O movimento antifascista mobiliza amplas forças globais, mas perde coerência ao secundarizar a luta contra o principal inimigo dos povos, o imperialismo estadunidense.
Por José Reinaldo Carvalho*
A realização de uma conferência internacional antifascista no Brasil, construída por ativistas de dezenas de países, representa um importante esforço de articulação global internacional em defesa da democracia, dos direitos sociais e da resistência ao avanço da extrema direita. O encontro – que não foi o primeiro nem o único, porquanto existe uma Internacional Antifascista ativa, criada em 2024 na Venezuela Bolivariana – reuniu organizações políticas, movimentos sociais e redes de solidariedade que, em um cenário global adverso, marcado pelo recrudescimento do imperialismo estadunidense em sua sanha agressiva e belicista contra os povos, reafirmam o compromisso com a luta ldemocrática, nacional e popular.
Valorizamos a presença ativa de militantes brasileiros e de representantes de vários continentes, bem como o papel desempenhado por organizações populares e movimentos de solidariedade internacional. Em um contexto de ofensiva imperialista e fascista, a capacidade de reunir forças distintas em torno de uma agenda comum constitui, por si só, um avanço político.
Outro aspecto que merece menção positiva é o esforço de construção de unidade entre organizações com diferenças políticas e ideológicas profundas. A tentativa de convergência na ação concreta, é um sinal de maturidade política. Em tempos de fragmentação, iniciativas que buscam pontos de unidade na ação contribuem para o incremento da resistência democrática e anti-imperialista.
Não obstante, o documento aprovado abre lacunas, exibe insuficiências e incorre em erros, que apontamos aqui também com espírito unitário e fraterno, com vistas a contribuir com observações construtivas que podem eventualmente ser úteis em futuros eventos. Omitir a crítica seria coonestar uma abordagem inconsequente da realidade internacional. E faltar com a verdade.
Um dos pontos mais sensíveis diz respeito à relação entre a luta antifascista e a luta anti-imperialista. Separar essas duas dimensões é um equívoco estratégico que historicamente conduziu à derrota de movimentos populares. As referências ao imperialismo feitas no documento final da conferência são genéricas, superficiais e periféricas. As críticas ao imperialismo aparecem no texto como um apêndice da crítica ao fascismo e aos efeitos do exercício do poder pela extrema direita. O fascismo, em suas diferentes expressões, é, em grande medida, uma ferramenta do imperialismo em momentos de crise do capitalismo. Desvincular o combate ao fascismo da luta contra o imperialismo significa, na prática, atacar os efeitos sem enfrentar a causa estrutural. Essa dissociação pode levar a um desvio de rota, enfraquecendo a capacidade de resistência dos povos e abrindo espaço para derrotas políticas de longo alcance.
Nesse sentido, é fundamental afirmar com clareza que o imperialismo, designadamente o estadunidense, permanece como o principal inimigo dos povos do mundo. Não se trata apenas de uma questão conjuntural ou vinculada a governos circunstanciais, como o de Donald Trump, nem tampouco de uma fase mais ou menos agressiva. Trata-se de um sistema de dominação que opera há décadas por meio de sanções econômicas, desestabilização política, bloqueios, e controle financeiro internacional, saque de riquezas nacionais, militarização e guerras.
A Carta de Porto Alegre, ao afirmar que “lutamos contra todos os imperialismos”, assim considerados de modo inespecífico, sem mencionar quais são as potências imperialistas, incorre em erro. Ao diluir o imperialismo em uma categoria genérica e plural, perde-se a capacidade de identificar que potência imperialista ocupa o vértice do sistema de poder gerador de agressões aos povos. Essa generalização não apenas enfraquece a denúncia concreta do imperialismo estadunidense, como abre margem para uma crítica indistinta que, na prática, coloca no mesmo plano forças com naturezas antagônicas. É um recurso retórico que na prática visa a atingir países e sistemas de governo que objetivamente são anti-hegemônicos e anti-imperialistas.
Essa ambiguidade, ainda que envolta em linguagem alusiva, tende a produzir confusão política e a enfraquecer a clareza estratégica necessária em momentos de confronto global.
A confusão suscitada por formulações deste tipo se expressa na omissão quase total à principal guerra imperialista das últimas décadas levada adiante contra o Irã pelo imperialismo estadunidense, com seu principal cúmplice, o regime sionista israelense. A solidariedade ao povo e à liderança do Irã, que conduz uma resistência heroica contra esses inimigos dos povos, é uma das principais tarefas dos movimentos antifascistas e anti-imperialistas.
Omite-se ainda – e aqui a omissão é total – que na Ucrânia leva-se a efeito uma ação militar de caráter antifascista contra o regime pró-imperialista de Zelensky, com finalidades libertadoras das populações outrora oprimidas e massacradas de Donetsk e Lugansk.
A construção de uma frente ampla antifascista é necessária e urgente e só será eficaz se estiver ancorada em uma compreensão clara das forças que sustentam o avanço da extrema direita em escala global. Isto implica afirmar que o imperialismo estadunidense está no topo de toda a dominação política e militar contemporânea.
O aprofundamento desse processo exige lucidez e firmeza política. A unidade é um valor fundamental, que não pode ser construído à custa da clareza estratégica.
Somente com uma compreensão nítida do inimigo principal será possível transformar a resistência em vitória.
*José Reinaldo Carvalho é jornalista, editor do Resistência e Presidente do Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz (Cebrapaz).
Esse é um artigo de opinião e não necessariamente reflete a opinião do Cebrapaz
