ARTIGO | José Reinaldo – Sionistas ameaçam cometer genocídio contra o povo libanês

Por José Reinaldo Carvalho*

O Estado sionista de Israel, agressor histórico e inimigo dos povos do Oriente Médio, retomou a partir de 28 de fevereiro duas frentes de guerra com o objetivo estratégico de alterar, a seu favor, o equilíbrio geopolítico regional. No Irã, em coordenação direta com os Estados Unidos, o regime israelense, um pária global, multiplica crimes de lesa-humanidade e violações do direito internacional, a começar pelo assassinato do principal líder político e religioso do país. Com essa escalada, o regime sionista busca enfraquecer e, em última instância, liquidar o único Estado da região que dispõe de capacidade política, militar e estratégica para resistir e enfrentar os planos dos EUA e Israel no Oriente Médio.

No Líbano, que é o foco deste artigo, Israel iniciou há dez dias um novo ciclo de bombardeios e operações terrestres. A ofensiva ocorre após cerca de 15 mil violações do cessar-fogo firmado em 27 de novembro de 2024, segundo dados da Força Interina das Nações Unidas no Líbano (UNIFIL). Em apenas dez dias de ataques, a nova escalada agressiva israelense provocou o deslocamento forçado de mais de 800 mil pessoas e marcou o início de uma nova etapa de ocupação territorial. Sob o pretexto de criar uma “zona tampão”, Israel busca estabelecer controle militar sobre uma faixa de pelo menos 30 quilômetros, desde a fronteira com o sul do Lìbano até o rio Litani, aprofundando a crise humanitária e a instabilidade regional.

As operações militares israelenses, concentradas sobretudo no sul do país, no vale do Bekaa e nos subúrbios de Beirute, fazem com que o território libanês volte a se transformar em campo de guerra. Cresce o temor de que a escalada leve a um confronto prolongado e a novas alterações de fato no controle territorial da região. A nova fase da ocupação israelense no Líbano, se concretizada nos termos pretendidos pelo Estado sionista agressor, tende a provocar uma resistência encarniçada e uma guerra popular prolongada. A experiência histórica já demonstrou que o empreendimento sionista está fadado ao fracasso, por maiores e mais hediondos que sejam os crimes cometidos.

Pessoas evacuam feridos após uma enorme explosão em Beirute, Líbano, na terça-feira. Hassan Ammar / AP

Esse cenário ajuda a explicar por que integrantes do governo israelense fazem ameaças abertas de destruição massiva. “Partes do Líbano vão ficar como Gaza”, afirmou nesta quarta-feira (11), o ministro da extrema-direita sionista Bezalel Smotrich.

Os bombardeios atingiram áreas urbanas e regiões densamente povoadas, ampliando o número de mortos e feridos. Milhares de famílias abandonaram suas casas para fugir das zonas de combate, em mais um deslocamento em massa que agrava a já profunda crise humanitária no país. Em meio à destruição, o sistema de saúde e os serviços básicos enfrentam enorme pressão para atender vítimas e desabrigados.

Além do impacto humano imediato e devastador da nova guerra israelense contra o Líbano, cresce a preocupação com os objetivos estratégicos da ofensiva. A proposta defendida pelo governo israelense de ocupar o sul do Líbano, sob o argumento de afastar as forças da resistência da fronteira, recebe fortes críticas entre forças patrióticas libanesas e em diversos setores do mundo árabe. A medida abriria caminho para uma presença militar prolongada ou até para uma ocupação de fato de partes do território libanês.
O sul do Líbano já foi palco de ocupação israelense durante quase duas décadas, encerrada apenas em 2000 após a heroica luta popular. Desde então, a região permanece altamente militarizada e sujeita a confrontos periódicos. Qualquer tentativa de recriar uma faixa de controle militar reacende temores de que o ciclo de ocupação e resistência volte a se repetir.

A escalada também amplia o risco de uma guerra regional de maiores proporções. O Hezbollah mantém significativa capacidade militar e amplo respaldo popular e já respondeu a ofensivas israelenses com ataques de foguetes e drones contra o norte de Israel. Em um cenário de confrontos intensificados, o envolvimento de outros atores regionais torna-se uma possibilidade concreta, o que poderia transformar os atuais combates em um conflito muito mais amplo.

A nova guerra israelense contra o Líbano também se conecta com interesses estratégicos historicamente perseguidos pelos Estados Unidos na região. Em 2006, no auge dos bombardeios devastadores perpetrados contra o Líbano pelas forças armadas israelenses, diante do clamor internacional para que o Conselho de Segurança da ONU aprovasse uma resolução determinando o fim do massacre, a então secretária de Estado do governo de George W. Bush associou a continuidade da ofensiva à construção de um “novo Oriente Médio”.

O episódio ocorreu em julho de 2006. Naquele momento, enquanto cresciam as pressões internacionais por um cessar-fogo imediato, o governo dos Estados Unidos, então presidido por George W. Bush, recusava-se a apoiar a interrupção dos bombardeios israelenses.

Em 21 de julho, a então secretária de Estado dos Estados Unidos, Condoleezza Rice, declarou em Washington que a destruição provocada pela guerra fazia parte das “dores do parto de um novo Oriente Médio”.

A frase foi pronunciada durante uma coletiva de imprensa antes de sua viagem ao Oriente Médio. Na ocasião, Rice afirmou: “O que estamos vendo aqui, em certo sentido, são as dores do parto de um novo Oriente Médio, e precisamos ter certeza de que estamos avançando para esse novo Oriente Médio e não voltando ao antigo.”

A declaração ocorreu quando os bombardeios israelenses já haviam devastado parte significativa da infraestrutura libanesa e causado um grande número de vítimas civis. Mesmo diante da pressão internacional por um cessar-fogo imediato, Washington sustentava que interromper os ataques naquele momento significaria retornar ao “status quo” anterior, no qual o Hezbollah mantinha presença militar no sul do Líbano.

A formulação de Rice simbolizou a postura do imperialismo estadunidense de apoiar a continuidade da ofensiva israelense como parte de um projeto estratégico de reorganização do Oriente Médio, frequentemente descrito naquele período como a construção de um “novo Oriente Médio”.

O conflito terminou semanas depois, com o cessar-fogo de 14 de agosto de 2006, após 34 dias de combates, resultando na derrota de Israel e na vitória do Hezbollah.

Passadas duas décadas, o interesse estratégico do imperialismo norte-americano, embora formulado hoje em outros termos, permanece o de dominar a região como parte de seus planos para recuperar a hegemonia global.

Nesse contexto, combater a guerra israelense contra o Líbano torna-se um dever das forças progressistas e dos defensores da paz no mundo, por razões humanitárias e solidariedade a um povo martirizado. Essa posição também se articula com a postura anti-imperialista dessas forças políticas, que lutam por um novo equilíbrio internacional e por uma nova governança global baseada na libertação nacional e social dos povos e na superação da dominação imposta às nações oprimidas.

*José Reinaldo Carvalho é jornalista, editor do Resistência e Presidente do Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz (Cebrapaz).

Esse é um artigo de opinião e não necessariamente reflete a opinião do Cebrapaz