto as vítimas eram silenciadas, desacreditadas ou ignoradas.

*José Reinaldo Carvalho é jornalista, editor do Resistência e Presidente do Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz (Cebrapaz).

Esse é um artigo de opinião e não necessariamente reflete a opinião do Cebrapaz