Por José Reinaldo Carvalho*
No atual cenário de turbulências, incertezas, conflitos e transformações profundas pelas quais passa o mundo, o anti-imperialismo constitui o eixo central da resistência global. Trata-se do elemento estruturante das lutas políticas contemporâneas contra o principal agente de instabilidade, intervenção e genocídio no sistema internacional: o império estadunidense.
Esse imperialismo se expressa por meio de sanções econômicas, bloqueios comerciais e financeiros, ingerências políticas, golpes de Estado, sequestros de presidentes e magnicídios, guerras híbridas, intervenções diretas e conflitos armados. Configura-se, assim, uma estratégia multidimensional voltada ao restabelecimento da hegemonia unipolar e à imposição dos interesses dos Estados Unidos no cenário internacional.
Essa lógica dominadora foi explicitada na Estratégia de Segurança Nacional lançada por Donald Trump em novembro do ano passado, que reafirma planos de domínio global. O documento atualiza a doutrina Monroe para a América Latina e tem como corolário a guerra contra a multipolaridade, ao tratar o fortalecimento da China e da Rússia, bem como o protagonismo do Sul Global, como ameaças existenciais a serem contidas a qualquer custo.
Anti-imperialismo como base das lutas globais
Nenhuma luta política ou social de alcance global, incluindo o antifascismo, pode alcançar resultados efetivos sem estar articulada ao enfrentamento do imperialismo. A separação entre essas agendas constitui um erro estratégico, pois enfraquece o campo progressista e favorece a manutenção do domínio imperialista.
mundo contemporâneo, o antifascismo só se sustenta plenamente quando vinculado à luta contra o imperialismo, já que ambos se interligam na execução de políticas de opressão sobre trabalhadores e povos. Desvincular essas dimensões significa, na prática, contribuir para a continuidade dos mecanismos que alimentam tanto o fascismo quanto a hegemonia imperialista.
Unidade política como tarefa histórica
Diante desse quadro, a construção de uma frente ampla que reúna forças anti-imperialistas, antifascistas e comprometidas com a soberania nacional e o progresso social torna-se uma necessidade urgente. Essa unidade é fundamental para enfrentar os desafios impostos pela atual configuração geopolítica e para fortalecer alternativas.
A fragmentação das lutas por causas justas, especialmente quando pautas legítimas de direitos humanos e avanços sociais são tratadas de forma isolada, compromete sua eficácia e enfraquece o movimento anti-imperialista. A defesa dessas causas, portanto, deve estar inserida em uma estratégia mais ampla e articulada.
Organizações e governos na resistência
É relevante o papel de organizações e governos que, embora frequentemente criticados por setores do pensamento liberal e por correntes oportunistas da esquerda, integram objetivamente o campo anti-imperialista. É o caso dos movimentos do Eixo da Resistência no Oriente Médio, que se contrapõem aos planos expansionistas e às ações agressivas do imperialismo estadunidense e do sionismo.
Da mesma forma, governos frequentemente classificados como autoritários, como os da Rússia e do Irã, contribuem para a contenção do imperialismo e para o equilíbrio de forças no sistema internacional, especialmente no enfrentamento a intervenções externas e na defesa da soberania nacional.
Contudo, há correntes políticas que se apresentam como internacionalistas mas defendem a derrocada de Vladimir Putin e a fragmentação da Rússia. Em meio à agressão imperialista-sionista, essas mesmas correntes levantam a bandeira da derrubada do “regime teocrático” iraniano.
A América Latina no centro das disputas
A América Latina ocupa posição estratégica nesse cenário. A região tem sido alvo de crescente pressão, com episódios de interferência política, ameaças à soberania e intensificação da presença militar. Esse movimento integra uma estratégia mais ampla de controle geopolítico, especialmente diante do avanço de iniciativas regionais e da aproximação com blocos alternativos.
Multipolaridade e resistência
A emergência de uma ordem multipolar resulta não apenas da ação de Estados nacionais, mas também das lutas populares por desenvolvimento, autodeterminação e progresso social. Esse processo desafia a estrutura tradicional de poder e abre caminho para novas formas de organização internacional.
Nesse contexto, a luta anti-imperialista é fundamental para que a multipolaridade se traduza em avanços concretos para os povos. A articulação entre diferentes frentes de combate em defesa de causas justas torna-se condição indispensável para enfrentar os desafios da luta pela libertação nacional e social.
*José Reinaldo Carvalho é jornalista, editor do Resistência e Presidente do Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz (Cebrapaz).
Esse é um artigo de opinião e não necessariamente reflete a opinião do Cebrapaz
