ARTIGO | José Reinaldo – Ultimato de Trump ao Irã eleva risco de guerra

Por José Reinaldo Carvalho*

A crise entre os Estados Unidos e o Irã entrou nesta quinta-feira (19) em um novo patamar de instabilidade, após o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, emitir em Washington um ultimato ao governo iraniano durante seu pronunciamento na primeira reunião do chamado “Conselho da Paz” de Gaza. Trump declarou que, caso Teerã não aceite as condições impostas por Washington no prazo de dez dias, o país persa sofrerá “coisas ruins”, numa ameaça direta que reforça o clima de escalada militar no Oriente Médio e coloca em risco qualquer possibilidade de solução diplomática. Um retrocesso em relação ao entendimento preliminar firmado na terça-feira (17), em Genebra.

O ultimato e a ameaça foram feitos precisamente no momento em que eram emitidos sinais de esperança de que as negociações conduzidas em Genebra, poderiam resultar em um acordo em torno de questões cruciais não só para os interesses iranianos e norte-americanos, mas também de toda a região do Oriente Médio. O tom agressivo adotado por Trump, somado às declarações recentes de sua porta-voz na Casa Branca e do secretário de Estado Marco Rubio, que reiteraram nesta semana que “a opção militar continua sobre a mesa”, lança sérias dúvidas sobre a real disposição de Washington em sustentar o caminho do diálogo.

A ameaça aberta feita por Trump reforça a percepção de que os Estados Unidos insistem em operar a política externa por meio de coerção, exercendo pressão máxima sobre adversários com ultimatos e com o constante recurso à possibilidade de guerra. A combinação entre negociações e chantagem militar torna o processo frágil e altamente vulnerável a rupturas.

O ultimato e as ameaças de Trump, apenas dois dias depois de seus enviados terem negociado com os emissários a troca de documentos que pudessem servir de minutas para um futuro acordo, praticamente anulam o entendimento, pois a diplomacia deixa de ser um caminho autônomo e passa a ser conduzida sob o peso da força. Esse padrão amplia o risco de que qualquer desacordo, mesmo pontual, seja usado como pretexto para justificar ações armadas.

A gravidade da situação é acentuada pelo fato de que, paralelamente ao endurecimento norte-americano, cresce a movimentação geopolítica envolvendo potências regionais e globais. Rússia e China vêm reafirmando a defesa da soberania iraniana e a necessidade de preservar a estabilidade internacional, posicionamento que amplia a resistência a qualquer tentativa de agressão militar e cristaliza a tensão entre gigantes rivais em um momento já marcado por múltiplas frentes de conflito no planeta.

É um aspecto notável que a crise também expôs fissuras dentro do próprio campo imperialista ocidental. Na quinta-feira (19), o Reino Unido decidiu barrar o uso de bases militares britânicas em eventual plano de ataque norte-americano contra o Irã, medida que afeta instalações estratégicas como Diego Garcia, no Oceano Índico, e Fairford, situada no próprio território britânico. A decisão amplia o desgaste político entre Trump e o primeiro-ministro Keir Starmer, evidenciando que nem mesmo aliados tradicionais estão dispostos a seguir automaticamente uma escalada militar conduzida por Washington.

As declarações e ações intimidatórias de Trump corroem o direito internacional e as instituições multilaterais. 

Contrariamente a toda a má vontade de setores pró imperialistas, o Irã se comporta pacientemente reiterando o compromisso com o uso pacífico da energia nuclear e com o Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares (TNP), sem deixar de se pronunciar de maneira enfática contra as posturas norte-americanas. 

O risco maior no momento é que o pequeno passo  diplomático dado em Genebra seja neutralizado pela retórica de guerra. O ultimato de Trump é um elemento desestabilizador, capaz de interromper negociações e alimentar o clima de confronto. Em vez de fortalecer canais multilaterais, o presidente dos Estados Unidos optou por verbalizar ameaças explícitas, um gesto que amplia a insegurança global e reforça o temor de que o mundo esteja diante de uma nova crise militar iminente.

Mesmo que as conversas sigam em andamento, o fato de ainda não haver data definida para a próxima rodada demonstra o grau de incerteza do processo.

Nesse cenário, o entendimento sobre “princípios-chave” citado nas negociações representa apenas uma janela frágil, ameaçada pelo próprio comportamento de Washington. A insistência em manter a opção militar como instrumento de pressão, somada às ameaças diretas feitas por Trump, aprofunda a tensão e eleva o risco de um conflito que poderia arrastar aliados, adversários e potências globais para uma escalada de consequências imprevisíveis

*José Reinaldo Carvalho é jornalista, editor do Resistência e Presidente do Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz (Cebrapaz).

Esse é um artigo de opinião e não necessariamente reflete a opinião do Cebrapaz