Revendo a história, a razão está com os palestinos – Por Antonio Barreto

Síntese da história da Palestina e da luta do seu povo que nos últimos 50 anos viu sua pátria ser invadida e dominada pelo império colonial Israel/Estados Unidos.

            A questão palestina precisa ser entendida não apenas pelas pendências religiosas e limites territoriais geográficos, mas principalmente pela trajetória histórica do seu povo. Vista por esse ângulo, caem por terra todas as justificativas israelenses para a invasão do território e o massacre dos palestinos.  

Com 27 mil quilômetros quadrados incrustados no cruzamento de três continentes  – Europa, Ásia e África – a Palestina é um ponto estratégico do ponto de vista militar, comercial e político.
Apesar de vários povos terem passado pela Palestina em seus 10 mil anos de história, apenas três povos  se destacaram nessa região e deixaram as marcas da sua cultura. Foram os cananeus, os filisteus e os israelitas.

Os cananeus são os mais antigos na Palestina, tendo ali se instalado  há cerca de 3.000 anos  a..C. Foram eles que deram ao país o nome histórico de "terra de Canaã". Entre suas cidades, encontra-se Jerusalém, nascida há 1800 a.C.

Os israelitas que vagaram pelo deserto depois do seu êxodo do Egito, chegaram à parte oriental de Canaã cerca de 1.200 a.C. e iniciaram o processo de colonização com as 12 tribos de Israel, unidas por Saul que fundou o primeiro reino israelita na Palestina em 1030 a.C., que durou até 587 a.C., quando o reino de Judá foi destruído pelos babilônios. A partir daí, sai de cena o governo israelita na Palestina, situação essa que durou até meados do século XX.

Vê-se, portanto, que a ocupação israelita no território,   foi um episódio que durou apenas  443 anos  nos 10 mil anos de história da Palestina. A partir daí, a Palestina foi palco de várias guerras e ocupações e governada na seguinte sequência histórica:

– 587 a.C. até 538 a.C. – domínio babilônio; 538 a.C. até 332 a.C. – domínio persa; 332 a.C., até 63 A.D. –  domínio macedônio, após a conquista de Alexandre o Grande;  Em 63 A.D., Pompeu conquistou Jerusalém para Roma que governou até 323 A.D., quando os cristãos tomaram o poder e governaram a Palestina até 637 A.D. Nesse período, os persas invadiram novamente a região, assumindo seu controle entre 614 e 628 A.D.; em 637 A. D., a Palestina foi conquistada pelos árabes muçulmanos, cujo reino durou até 1072 A.D., quando se dá o declínio do reino fatimida. De 1072 a 1092 A.D., a Palestina foi governada pelos turcos seljuques. De 1092  a 1099 A.D., voltou ao domínio árabe. De 1099 a 1187 A. D., ficou sob o domínio dos cruzados. De 1187 s 1517 A.D. voltou ao domínio árabe. De 1517 a 1917 A.D. ficou sob o domínio do império otomano. Durante estes quatro séculos os palestinos tiveram sua cidadania preservada como membros de um país soberano e independente, gozando de direitos políticos e civis plenos iguais aos dos otomanos. De 1917 a 1948 A.D., fica sob o domínio britânico.

A decadência do império otomano e a descoberta do petróleo no Oriente Médio despertou  o interesse das potências  ocidentais Inglaterra, França e Estados Unidos em se apossar dessa região.  Para isso, elaboraram um plano para a divisão do mundo árabe em pequenos países inviáveis política e economicamente, impondo sobre eles  limitações nos campos tecnológico-científico e militar. Para viabilizar esse plano era preciso implantar no mundo árabe uma força guardiã dos seus interesses.

O movimento sionista criado em 1897, em Basel, (Suíça) preconizava a criação  de um estado judeu na Palestina ou na Argentina, para solucionar o problema criado pela migração dos judeus da Europa Oriental para a Europa Ocidental.

Ao tomarem conhecimento das intenções  das potências coloniais, os sionistas prontificaram-se a executar o seu plano de colonização. Isto ficou bem explicitado no livro de Theodor Hertzl ("O Estado Judeu"), quando escreveu: "Para a Europa, constituiremos lá (na Palestina) uma fortaleza contra a Ásia. Seremos a Sentinela avançada da civilização contra a barbárie". Em 02 de novembro de 1917 se concretizam os interesses dos sionistas de se constituírem em parte do plano de colonização franco-britânico. A proposta de criação de um estado judeu na Palestina foi aprovada pelos parlamentos britânico, Francês e norte-americano, mudando o curso da história da Palestina e do Oriente Médio.

De 1917 até 1939 o povo palestino enfrentou o domínio britânico que chegou a anunciar em 1939 a intenção de dar a independência a Palestina dentro de 10 anos.

Após a Segunda Guerra Mundial, os judeus sionistas iniciaram uma campanha de violência e terror contra os britânicos e os palestinos visando impedir a independência da Palestina. Pressionado pelo presidente americano Harry Truman, o governo Britânico  transferiu à ONU , em abril de 1947, a solução da questão Palestina.

No dia 29 de novembro de  1947 a Assembléia Geral da ONU aprova a resolução 181, que dividia a Palestina em dois estados – o Estado judeu com 14.500 quilômetros quadrados, representando 57%  do território da Palestina enquanto que o estado árabe teria  11.800 quilômetros quadrados, correspondendo a apenas 43% do território. A Palestina seria habitada por 509.780 palestinos, muçulmanos e cristãos e 499.020 judeus. Jerusalém ficaria sujeita a uma administração da ONU. Para os palestinos, a resolução não significou uma partilha, mas uma espoliação feita aos palestinos, considerando que os judeus só possuíam 5,66% da área territorial da Palestina e representavam apenas  um terço da população (em grande maioria, estrangeira recém-chegada).  

A resolução seria implementada dois meses depois da retirada das forças britânicas que comunicou à ONU que o faria em 15 de maio de 1948.

A resolução da partilha precipitou o país na anarquia e no caos. O propósito dos judeus sionistas  de implantar um Estado que fosse livre de  árabes, levou os palestinos a lutarem para impedir a partilha  de sua pátria. Iniciou-se a guerra de 1949. Foram 6 meses de terror e massacre sob a liderança de Menahen Begin e Yitzhak Shamir. Foi realizada uma verdadeira limpeza étnica em todos os bairros de Jerusalém. Todos os palestinos foram expulsos. Após a proclamação do estado de Israel, os sionistas continuaram seus ataques e massacres contra a população palestina. 450 aldeias foram destruídas e 960 mil palestinos (segundo a ONU)  viram-se  de repente transformados em refugiados, privados de alimentos, refúgio e pátria. Passados os primeiros momentos de pânico, a população palestina, embora desarmada, conseguiu reorganizar-se  e salvar parte do seu território nacional da agressão sionista. Assim, quando Israel se estabeleceu de fato sobre 79% da Palestina, os palestinos ficaram com apenas 21% (Cisjordânia, Jerusalém Oriental e Faixa de Gaza) do seu território nacional histórico.

Em 11 de dezembro de 1948, a ONU votou a resolução 194 que reconhece o direito de os refugiados palestinos retornarem a seus lares, ou serem indenizados quando assim preferirem.

Em 01 de dezembro de 1948, algumas centenas de palestinos  se reuniram na cidade de Jericó e votam a favor da anexação da Cisjordânia à Transjordânia, assim formando o reino Hashimita da Jordânia. A Faixa de Gaza ficou sob tutela egípcia.

Em 1956 ocorreu a guerra de Suez. França, Inglaterra e Israel mais uma vez unidos pelo projeto colonial da região. Em 6 de novembro desse mesmo ano a Assembléia Geral da ONU votou a retirada das forças estrangeiras no território egípcio. Os franceses e britânicos completaram sua retirada em 22 de dezembro de 1956, enquanto que Israel  só se retirou em março de 1957.

Em 1967, Israel sente que o momento é propício para completar a sua guerra de agressão e se apossar do restante do território palestino, especialmente Cisjordânia, Jerusalém Oriental e Faixa de Gaza. Ao fim do  que ficaria conhecida como a Guerra dos Seis Dias, Israel havia ocupado toda a península do Sinai, a Cidade Velha de Jerusalém, a Cisjordânia, a Faixa de Gaza e as colinas de Golã. Esta guerra de agressão teve a participação secreta dos Estados Unidos e se deu pelo apoio tático através de vôos de reconhecimento realizados em 3 de junho de 1967 por aeronaves trazidas de bases dos EUA na Alemanha e no Reino Unido para uma base da OTAN na Espanha, conforme Stefhen Green no livro "Taking Sides: America's Secret Relations with a Militant Israel"( William Morrov, New York, 1984).

Somente em 22 de novembro de 1976, o Conselho de Segurança da ONU conseguiu aprovar  uma resolução que se propunha a uma paz justa e duradoura no Oriente Médio. A resolução determinava o seguinte: I ) A retirada das forças armadas israelenses dos territórios ocupados no recente conflito; II) Fim de todas as alegações  e declarações de beligerância, e reconhecimento da soberania, integridade territorial e independência política de cada um dos estados na área e seu direito de viver em paz com segurança e com fronteiras reconhecidas livres de ameaças ou atos de força.

Israel se recusou a cumprir a resolução, apesar de estar ratificando as suas conquistas territoriais de l948 e l949, porque queria reter alguns dos territórios recém conquistados. A OLP, por sua vez, rejeitou a resolução 242 por considerá-la  uma fórmula destinada a liquidar a questão palestina e legitimar a expansão territorial ilegal de Israel além das fronteiras  determinadas pela Resolução de Partilha.

O fracasso dos estados árabes em defender a Palestina em 1948 e o insucesso da ONU de corrigir as injustiças cometidas contra o povo palestino, somadas à agressão de Israel de l967, convenceu os palestinos de que deveriam tomar o seu destino em suas próprias mãos e libertarem eles próprios o seu país. A OLP, Organização para a Libertação da Palestina, que havia sido criada em 1964, era o veículo  natural para a implementação desse projeto nacionalista palestino.

O único meio para a atividade da OLP para a libertação da Palestina era a atividade de guerrilha, reconhecida pela resolução 2787 de 6 de dezembro de 1971 e nas resoluções subsequentes: ("A legitimidade da luta dos palestinos (entre outros povos)  pela autodeterminação e libertação da dominação  e sujeição colonial estrangeira por todos os meios disponíveis é coerente com a carta da ONU".

Em 15 de abril de 1968, Yasser Arafat, líder da Al Fatah, sai da clandestinidade e durante o 5o  Conselho Nacional Palestino, assume a presidência da OLP.

Enquanto os Palestinos desenvolviam a sua luta pela libertação da Palestina, o governo israelense respondia com guerra total contra o nacionalismo palestino com o tríplice objetivo de tomar e anexar  o território de toda a Palestina; aniquilar a OLP, esmagar a oposição política, e provocar o êxodo dos palestinos de sua pátria.

Em 06 de outubro de 1973, ocorreu a guerra do Egito e Síria com o objetivo de recuperar os territórios (Península do Sinai e as colinas de Golã) que Israel ocupou em 1967. Os Estados Unidos, desta vez intervieram abertamente no conflito a favor do seu protegido, fornecendo armas e assistência militar. O Conselho de Segurança da ONU, mais uma vez decide em 22 de outubro de 1973 aprovar a resolução 338 que ordenava um cessar fogo nesse dia e  exortava as partes a implementarem a resolução 242, de 1967.

O movimento nacional palestino tornou-se consciente da impossibilidade de uma solução militar e foi gradualmente se convertendo a uma opção diplomática com a promoção de "dois estados" no 12O Conselho Nacional Palestino que se reuniu de 1 a 9 de junho de 1974.

Em 26 de março de 1979 foi concretizado, numa reunião em Camp David, um tratado de paz entre Israel e Egito.

Na noite de 4 para 5 de junho de 1982 Israel, com o objetivo de eliminar a influência da OLP e criar no Líbano um governo amigável com o qual pudesse assinar um tratado similar ao que assinou com o Egito, com o sinal verde dos Estados Unidos, inicia os bombardeios maciços sobre Beirute e o sul do Líbano, seguidos por uma invasão por terra, no dia seguinte. Condenado pelo Conselho de Segurança  pela resolução 509 a retirar as suas forças militares, Israel declarou que não cumpriria a resolução e avançou rumo a Beirute, destruindo cidades, aldeias e campos de refugiados, culminando com o massacre de 3.000 refugiados nos acampamentos de  Sabra e Shatila, entre os dias 16 e 18 de setembro do mesmo ano, comandado pelo atual primeiro-ministro Ariel Sharon, à época, ministro israelense da Defesa.

A OLP transferiu seus escritórios para a Tunísia de onde coordena as atividades diplomáticas e a intifada contra a ocupação que eclode em 09 de dezembro de 1987. Em 13 de setembro de 1988 Yasser Arafat é formalmente recebido no Parlamento Europeu. Em 14 de dezembro, a ONU, reunida em Genebra, recebe o líder Yasser Arafat. No dia seguinte, Arafat declara oficialmente que a OLP renuncia ao uso do terrorismo. No dia 16, Washington anuncia a abertura de um "diálogo substancial" com a OLP.

Em 1990, a tentativa da OLP de encontrar uma solução pacífica e negociada para a guerra dos Estados Unidos contra o Iraque, foi considerada pelos Estados Unidos como sendo um alinhamento da OLP com a posição do Iraque, tendo como resultado a tentativa de exclusão dos palestinos da conferência de Madrid, em 30 de outubro de 1991,  que redesenharia o novo mapa político do Oriente Médio. Nessa Conferência, a delegação palestina  teve um grande êxito na defesa da sua causa e ganhou muita simpatia da opinião púbica mundial.

Em 13 de setembro de 1993, são assinados os acordos de Oslo, em Washington entre Arafat e Itzhak Rabin, então primeiro-ministro de Israel. Em 1o de julho de 1994, Arafat entra triunfalmente  nos primeiros  territórios palestinos sob administração palestina. Itzhak Rabin é assassinado por um israelense de extrema direita em 4 de novembro de 1995. Em 29 de maio de 1996, a direita israelense vence as eleições  e Benjamin Natanyahu é eleito primeiro-ministro. O diálogo entre Israel e a Autoridade Palestina é interrompido e o processo de paz permanece em crise durante todo o mandato de Netaniahu.

Em 17 de maio de 1999, é eleito primeiro-ninistro Yehud Barak., criando uma melhor perspectiva de paz, mas o processo de paz foi interrompido com a insistência na construção  de colônias habitacionais e também não executou nenhuma das retiradas dos territórios palestinos previamente negociadas.

O prazo de 5 anos estipulado nos acordos de Oslo de 1993, que seria maio de 1999 foi adiado para 13 de setembro de 2000, devido ao não cumprimento por parte de Israel. O presidente dos Estados Unidos, Bil Clinton, patrocina uma reunião em Camp David, no período de 11 a 24 de julho de 2000. As negociações avançaram, mas não se chegou a um acordo concreto. Os principais pontos de impasse foram: dos 4,5 milhões de refugiados palestinos, Israel se dispôs a receber (menos de 10 mil) durante um período de vários anos; reivindicou a soberania completa sobre Jerusalém. Inclusive sobre os lugares santos, contrariando assim  a resolução 242; anexação das colônias habitacionais, o que resultaria na transformação dos territórios palestinos  em ilhas isoladas, sem continuidade territorial; controle de 84% dos recursos hídricos  de lençóis freáticos e manter o cerco militar com a presença de forças militares na fronteira entre a Palestina e a Jordânia. Obviamente, essas reivindicações  não foram aceitas pela autoridade nacional palestina.

No dia 28 de setembro de 2000 o então presidente do partido de direita, Likud, Ariel Sharon, visitava a Esplanada das Mesquitas sob proteção de 3.000 soldados enviados por Ehud Barak que ao mesmo tempo proibiu o acesso  aos fiéis muçulmanos. A população entendeu isso como uma provocação e desafio e reagiu com o início da Segunda intifada. Desse dia em diante, todo o processo de paz entrou em crise que se aprofundou com a eleição de Ariel Sharon, primeiro-ministro, em 06 de fevereiro de 2001, após a renúncia de Ehud Barak em 9 de dezembro de 2000. Sharon é eleito primeiro-ministro com a promessa  de esmagar a revolta palestina.

A persistência na ocupação dos territórios palestinos pelo estado israelense, levou, no passado recente, muitos jovens palestinos aos atentados suicidas como forma de luta pelos direitos do seu povo, o que tem agravou ainda mais o conflito.

A última investida de Ariel Sharon sobre os territórios administrados pela Autoridade Nacional Palestina e a declaração de guerra total no dia 28 de março de 2002, com o sinal "verde" dos Estados Unidos, deixou tudo muito claro para a comunidade internacional que Estados Unidos e Israel não se empenham pelo cumprimento da última resolução do Conselho de Segurança que decidiu pela criação do Estado Palestino. Como sinal de que quer uma paz duradoura, no atual momento os palestinos reivindicam apenas 21%  da sua terra natal.

A comunidade internacional repudiou a violência reinante na Palestina e a tentativa de Israel de eliminar a Autoridade Nacional Palestina e o possível  assassinato do líder Yasser Arafat.

A última investida do sionismo contra o povo palestino,  em 2008,  deixou mais de 1000 mortos, em sua maioria crianças e idosos, além de centenas de feridos. Pela primeira vez,  Israel será julgado por crimes de guerra por mais uma atitude criminosa contra o povo palestino.

A proposta de paz da Arábia Saudita, apoiada pela comunidade árabe e aceita pelos palestinos merece o apoio de todos os que defendem a soberania e a autodeterminação dos povos.

Criação do Estado Palestino livre Independente e soberano, tendo como capital Jerusalém Oriental.

 


*Antonio Barreto é membro do Conselho Fiscal do Cebrapaz, Coordenador do Núcleo  Cebrapaz Bahia e fundador do Comitê Baiano de Solidariedade ao Povo Palestino,  luta hoje incorporada pelo Cebrapaz.

 
Fonte: A questão Jerusalém – Re-editado por Delegação Especial Palestina no Brasil  e História da Questão Palestina – Hanna Yousef Emile Safieh, Secretário Geral da Confederação  Palestina para a América Latina e o Caribe – COPLAC

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