Por César Xavier, no Portal Vermelho
A ex-presidenta do Conselho Mundial da Paz e dirigente do Cebrapaz, Socorro Gomes, denunciou nesta quinta-feira (27), durante a 5ª mesa da I Conferência Internacional Antifascista pela Soberania dos Povos, em Porto Alegre, que “no DNA do imperialismo está o fascismo”. Em sua intervenção, a dirigente destacou que o momento atual é crucial, com o capitalismo entrando em crise e o imperialismo sofrendo derrotas, mas buscando postergar sua derrocada através de guerras e terror.
A quinta mesa reuniu lideranças de quatro continentes para debater “A Solidariedade entre os Povos e a Luta Anti-imperialista”. Mediada pela deputada federal Maria do Rosário (PT-RS), a mesa destacou que o antifascismo não pode ser dissociado do combate ao imperialismo e ao capitalismo, sob risco de se tornar uma luta incompleta.
Em sua abertura, Maria do Rosário enfatizou que “a solidariedade é sempre algo ativo, exige mais de nós do que palavras, sobretudo quando aqueles que são imperialistas agem produzindo a guerra”. A deputada conectou a luta antifascista à defesa de povos sob ataque: Palestina, Cuba, Irã, Venezuela e Saara Ocidental, reforçando que “os direitos humanos não podem ser seletivos”.
Para Socorro Gomes, o imperialismo impõe “terror inaudito” para saquear riquezas e dominar povos, citando o genocídio na Palestina como “simbiose entre imperialismo e sionismo”. “A saída é a luta dos povos, não tem outra”, afirmou, defendendo unidade férrea contra a ofensiva global.
A dirigente citou como exemplos o genocídio na Palestina, resultado da “simbiose entre imperialismo e sionismo”, e os ataques ao Irã, que remontam à década de 1950, quando o imperialismo depôs Mossadegh para assaltar o petróleo iraniano. “O povo iraniano reagiu e agora, nessa nova etapa, [o imperialismo] tenta destruir essa nação”, denunciou.
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Otan é máquina de guerra do imperialismo
Socorro Gomes destacou ainda o papel da Otan como braço armado do imperialismo. “A Otan cresce e cerca a Rússia com o objetivo de destruir, de desmontar a Rússia. E ali essa máquina de guerra ataca os povos”, afirmou. Segundo ela, mesmo após a queda da União Soviética e o desmonte do Pacto de Varsóvia, a aliança militar continuou se expandindo como instrumento de agressão.
A dirigente também criticou a nova doutrina Monroe adaptada por Trump, que coloca de forma clara que o objetivo é o continente latino-americano. “Nessa derrocada, [o imperialismo] busca o seu quintal. Então as ameaças aos povos do continente são graves e algumas já executadas”, alertou.
Ofensiva contra América Latina: Venezuela, Cuba e interferências eleitorais

Socorro Gomes denunciou especificamente os ataques à Venezuela, incluindo “o ato terrorista de bandidos contra a Venezuela, o assalto, o assassinato de centenas de pessoas e o sequestro do presidente eleito legitimamente, o presidente Maduro”.
Sobre Cuba, a dirigente classificou como “grotesco e cínico” o fato de Trump considerar a ilha uma “grande ameaça” e “ameaça inusual” aos Estados Unidos. “Cuba, uma ilha que tem uns 9 milhões de habitantes, pequena, que resiste a mais de 60 anos de bloqueio, de perversidade, de assassinato, de invasões várias vezes, tentativa de assassinar o presidente Fidel. Ele diz que Cuba é uma grande ameaça”, ironizou.
Saída é luta dos povos com solidariedade férrea
Diante desse cenário, a dirigente do Cebrapaz foi enfática: “A saída é a luta dos povos, não tem outra saída. E para isso é necessária uma solidariedade férrea também”. Segundo ela, em vários momentos os povos e as nações já derrotaram impérios através da solidariedade, da luta constante e da resistência anti-imperialista e antifascista.
“Cada povo escolhe o tipo de governo e o destino e o caminho que lhe convém. Nenhuma nação prepotente, intransigente, fascista, terrorista, imperialista tem o direito de impedir que os povos conquistem a sua liberdade e conquistem a paz e o progresso para todos”, afirmou.
Experiências de resistência: Cuba, Venezuela e Saara Ocidental
Fernando Rojas, da Casa das Américas de Cuba, alertou para a gravidade da crise na ilha, agravada pelo bloqueio estadunidense e pela falta de combustível. “A solidariedade com Cuba deve ser militante, não acrítica e não suavizada”, defendeu. Rojas destacou que a luta anti-imperialista exige articulação entre escalas nacional e internacional, com empoderamento popular como centro.
Blanca Eekhout, da Venezuela, falou via vídeo sobre o “sequestro” do presidente Nicolás Maduro e da deputada Cilia Flores pelo imperialismo. “Estamos diante de uma guerra não declarada contra toda a nossa América”, denunciou, reforçando que “não há possibilidade efetiva de luta antifascista sem a unidade dos povos”.
Ahmed Mulay, da Frente Polisário, relatou os 50 anos de resistência do povo saharaui contra a ocupação marroquina, apoiada por França e EUA. “Somos a última colônia da África”, afirmou, pedindo reconhecimento da República Saharaui e solidariedade concreta. “Outros povos como Argélia e Angola conseguiram independência com seu sangue; nós também lutaremos até a liberdade”.
Fascismo, capitalismo e multipolaridade: debates estratégicos
Sushovan Dhar, da Índia, alertou que “luta antifascista sem anti-imperialismo fica incompleta”, mas também que “anti-imperialismo sem anticapitalismo é quase impossível”. Criticou a ideia de que o Brics representaria uma alternativa progressista: “Estruturalmente, essas formas de multilateralismo não podem ser uma alternativa para os povos, apenas para as elites”.
Rafael Bernabe, de Porto Rico, defendeu que a luta anti-imperialista exige “frente única das classes trabalhadoras, com total independência da burguesia e de suas instituições”. Denunciou a relação colonial de 126 anos com os EUA e chamou à solidariedade com Cuba como “eixo central” da luta no Caribe.
Patrícia Pol, da França, trouxe a perspectiva europeia: “Venho de uma Europa campeã de políticas neoliberais, que financia economia de guerra e implanta políticas imigratórias racistas”. Defendeu que “não conseguimos forjar uma frente mundial anti-extrativista, feminista, anti-racista”, mas que a luta “alter-mundialista” segue viva e precisa de radicalidade.
Hossein Khaliloo, do Irã, destacou que o imperialismo atua também pela cultura e mídia: “Onde não conseguem entrar militarmente, entram através do cinema, da economia, para trocar o pensamento das novas gerações”. Citou os avanços do Irã em tecnologia e medicina apesar do bloqueio: “Um povo que acredita em sua soberania consegue avançar”.

Unidade na diversidade: conclusões e chamados à ação
Nos debates, Olívio Dutra reforçou que “a luta contra o imperialismo é também pela construção de um projeto para um mundo novo, que não cabe no capitalismo”. Pedro Cesar Batista, da Internacional Antifascista, convocou à unidade: “Derrotar o fascismo significa ter claro que ele é nosso inimigo comum; nós não somos inimigos entre nós”.
A mesa encerrou com consenso sobre a necessidade de articular lutas nacionais e internacionais, combinar denúncia e proposta, e construir solidariedade militante.
Em tempos de ofensiva global da extrema-direita, a conferência de Porto Alegre reafirma que a resistência dos povos segue sendo a principal arma contra a barbárie. A mensagem é clara: solidariedade não é gesto, é prática organizada; anti-imperialismo não é retórica, é projeto político. E a luta, como disse um painelista, não é por um mundo menos pior, mas por um mundo verdadeiramente justo, soberano e humano.