Especulação financeira é erro ou crime?

Diante da crise causada pela lógica da elite financeira – que queria que o Estado fosse mínimo e o Mercado livre e poderoso, – alguns dirigentes financeiros confessaram os seus "erros de gestão" e passaram a defender um Estado protector para o sistema capitalista sobreviver. Preferem dizer que foram incompetentes a admitir que o sistema é necessariamente injusto na distribuição da riqueza que retira aos trabalhadores para acumular nas mãos da elite. Certamente não foi por "erro" dentro da lógica capitalista, que os bancos e as grandes empresas embolsaram todos os anos milionários lucros que distribuíram entre os seus directores e amigos. Foi sim um "crime" – dentro da lógica da democracia, – crime este que gerou uma crise mundial que os trabalhadores vão suportar perdendo empregos e sofrendo com a redução das condições de vida.

A lógica do sistema é antagónica à da democracia, isto é, os interesses da elite rica e mandante é o contrário da democracia que assegura os direitos dos povos,

Visivelmente o sistema capitalista é contrário à democracia, a lógica da elite é criminosa para os trabalhadores. A sobrevivência do sistema servirá para manter a má distribuição da riqueza e, consequentemente, a exploração de uma maioria de pobres por uma minoria de ricos. De nada servirão as denúncias contra a especulação, a ganância, a corrupção, as fraudes e desvios de recursos públicos, assim como contra as redes criminosas internacionais que vendem drogas, armas, crianças, jovens para a prostituição, porque esses crimes são as ferramentas do sistema para fortalecer a estrutura de poder do capital. Os crimes contra a humanidade, a impunidade que anula a justiça, o atraso que impede o desenvolvimento nacional e condena grande parcela da população à miséria, são as consequências inevitáveis da má distribuição da riqueza e dos privilégios da elite. A crise financeira que agora se alastra pelo mundo revela isto.

O que há de positivo agora é a capacidade de governantes que decidem fortalecer o Estado para exercer uma acção controladora das medidas económicas e investir na produção para fomentar o desenvolvimento nacional e impedir a especulação financeira, não mais sob o comando do Mercado que impulsionou o consumismo de inutilidades dentro da lógica capitalista e distribuiu bónus aos grandes especuladores. Precisamos saber quem vai orientar o Estado: se a mesma elite democraticamente incompetente e especuladora ou a participação da cidadania.

Vivemos um momento histórico de esclarecimento sobre a consciência cidadã dos direitos humanos, e da eleição de governantes que rompem os preconceitos e a barreiras oligárquicas da elite. O mais importante é criar uma realidade coerente que não dificulte a participação democrática dos povos na tomada de decisões fundamentais sobre a vida nacional. O Estado, sendo a organização plena, não pode continuar a sofrer os velhos problemas de emperramento devido a questões menores, de apadrinhamento político ou incompetência burocrática, nem pode ser orientado para proteger os mais carentes dando esmolas. Ao contrário, terá de condenar os criminosos e impedir a especulação e os abusos de poder, da ganância, dos privilégios de uma elite, para poder garantir o respeito pelos direitos de todos, ou seja, a verdadeira democracia.

São conceitos próprios de uma ideologia socialista, certamente, pois o capitalismo não convive com a democracia. A crise actual demonstrou cruamente esta verdade desvendando a existência de uma minoria de bilionários mandantes, que controlam o sistema capitalista, face a biliões de cidadãos morrendo à fome em todo o mundo. Os países mais ricos hoje, no Encontro do G20 em Londres, constatam a necessidade de controlarem o mercado que sempre quiseram livre. Importa saber quem exercerá o controle, Se não houver a participação popular, com a consciência de cidadãos que agora emerge, os mesmos "erros" de gestão vão se repetir com todas as consequências criminosas que já o mundo conhece.

—————————————-
*Formada em Ciências Sociais pela USP, tem experiência de vida e trabalho no Chile, Portugal e Cabo Verde. É membro do Conselho Consultivo do Cebrapaz.

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s