Por José Reinaldo Carvalho*
A sucessão de crises internacionais, a situação de turbulência que se prolonga, as guerras, golpes, intervenções e bloqueios perpetrados pelo imperialismo estadunidense e seus lacaios, os sionistas israelenses, revelam que o rumo da política mundial permanece aberto e imprevisível. Nunca foi tão atual a sentença de que “tudo que é sólido desmancha no ar”. Em meio a conflitos regionais, disputas estratégicas e tensões entre potências nucleares, cresce a percepção de que o sistema internacional atravessa uma fase de conflitos prolongados, em que a segurança coletiva é sujeita a riscos inéditos e até mesmo a sobrevivência da humanidade encontra-se ameaçada.

Este ambiente de incerteza tem alimentado interpretações divergentes sobre o equilíbrio de poder no mundo. Em muitos centros de análise ligados aos interesses dos EUA, com grande influência na mídia e na academia, e poder cooptação de forças consideradas “progressistas”, e “renovadoras do marxismo”, tornou-se comum a tese de que a multipolaridade teria fracassado antes mesmo de se consolidar. Segundo essa visão, a supremacia militar dos Estados Unidos, o vertiginoso aumento de seu orçamento de guerra, a continuidade de intervenções e ações militares agressivas e pressões políticas em diversas regiões, demonstraria que a ordem global permanece essencialmente unipolar.
Essa leitura sustenta que a ausência de confrontos militares diretos entre os Estados Unidos e outras grandes potências anti-hegemônicas rivais em determinados conflitos e crises, devido à sábia prudência com que estas últimas se conduzem, confirmaria a permanência de uma hegemonia incontestável dos Estados Unidos. A conclusão implícita seria a de que o mundo ainda vive sob uma estrutura de poder semelhante à que se consolidou após o fim da Guerra Fria.
A interpretação que identifica a realidade internacional como unipolar parte de um pressuposto simplificador: o de que o poder global pode ser medido exclusivamente pela capacidade militar norte-americana. De acordo com esse raciocínio, enquanto os Estados Unidos mantiverem a maior máquina militar do planeta, com bases espalhadas por diversos continentes e forte capacidade de intervenção, a situação internacional permaneceria sob sua hegemonia absoluta. Interessa politicamente aos Estados Unidos transmitir essa imagem de inexpugnabilidade. Ela é funcional à disseminação de um espírito de resignação e capitulação entre forças políticas e sociais cuja missão é a resistência e a luta anti-imperialista. Por isto mesmo, o chefe de turno do imperialismo estadunidense proclamou a capacidade de enfrentar todos os adversários “para sempre”, numa nova versão da “guerra infinita”, anunciada há um quarto de século por outro republicano, George W. Bush.
A dinâmica geopolítica, porém, revela um cenário mais complexo. O poder global não se expressa apenas por meios militares, mas também por fatores econômicos, tecnológicos, diplomáticos e institucionais.
Nesse contexto, a ascensão da China tornou-se um dos elementos mais marcantes das transformações em curso. Nas últimas décadas, o país registrou crescimento econômico acelerado, impetuoso desenvolvimento multidimensional, consolidando-se como uma das maiores economias do planeta e como potência central no comércio e nas cadeias produtivas globais. Paralelamente, ampliou sua presença diplomática e política em diversas regiões, fortalecendo sua assertividade e capacidade de influência no cenário internacional.
Ao mesmo tempo, a Rússia preserva um papel estratégico relevante, especialmente no campo militar e na configuração dos equilíbrios de segurança na Eurásia. Após o período de fragilidade que se seguiu ao colapso da União Soviética, o país recuperou parte significativa de sua capacidade de projeção internacional.
A transformação do cenário global também se manifesta no surgimento de instituições e blocos que operam fora da órbita tradicional das potências ocidentais. A ampliação do BRICS e a incorporação de novos membros representam um dos exemplos mais visíveis desse processo.
A reorganização do sistema internacional também evidencia o agravamento das contradições entre as potências tradicionais e os países do Sul Global.
Iniciativas como o Novo Banco de Desenvolvimento e o aumento das transações comerciais realizadas em moedas nacionais refletem tentativas de reduzir a dependência do dólar e das instituições financeiras internacionais tradicionalmente dominadas pelo imperialismo ocidental, como o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial.
Esses movimentos não eliminam imediatamente a influência dos Estados Unidos na economia mundial, mas indicam o surgimento gradual de centros alternativos de poder econômico e institucional. A multipolaridade, nesse sentido, não se apresenta apenas como uma proposta política ou uma expectativa futura, mas como um fenômeno que já se manifesta em diferentes dimensões.
Esses fatores indicam que o monopólio absoluto do poder global já não pertence a uma única potência. Em um sistema verdadeiramente unipolar, inexistiriam outros centros capazes de limitar ou equilibrar a hegemonia dominante, condição que já não corresponde ao cenário contemporâneo.
Multipolaridade não significa ausência de conflitos
A existência de vários polos de poder não implica automaticamente um sistema internacional mais pacífico ou estável. A história demonstra que estruturas multipolares frequentemente convivem com intensas disputas estratégicas.
O século XIX europeu, por exemplo, foi marcado por um sistema multipolar envolvendo diversos impérios e grandes potências. Ainda assim, esse período culminou em conflitos de grande escala que redefiniram o equilíbrio global.
A redistribuição de poder entre Estados raramente ocorre de forma tranquila. Em muitos casos, a transição entre ordens internacionais produz tensões prolongadas, rivalidades econômicas e disputas geopolíticas.
Um mundo em transformação
A convergência desses fatores aponta para um processo de reconfiguração do poder global, o que não significa que a mudança esteja consolidada nem que seja abrupto o aparecimento das instituições que vão conformar a nova governança global. Somente na mitologia Atena nasce pronta, formosa e armada da cabeça de Zeus.
A multipolaridade, portanto, não representa um cenário de estabilidade automática nem um sistema plenamente consolidado.
Assim, a atual ofensiva bélica dos EUA, principalmente a guerra contra o Irã, dificilmente tornaria os Estados Unidos uma superpotência mais forte ou capaz de reverter a atual dinâmica de multipolaridade global, porque conflitos prolongados no Oriente Médio tendem a gerar custos econômicos, militares e políticos elevados, além de ampliar a resistência internacional à hegemonia norte-americana. A guerra em curso poderá desestabilizar mercados de energia, desgastar alianças e incentivar a aproximação estratégica ainda maior entre potências como China e Rússia, que já são os pilares da multipolaridade. Em vez de restaurar um momento unipolar, a guerra pode até mesmo acelerar a fragmentação do poder global, fortalecer blocos alternativos e ampliar o papel de organizações e parcerias regionais, consolidando justamente o cenário multipolar.
*José Reinaldo Carvalho é jornalista, editor do Resistência e Presidente do Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz (Cebrapaz).
Esse é um artigo de opinião e não necessariamente reflete a opinião do Cebrapaz