Aos poucos a humanidade constroi a paz. Por Zillah Branco

Qualquer pessoa interessada na história da humanidade constata que a consciência social humana evolui gradualmente através dos séculos em busca da PAZ. Os obstáculos se sucederam pela neurótica ambição de poder que tende a isolar o indivíduo, ou o grupo privilegiado que adquire força na medida em que oprime a coletividade. Não vale a pena indicar os responsáveis por tamanhos crimes, basta referir que formaram elites pretensamente superiores ao resto da humanidade para justificar privilégios e direitos de impor a sua vontade.

Com linguagens diferentes, muitas vezes religiosas ou filosóficas e depois científicas, milhares de iniciativas foram realizadas por pessoas capazes de combater preconceitos e falsas noções de superioridade que tornavam as maiorias humanas excluídas de uma vida saudável nas sociedades. A idéia de liberdade social, de igualdade, de solidariedade, germinou mesmo dentro de pesadas estruturas de poder que impunham caminhos favoráveis ao individualismo e aos abusos de poder. As Igrejas, as Associações, os Partidos, passaram pelas etapas históricas marcadas por sacrifícios e heroísmos, alternados com momentos de poder em que a percepção social foi esquecida. Enfrentando de cabeça erguida os árduos caminhos do aprendizado através da história, sobreviveram os que são capazes de evoluir com a experiência vivida.

Sempre o fator de aproximação do indivíduo lutador com a coletividade que o cerca teve como raiz, a sensibilidade ao sofrimento e à miséria dos outros. No século XXI a humanidade atingiu um momento de aproximação solidária, de percepção do social como essencial ao desenvolvimento dos indivíduos, graças à ameaça generalizada que a natureza revela com a sua destruição. Permanecem as diferenças de compreensão entre os indivíduos: uns só são capazes de se mover por interesses exclusivos – visão curta e mesquinha – e outros por amor e solidariedade – que os engrandece. Não importa, não interessa a classificação moral quando a meta é salvar a humanidade e garantir a todos uma existência saudável. A conduta moral das pessoas, a consciência ética que cada um revela, é uma questão individual que interessa no trato com os que estão mais próximos a nós, que conhecemos e amamos pessoalmente, que gostaríamos de ajudar com métodos educativos.

Os sentimentos individuais não são excluídos nem minimizados, mas a prioridade quando o desastre climático ou social se anuncia é montar barreiras e estudar soluções que evitem a morte de pessoas indefesas, é a ética social. Esta visão realista se impõe neste século a todos os cidadãos enriquecendo-os com melhores sentimentos que superam o egoísmo fomentado pelo poder. Deixamos para trás a estratégia do mercado que incentiva as populações a consumirem o que não usam sob a neurótica compulsão do enriquecimento material. Os mais ambiciosos estouraram o mundo financeiro nessa corrida por lucros que atropelou os valores mais elementares da honestidade e do respeito humano. Desvendaram as catástrofes criadas pelo expansionismo imperialista que semeou bases militares estrangeiras em lugar de escolas e hospitais, para matar qualquer resistência humana ao poder das máquinas e das tecnologias que deviam alimentar a ciência para a vida e não a destruição e a morte.

As mudanças foram tomando corpo conforme as circunstâncias históricas de desenvolvimento social. No Brasil, ao orgulho patriótico que cada brasileiro cultiva pelas belezas naturais, somou-se, pela primeira vez, o orgulho pela liderança de um ser humano com valores humanistas, com a simplicidade e naturalidade de quem está em paz com a vida, que conquista a admiração de todo o planeta, até mesmo dos que poderiam ser seus adversários políticos. Um Presidente que em nome da Paz Mundial condena todo o tipo de intolerância que impede o diálogo e se oferece para mediar os graves problemas do Oriente Médio. Tem a convicção de que com vontade política e consciência social o ser humano é capaz de superar qualquer problema de relacionamento para assegurar a paz. Não precisa de diplomas acadêmicos para isso, basta a sua inteligência livre e solidária.

O diálogo se dá entre um que fala árabe e o outro o português do Brasil. Os abraços e apertos de mão selam o discurso sem necessidade de palavras para deixar claro que todos os povos têm direito ao desenvolvimento da ciência e da tecnologia e devem ser respeitados para não precisarem de armas, sobretudo das atômicas. Desarmando as manifestações de intolerância que interesses escusos fomentam, a coragem da transparência quebra respostas também intolerantes.

Os elitistas que ainda detêm o poder midiático têm o despudor de transmitir até à saciedade uma frase provocadora de que "o Holocausto não existiu"– atribuída ao Presidente do Irã – depois de o ter entrevistado e gravado o que Ahmadinejad realmente falou: "o Holocausto não existiu no mundo árabe, foi na Europa. Se os europeus querem dar um território aos judeus devem situa-lo na Europa e não sobre os palestinos". Bem diferente da contra-propaganda que divulgaram para promover manifestações intolerantes. Mas aos poucos, mesmo a mídia militante da velha elite vai tendo de revelar realidades verdadeiras que contrariam os projetos de oposição ao humanismo e à paz. Os tempos são outros, mais p'ra colibri que p'ra urubu.

Hoje o pensamento de Che Guevara pode ser apreciado por quem tinha medo da revolução que ameaçava as suas propriedades privadas e os seus privilégios sociais. Michael Lowy em 1970, na França, divulgou o seu belo trabalho que mostra a constante humanista que caracterizou todas as ações do Che contribuindo para a introdução do interesse social nos cálculos econômicos e nas estratégias militares. "O importante é a causa revolucionária, os objetivos revolucionários, os sentimentos revolucionários, as virtudes revolucionárias", acrescentou Fidel Castro ao destacar o valor universal das idéias e ações do Che. Sem medo de parecer idealista ou místico , pelo uso de termos banidos da linguagem política como impróprios, estenderam uma ponte verbal aos religiosos que também lutam pela liberdade, aos povos de outras culturas que querem incorporar a sua história através do intercâmbio e da paz.

Os valores humanistas começam a ser adotados por empresários que decidem investir na formação dos operários não mais como escravos robotizados, mas como cidadãos que iniciam uma carreira profissional e social. Podem ter interesses particulares nesta ação que melhora a produtividade da sua empresa, como também os grandes fazendeiros que produzem gado e agora decidem reflorestar parte das terras onde as matas eram destruídas. Mil razões aparecem para atrair as diferentes tendências dos seres humanos, como mil linguagens para alterar a mesma realidade evitando a erosão, da terra, das sociedades, dos sentimentos, da vida no planeta.

Os problemas criados pela sociedade moderna na corrida pelo consumo e na escada do poder, são gravíssimos e atingem qualquer pessoa. É a violência, os abusos da força e do poder, as formas de corrupção, as drogas e a alienação que resulta da automatização dos gestos diários que anulam a capacidade de pensar e sentir. No Brasil já vimos  notícias sobre dois casos de "esquecimento" de um filho bebê dentro do carro fechado e ao sol. Casos dramáticos de morte causados pela alienação de um pai e uma mãe que amavam o filho, mas alienaram-se como ausentes. Casos de loucura? Se não era, tornou-se depois da morte irremediável. Dignos de pena quando a catástrofe acontece. Porque os dirigentes da sociedade não pensam nisto antes da tragédia? Não impedem que os cidadãos sejam robotizados perdendo as qualidades humanas normais? Porque predomina a ambição do lucro a qualquer preço, porque não abrem o diálogo, porque são intolerantes e não respeitam as necessidades humanas dos cidadãos.

Quem já viveu a experiência da solidariedade real, sem interesses particulares e mesquinhos, descobriu a beleza da comunhão entre individuos no trabalho que beneficia outras pessoas, que salva vidas, que cria soluções de sobrevivência para pessoas anônimas. Os escritos de Che Guevara sobre economia e gestão, com exemplos concretos de êxito, demonstram que essas conquistas humanistas que os revolucionários experimentam podem e devem fazer parte da equação empresarial de qualquer empresa. Foi o tempero que faltava à ciência econômica lançada por Marx e Engels no século XIX. Dois séculos de lutas contra as intolerâncias dos elitistas e várias derrotas em batalhas por todo o mundo, permitiram que agora os empresários capitalistas criem um espaço para a solidariedade na organização de trabalhos voluntários que trazem alegria para os que participam e recursos para os que recebem. Uma comunhão humanista encaixada no sistema frio e economicista. E as contradições vão despertando novas consciências que nos tropeços da vida conduzem pelo caminho da paz e do diálogo.

Zillah Branco

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