Assembleia do Cebrapaz: ‘Não aceitamos mais golpe na América Latina’

Realizado no dia em que o presidente deposto de Honduras, Manuel Zelaya, voltou  – ainda que rapidamente –  ao seu país, o ato de abertura da 2ª Assembleia Nacional do Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz (Cebrapaz) transformou-se também em uma manifestação contra o golpe. “Defender a resistência em Honduras é defender a democracia em toda a América Latina, é combater o imperialismo. Não aceitamos mais golpe”, disse a presidente da entidade, Socorro Gomes, que cobrou uma postura mais dura dos Estados Unidos em relação à ditadura.

De acordo com ela, que também preside o Conselho Mundial da Paz (CPM), as digitais dos Estados Unidos estão, sim, no golpe de Honduras. “Apesar de (Barack) Obama, ali têm remanescentes dos falcões, da era Bush. Oxalá o presidente norte-americano tenha uma posição mais firme contra a ditadura, por que ela é um retrocesso”, disse Socorro, durante o ato realizado na noite desta sexta-feira (24).

Com a participação de delegações de mais de dez países e de todas as partes do Brasil, a assembleia segue até este domingo (26), com discussões em torno do tema ''Paz, solidariedade e soberania nacional''. No ato, Socorro defendeu que é preciso fortalecer o movimento de resistência ao golpe, como parte da luta pela paz e contra o imperialismo.

Segundo ela, na última década, em especial depois do ataque às torres gêmeas, o imperialismo norte-americano ficou mais agressivo. Paralelamente, diversos povos se insurgiram contra as políticas estadunidenses e neoliberais, em especial na América Latina. E com isso, veio a reação aos avanços progressistas.

“Um exemplo disso é Honduras. É preciso um grande movimento de resistência, que divulgue a cultura da paz, da luta antiimperialista, contra a guerra e pela soberania. Cada governo responde a seu próprio povo”, colocou, afirmando que o Cebrapaz acredita no desafio de reunir um militância organizada que coloque no centro de sua luta a busca pela paz. “E paz é sinônimo de justiça, liberdade, soberania, autodeterminação”, encerrou.

Um contexto diferente

Em rápidos discursos, representantes de diversas entidades e delegações estrangeiras repudiaram o golpe e elogiaram a resistência dos povos também em situações como as do Iraque, de Cuba e da Palestina. Também chamaram a atenção para o atual contexto, de crise do capitalismo e ascensão de governos populares na região.

A integrante da embaixada de Cuba no Brasil, Maria Antônia Ramos, ressaltou que, pela sua importância, o momento em que ocorre a assembleia do Cebrepaz impõe desafios. Segundo ela, a crise do capitalismo e a recusa do povo ao modelo neoliberal, com a eleição de governos populares e nacionalistas, eram inimagináveis até pouco tempo.

“Nunca antes pensamos que, em pleno século XXI, um golpe militar voltaria a tomar as páginas da história de nossa região. Nunca também havíamos pensado que a voz de todos os mecanismos internacionais de consertação política seriam unânimes no rechaço a esse golpe”, colocou. Ela  ainda enumerou como antes impensáveis a união regional na resistência em Honduras e o fato de que, após 50 anos, a Revolução Cubana permanecesse como “uma página de heroísmo” contra o bloqueio.

A presidente do PCdoB do Rio de Janeiro, Ana Rocha, destacou  que o momento de crise pode levar a uma nova correlação de forças, colocando na ordem do dia a luta pela soberania, a integração regional e o antiimperialismo. Para ela, o quadro também chama à responsabilidade  aqueles que têm compromisso com a luta social  e aponta para a necessidade de unir as forças progressistas.

Já o senador Inácio Arruda elogiou os países presentes no evento, tais como Cuba e Coreia do Norte, que ''têm sido pressionados a deixar de lado suas convicções políticas e conquistas sociais'', mas mesmo assim resistem.

Contra a ditadura midiática

Depois de o embaixador da Coreia ter criticado a manipulação que a imprensa imperialista faz dos fatos no seu país, foi a vez do  novo presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), Augusto Chagas, apontar as agências internacionais de notícia como “o principal instrumento de dominação do império, mecanismos para enganar a maioria da população do mundo e legitimar as guerras imperialistas”.

A sua intervenção ocorreu uma semana após a realização do Congresso da UNE, no qual a entidade passou a ser vítima de ataques da mídia brasileira, que montou uma verdadeira campanha para desqualificar a entidade.

“A imprensa brasileira também é legítima representante do império. Tenta atacar a UNE e deslegitimar sua opinião”, colocou, defendendo que a luta contra o imperialismo é também contra a ditadura midiática.

Participaram ainda da mesa de abertura da assembleia, o secretário-geral do CMP, Athanasios Pafilis; o representante do governo da Síria, Maruan Mansur; o representante da embaixada da Palestina, Hassan Gamal; o embaixador do Vietnã, Nguyen Thac Dinb; o embaixador da Coreia, Pak Hyok; a integrante do Condepaz, Zuleide Faria de Melo; o subsecretário municipal de Cultura do Rio, Mario Del Rei; o presidente da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB) do Rio, Maurício Ramos; o represantante da OAB, Carlos Henrique Carvalho; e a viúva de Luís Carlos Prestes, Maria Prestes, que foi aplaudida de pé pela platéia.

Represenantes do México, da Bolívia, Paraguai, Uruguai, Argentina, Nepal, Guiana Francesa, Estados Unidos e Grécia também estão presentes na atividade, que acontece no Rio de Janeiro.

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Do Rio de Janeiro,
Joana Rozowykwiat

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