Carta pela Paz

Em carta endereçada à Unasul e à Alba, divulgada pela agência de notícias Nova Colômbia (Ancol), as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) pedem que os dois organismos incluam em suas agendas de trabalho a solução política do conflito colombiano como preocupação permanente dos Estados latino-americanos.

Carta Aberta das FARC à Unasul e aos países daALBA

Como organização política – militar amparada pelo Direito Universal quelegitima a rebelião armada contra regimes opressores e tirânicos, nos dirigimosà União de Nações Suramericanas, UNASUL, e à Aliança Bolivariana para os Povosde Nossa América, ALBA, com a esperança de participar-lhes nossos pontos devista em torno à tensão gerada pela instalação de bases militaresestadunidenses em território colombiano.

Colômbia padece o mais cruento e prolongado conflito interno da historia deNossa América, mas por razoes de uma perversa estratégia, o Presidente Uribenega sua existência. O governo de Colômbia é o primeiro receptor de ajudamilitar norteamericana no Hemisfério. Tem o exército mais numeroso de AméricaLatina (500.000 homens) O 6.5% do PIB é para a guerra. Oficiais do Comando Suldo exército dos Estados Unidos conduzem no terreno as operações do PlanoPatriota contra a Insurgência e o povo. Mais de US$ 10 bilhões tem investido aCasa Branca na execução do Plano Colômbia. Nessas circunstancias resultaabsolutamente sofismático e contraditório aferrar-se à absurda subjetividade dainexistência do conflito. A origem das operações sujas de Uribe contra ospaíses vizinhos é que seus presidentes têm-se negado a se envolver no conflitointerno de Colômbia. Por isso introduz elementos que ameaçam a estabilidade daregião como a peregrina tese da extraterritorialidade da política de segurançademocrática, que é a nova denominação que Washington tem conferido a sua velhae nefasta Doutrina de Segurança Nacional.

Os sete punhais clavados no coração aos quais alude o Comandante Fidel Castro,podem ser mais, se temos em conta que a base aérea de Três Esquinas (Sul deColômbia) é, desde há algum tempo, outra base militar ianque encoberta, sediadanada menos que onde se inicia a Amazônia. A tecnologia militar de ponta do"monstro do norte" não somente alinha suas miras contra a inconformidadepopular e a insurgência bolivariana; apontam também, com desejo irrefreável deespólio, à faixa petroleira do Orinoco, à biodiversidade da Amazônia e aoaqüífero Guarani. Mas, em geral, suas miras estão enfocadas ao predomíniohemisférico do que considera com desprezo seu pátio traseiro.

Sem dúvida Uribe já está sentenciado e condenado pelos povos e pela historiapor alta traição à pátria latinoamericana. Na historia futura ficará inscritoseu nome como um triste peão do colonizador. A instalação de bases militaresmóveis dos Estados Unidos no norte de Suramérica constitui a mais séria ameaçapara a paz e a unidade do Continente, mas, é ao mesmo tempo, o reconhecimentoda derrota do Plano Colômbia, premonição do epílogo futuro de seu novo empenhoguerrerista contra Nossa América.

O pré-fixo "narco" endilgado à guerrilha e agora a alguns Estados é um pretextopara a agressão, como foi no passado o comunismo. Têm revivido a McCarthy parademonizar as opções da sociedade, sempre presentes no anseio coletivo dos povose, com o mesmo propósito utilizam o adjetivo "terrorista". As FARC não sãoterroristas, mas revolucionarias. Em Colômbia, o chamado "terrorismo" tem umahistoria recente e curiosa, até. Durante quase 40 anos, as FARC e o ELN foramconsiderados como guerrilhas "comunistas" e "castristas", respectivamente. Éevidente que esses qualificativos constituíam um reconhecimento real do caráterpolítico de nossos movimentos porque estabelecemos conversações e diálogos comdiversos governos.

Mas, chego o trágico 11 de setembro e, de repente, as guerrilhas colombianassofreram uma kafkiana metamorfose. Da noite para o dia deixamos de ser"comunistas" e "castristas" e nos transformaram em "terroristas".

Todos sabemos que o chamado "terrorismo" é uma arma política da ultra direita,uma categoria por fora do Direito Penal e um elemento essencial da ideologia doImperialismo. O chamado "terrorismo" é uma noção política e ideológicaintroduzida pelo governo de Bush que serve para vilipendiar e para satanizaraqueles que não se submetem à política imperial, àquela de seus caines, ou deseus testa ferros. É por isso que só são qualificados de "terroristas" os quelutam contra o poder, mas jamais o serão aqueles que estão no poder.

Com essa lógica, todo movimento ou país que se oponha à dominação do Império éou será qualificado mais adiante de "terrorista".

As FARC apóiam totalmente as Bases de Paz que o governo de Venezuela temconformado em seu território para opor-las às bases da agressão ianque em Colômbia. Gostaríamosde ver surgir essas Bases de Paz em todos os pontos cardinais do Hemisfériocomo símbolo de resistência e dignidade dos povos. Que inútil é a guerra deObama e a de seu lacaio Uribe contra Nossa América, a de Bolívar, e nossosheróis nacionais, que a 200 anos do grito de Independência regressam com umexercito de povos a materializar seus sonhos. Necessitamos a paz de Colômbiaporque é também a paz da região. Que ninguém aceite os pretextos inventadospelos guerreristas. A suposta intromissão de Venezuela e Equador nos assuntosinternos de Colômbia, que tanto propalam suas campanhas midiáticas, são umadensa cortinha de fumaça para tampar a verdadeira e escancarada intromissão dosEstados Unidos, Inglaterra, Israel e Espanha no conflito colombiano.

Nosso objetivo estratégico fundamental é a paz. Assumimo-lo com as mesmaspalavras do Libertador Simón Bolívar: "a insurreição se anuncia com o espíritode paz. Se resiste ao despotismo porque esse destrói a paz, e não toma as armasmas para obrigar seus inimigos à paz".

Pedimos a UNASUL e aos países da ALBA incluir em sua agenda de trabalho asolução política do conflito colombiano como preocupação permanente dos EstadosLatinoamericanos. Com Uribe imbuído no frenesi da guerra e encorajado com asbases norteamericanas, não haverá paz em Colômbia nem estabilidade na região.Caso não seja freado o guerrerismo -agora potenciado- se incrementará emproporção dantesca o drama humanitário de Colômbia. É hora de que Nossa Américae o mundo voltem seus olhos para nosso país violentado desde o poder. Não sepode condenar eternamente a Colômbia a ser país dos "falsos positivos", doassassinato de milhares de civis não combatentes pela Força Pública, das covascomuns, do despojo das terras, do deslocamento forçado de milhões decamponeses, das detenções massivas de cidadãos, da tirania e da impunidade dosvictimarios amparados no Estado.

As FARC são de fato, Força Beligerante. Solicitamos a UNASUL e à ALBA outorgaràs FARC dito status como decisão encaminhada a facilitar a paz de Colômbia.Seria o inicio da marcha rumo à paz. O acordo de troca de prisioneiros deguerra em poder das duas partes enfrentadas é uma boa forma de pôr em marcha oprocesso. Tempos atrás liberamos, sem obter nenhuma reciprocidade do Estado, amais de 300 prisioneiros capturados em combate. Desde há 4meses oferecemos liberar unilateralmente dos militares prisioneiros de guerra,mas o governo não oferece as garantias para que a entrega seja possível.Estamos dispostos a retomar a Agenda de Paz de San Vicente del Caguán, adiscutir com os porta-vozes do Estado o câmbio das injustas estruturaspolíticas, econômicas e sociais e o fim dos privilégios. Estamos prontos paraassumir a discussão em torno à organização do Estado e da economia, e sobre oslineamentos que devem guiar o novo exército que haverá de surgir dos futurosacordos de paz.

Queremos reiterar antigas propostas das FARC para cortar-lhe as assas aonarcotráfico no mundo a aos pretextos dos impérios agressores:

1. Considerar em uma grande Assembléia de Nações a legalização do consumo dasdrogas, como no passado foi feito com o tabaco e o álcool. Nada será feito se ogoverno dos Estados Unidos não combate as poderosas máfias norteamericanas dadistribuição e se não toma medidas encaminhadas a conter o grande fluxo deprecursores químicos que saem de suas indústrias. Simultaneamente com essadeterminação se deve realizar uma totalizadora campanha de educação à juventudecontra o dano espiritual e social que causa o consumo da droga.

2. Sobre o pressuposto de que a narco-produção nos países pobres é um problemasocial, não erradicável mediante a repressão, retomamos a proposta doComandante Manuel Marulanda Vélez apresentada na Audiência Pública Internacionalsobre cultivos ilícitos e meio ambiente, realizada em San Vicente delCaguán: Desenvolver um plano de substituição dos mencionados cultivos, poroutros de consumo alimentário, que sendo similarmente rentáveis, resultematraentes para os camponeses pobres. Mas, é necessário acompanhar o esforço comum plano de desenvolvimento financeiro pelo Estado e a ComunidadeInternacional, que leve educação, saúde, estradas, serviços públicos,possibilidades de mercado dos novos produtos, para os moradores dessas regiõesremotas e esquecidas. Nem Colômbia, nem Estados Unidos têm interesse nissoporque o único que lhes importa é manter vivo o pretexto para a intervenção. Sea preocupação de Washington pelo narcotráfico fosse sincera, já haveria caído ogoverno de Uribe, vinculado desde tempos atrás às investigações pornarcotráfico nos Estados Unidos e com o 30 por cento de congressistas de seupartido no cárcere por nexos com o narco-paramilitarismo. O Departamento deEstado sabe que Jorge Noguera, sendo diretor do DAS (Segurança do Estado),pessoalmente realizou contatos e abriu as rotas para o narcotráfico desdeColômbia a Centroamerica, passando por México e de aí aos estados Unidos, e,que o mesmo DAS se encarregou do ingresso dos dólares desde esse país ao aeroportoEl Dorado de Bogotá, coisa que gerou o forte aplauso dos mafiosos e dos caposnarco-paramilitares. Também, ativou uma rota desde Santa Marta a paísesafricanos, e desde aí para Europa. No mundo da máfia o DAS é conhecido como "Ocártel das três letras". Estados Unidos maneja o tema do narcotráfico parapressionar com chantagem governantes dóceis como Uribe e utiliza-los como piõesde seus projeções geopolíticas.

O ditador Uribe está atuando como o Caim de América. Aduze estar pedindo umacolaboração, mas uma coisa é a colaboração e outra o submissão, uma cosa é seraliado e outra, ser lacaio. A última reunião de UNASUL deixou explícita aenorme solidão e o rechaço que seu governo desperta nas demais nações irmãs,devido a sua condição de aliado incondicional dos Estados Unidos e seu deslealpapel em contra dos interesses que norteiam as esperanças de integração eunidade latinoamericana. Tomara que possamos com o concurso de todos impediresse novo ultraje à dignidade e o decoro de nossos povos, mas se apesar detudo, nos o impõem pela fora e se consuma a infâmia, lutaremos com dignidade ecom abnegação, até nossa última gota de sangue para expulsar o invasorestrangeiro de nosso solo pátrio. A Pátria é América, e em essa luta, nosencontraremos todos, na certeza de que o que está em jogo é o futuro e aemancipação de nosso Continente. Seremos um conjunto de nações soberanas eindependentes ou neocolonias.

Expressamos a UNASUR e aos países da ALBA nossa disposição de concorrer com umadelegação das FARC, se estimam pertinente, para que explique, em um encontro adefinir, nossos pontos de vista sobre o conflito e nossas iniciativas para suasuperação.

Por último, reiteramos-lhes a política internacional e de fronteiras das FARC,a qual não considera os exércitos dos países vizinhos como seus inimigos. Ocenário de nossa confrontação política e militar é Colômbia. Todas as forças eos destacamentos militares dos países latinoamericanos podem ter a certeza deque as FARC nunca serão uma força de agressão contra eles. Aos governos,exércitos dos países vizinhos, e seus povos, lhes reiteramos nossa invariávelirmandade. 

Recebam nossa cordial saudação.

Compatriotas,

Secretariado do Estado Maior das FARC-EP
Montanhas de Colômbia, setembro de 2009

Fonte: Portal Vermelho – http://www.vermelho.org.br

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