Na “jovem República” do Nepal, Socorro Gomes denuncia Obama, o “Nobel da Guerra”

Na “jovem República” do Nepal, Socorro Gomes denuncia Obama, o “Nobel da Guerra”
Um pronunciamento da presidente do Conselho Mundial da Paz (CMP), Socorro Gomes, abriu os trabalhos da Conferência Internacional “Unidade para a Paz e o Progresso contra o Imperialismo”, em Katmandu, no Nepal, no último sábado (20/02).

Socorro aproveitou a ocasião para saudar “a mais jovem República do mundo, o Nepal, que fruto da combinação de distintas formas de luta, colocou fim ao regime monárquico abrindo uma nova jornada de lutas para seu povo”.

A presidente do CMP desmascarou também o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, que completou um ano à frente da Casa Branca. Segundo Socorro, “Obama se transformou no primeiro Prêmio Nobel da Paz que o recebe fazendo um discurso em defesa da guerra, tornou-se para muitos o Nobel da Guerra. E no seu caso, não se trata somente de discurso — são mais de 800 bases militares espalhadas por todo o mundo, são milhares de soldados em postos avançados, são suas frotas navais buscando o controle de rotas marítimas”.

Confira abaixo a íntegra do discurso de Socorro.
 

Estimados companheiros da luta antiimperialista e pela paz,
Estimados companheiros do movimento nepalês pela paz,
Companheiros de organizações oriundas dos distintos países da Ásia e de outros continentes.

Para o Conselho Mundial da Paz, é uma grande honra poder participar deste seminário regional sobre a luta pela paz, o progresso e a luta antiimperialista. Paz, Progresso, Desenvolvimento, Soberania e Justiça Social são as grandes aspirações dos povos ao redor do mundo. A defesa destas bandeiras reveste-se de profundo caráter antiimperialista.

Felicitamos a importante iniciativa promovida pelos companheiros do movimento nepalês pela paz, que em conjunto com o CMP realizam esta conferência.

Encontramo-nos no Vale do Ganges, nas encostas da cordilheira do Himalaia, próximo ao ponto mais alto do mundo, o Monte Everest. Estamos na terra da Flor de Lótus, na mais jovem República do mundo, o Nepal, que fruto da combinação de distintas formas de luta, colocou fim ao regime monárquico abrindo uma nova jornada de lutas para seu povo.

Nesta nova página na luta do povo nepalês os debates realizados no processo de assembleia constituinte são fundamentais para o novo desenho do país em sua luta por mais progresso, justiça social e paz.

Importância igual possui a consolidação da Paz, que busca unificar o país nesta nova jornada de lutas.

Saibam companheiros do Nepal, que Conselho Mundial da Paz e suas mais de 100 organizações ao redor do mundo se solidarizam com sua luta, fazemos dela nossa luta!

Estimados companheiros,

O mundo vive um período de grandes tensões

A realização desta conferência nos dá a possibilidade de analisar o atual contexto internacional e identificar qual é o papel dos movimentos que fazem a luta pela paz contra o imperialismo.

Os EUA passam por uma profunda crise econômica e de hegemonia. Esta crise tem possibilitado a emergência de novos pólos de poder como China, Índia, Brasil entre outros. Trata-se de um elemento novo no contexto internacional, um momento de transição, onde o mundo viverá grandes tensões.

De um lado, novos polos de poder, em luta por uma reconfiguração da ordem internacional , de outro as grandes potências, que lutam para manter sua hegemonia. Nesta luta o imperialismo não titubeia em fazer uso da força para se manter no epicentro do poder.

É justamente o uso da força que tem caracterizado o último período. Esta conferência acontece no momento em que se completa um ano do novo governo dos EUA. Este curto período foi suficiente para nos mostrar que em essência nada mudou na estratégia norte americana de domínio do mundo.

Obama se transformou no primeiro Prêmio Nobel da Paz que o recebe fazendo um discurso em defesa da guerra, tornou-se para muitos o Nobel da Guerra. E no seu caso, não se trata somente de discurso — são mais de 800 bases militares espalhadas por todo o mundo, são milhares de soldados em postos avançados, são suas frotas navais buscando o controle de rotas marítimas. Apesar da retórica, do estilo do presidente Obama, a política externa estadunidense continua sendo essencialmente militarista, agressiva e orientada ao saque dos recursos estratégicos dos povos e nações.

No meio da crise, crescem os gastos militares dos EUA

Apesar da grave crise econômica que assola os EUA, os gastos militares do país não param de crescer.

Segundo dados do Centro para o Controle e Não-Proliferação de Armas, os gastos militares dos EUA em dólares de 2009, são superiores aos momentos de pico da guerra fria, como no caso da Guerra da Coreia (1952: US$604 bilhões), da Guerra do Vietnã (1968: US$513 bilhões) ou no período Reagan (1985: US$556 bilhões).

O orçamento militar de 2011 que o presidente Obama enviou para congresso nacional dos EUA chega ao valor de US$ 708 bilhões

O grande complexo de Bases Militares, Comandos Especiais, Frotas Navais e a Otan estão a serviço de uma estratégia muito bem definida por parte dos EUA: garantir o domínio de povos e nações. Ao aumentar sua presença na Ásia, África e na América Latina, seu intuito é claro, criar condições para impedir a consolidação de novos blocos de poder, além de posicionar força sobre grandes reservas de recursos naturais e de rotas comerciais importantes.

Companheiros da luta pela paz,

Estamos no Centro Sul da Ásia. A poucos milhares de quilômetros daqui, encontra-se o Afeganistão, onde os EUA lançaram recentemente sua nova estratégia de guerra para o país.

Com a chamada “Nova Estratégia para o Afeganistão”, Obama reafirma seu compromisso com a “Guerra contra o Terror” lançada por George Bush. Anuncia o envio de mais de 30 mil soldados estadunidenses para o Afeganistão e realiza pressão sobre seus aliados europeus na Otan para que ampliem suas tropas. Cada vez mais as guerras de Bush se transformam nas guerras de Obama.

Além do contingente de 68 mil homens dos EUA, e dos 40 mil da Otan, estão chegando ao país mais 30 mil homens, elevando o contingente de ocupação para 150 mil soldados. Isto sem contar a presença dos chamados “contratistas” verdadeiros mercenários pagos para oprimir o povo afegão – estima-se que existam mais de 100 mil mercenários sob o comando das forças de ocupação no país.

Os argumentos para esta nova escalada bélica no Afeganistão são os mesmos de seu antecessor “a segurança dos EUA e de seu povo está em jogo”. No entanto, os interesses que fazem com que os EUA mantenham e ampliem sua presença no Afeganistão são outros. Trata-se do esforço por controlar a Ásia Central, região rica em fontes de energia. Além de estar subordinado a um projeto maior de reordenamento geopolítico de uma vasta região que vai da Ásia até o norte da África, o chamado “Grande Oriente Médio”.

Seu intuito é garantir o livre acesso às fontes de recursos naturais, e a imposição de governos submissos aos seus interesses. Este projeto continua sendo um dos fatores de maior instabilidade da região.

Não muito distante do Afeganistão, os EUA e seus aliados na Otan iniciam uma operação que tem como intuito posicionar forças no golfo de Áden e no chamado Chifre da África.

Esta ação se dá na suposta luta contra os chamados “Piratas da Somália” e as “células terroristas da al-Qaeda no Iêmen”.

No caso do Iêmen, segundo dados oficiais do Pentágono, a “cooperação” militar dos EUA cresceu de U$4,6 milhões em 2006 para U$ 67 milhões em 2009. No último mês os EUA iniciaram uma série de ataques de grandes proporções com aviões Drones ( sem pilotos) no norte e no sul deste país. Fala-se de estabelecer uma base no solo do Iêmen, e de atracar navios de combate nos portos do país. Muitos dos homens que os EUA afirma combater, foram treinados por eles em sua guerra contra a presença soviética no Afeganistão.

A outra ponta desta operação se dá com o pretexto de combater os chamados “Piratas da Somália”. Neste caso os supostos piratas são utilizados como pretexto para garantir uma grande presença naval dos EUA nestas águas.

A Somália e o Iêmen encontram-se frente a frente, no extremo do golfo do Áden onde o Mar vermelho encontra-se com o Mar de Omã. Controlar esta localidade permite o domínio de uma das principais rotas comerciais do mundo, além de ser uma rota vital para o abastecimento da China e da Índia.

Apoiada no pretexto de combate aos “Piratas da Somália” e do combate às supostas “células da Al-Qaeda no Iêmen”, a Otan realiza nesta região uma operação silenciosa que busca naturalizar sua presença, nestas águas. A Otan nunca teve uma presença nesta região, nem mesmo no período mais intenso da guerra fria suas forças circularam por estas latitudes. Trata-se de mais um passo na sua reconfiguração estratégica.

O papel do Africom

No mês de outubro de 2008, os Estados Unidos colocaram em funcionamento o Africom, um Comando Especial de atuação no continente africano. Com sede em Stuttgart, na Alemanha, o Africom, em pouco mais de um ano de existência, já possui 172 missões em distintos países do continente. Trata-se da sexta força geográfica do Departamento de Estado dos EUA, possuindo um enfoque único, devido às missões e ao tamanho da região.

Segundo a Estratégia Nacional de Defesa dos EUA, o Africom foi constituído a partir da constatação de que países como China, Índia, Brasil, Turquia, Japão e Rússia estavam estabelecendo relações estratégicas com os países africanos. Frente a isto os EUA com o intuito de recuperar uma maior “liberdade de movimento” na região decidem constituir o Africom.

O Comando é um dos componentes do projeto de garantir uma nova área de influência geopolítica dos EUA, que inclui o controle das águas do chifre africano e o posicionamento de força bélica em rotas comerciais vitais para o abastecimento da Índia e da China.

A resistência Palestina e os crimes de Guerra de Israel.

O Oriente Médio continua sendo a região do mundo onde os povos mais sofrem em conseqüência das políticas do imperialismo e de seus aliados.

Nas últimas semanas tornou-se público que Israel utilizou armas de fósforo branco contra os acampamentos Palestinos na faixa de Gaza. Trata-se de um crime de guerra de grande gravidade. O responsável não é apenas um general, mais sim o Estado de Israel e seus governantes, que devem responder no banco dos réus pelos inúmeros crimes contra a humanidade que têm cometido.

O governo sionista tem nos últimos meses intensificado uma campanha de ampliação de assentamentos nos territórios palestinos. O objetivo desta política é a consolidação de populações israelenses dentro das aéreas palestinas, ou seja, busca com isto expulsar o povo palestino, dos seus territórios, violando a resolução do Conselho de Segurança (N.452, de 1979), que impede a Israel criar novos assentamentos.

Além das agressões à Palestina, hostilidades também são realizadas a outros países da região como é o caso da Síria, na qual Israel mantém sob ocupação as Colinas de Golã . Crescem as agressões e hostilidades ao Irã, por sua recusa a submeter- se ao domínio das grandes potências.

Desde este seminário, reafirmamos a defesa da constituição do Estado Palestino, com Capital em Jerusalém leste. Exigimos a imediata devolução das Colinas de Golã à Síria e demandamos o fim das hostilidades nesta região.

Defendemos de igual modo o desarmamento nuclear de Israel, e que o Oriente Médio se transforme em uma Zona de Paz Livre de Armas Nucleares.

A ofensiva do imperialismo sobre a América Latina

Companheiros, a ofensiva militarista do imperialismo estadunidense, também avança na América Latina. Trata-se de uma reação às mudanças políticas que o continente tem vivido nos últimos anos.

O marco da reação dos EUA na América Latina se dá com a reativação da chamada Quarta Frota da marinha de guerra dos EUA. Tal instrumento de guerra navega portando armas nucleares pelas águas do Atlântico Sul, sobre imensas reservas de petróleo recém descoberto pelo Brasil. Sua reativação é uma grave ameaça à paz da região.

Em meados de 2009 torna-se público o acordo que até então vinha sendo negociado em segredo: a instalação de sete bases militares dos EUA na Colômbia.

Localizadas em posições estratégicas, as sete bases estão próximas das fronteiras da Venezuela, do Brasil e do Equador. Além disto a Colômbia irá ceder a base naval na Baía de Málaga, no Caribe, para dar suporte aos navios da Quarta Frota.

O acordo assinado às escondidas com os EUA tem duração de 10 anos, com possibilidade de ser renovado. Ele permite que os EUA possuam até 1400 homens sendo 800 soldados e 600 “contratistas”, os mesmos mercenários que são utilizados no Afeganistão e no Iraque. O acordo prevê uma cooperação no valor de U$ 5 bilhões para gastos com infra-estrutura e modernização das instalações.

Nos documentos do Pentágono, afirma-se que a base de Palanquero, no centro do país, “permitirá ao exercito dos EUA conduzir operações por todo o espectro da América do Sul” e que ente seus objetivos está o de combater “as ameaças constantes dos governos anti-americanos”.

As motivações estão claras e descritas por seus próprios documentos. Ao passo que os EUA têm perdido influência na região, têm buscado ampliar e reposicionar suas forças militares. Estas estão localizadas, no geral, nas proximidades de grandes reservas de recursos naturais e de fontes de energia, como é o caso das bases na Amazônia colombiana e da Quarta Frota.

Outro fator de suma gravidade foi o envolvimento da Base Militar de Soto Cano, em Palmerola, Honduras, no golpe contra o presidente Manuel Zelaya.

O governo Obama, que participou da Cúpula das Américas em Trinidad e Tobago, prometendo um novo tempo de relações com a região, continua mantendo o criminoso bloqueio a Cuba e sua política de hostilidades, listando-a como país que dá apoio ao “terrorismo”.

A Base Militar chamada Haiti

Assistimos nas últimas semanas, a um episódio que demonstra a verdadeira face do chamado “softpower”, do governo Obama. Os EUA aproveitando-se da grave tragédia que ocorreu no Haiti nos últimos dias, realizou uma suposta “ocupação humanitária”. Em um primeiro momento, tomaram o controle do aeroporto de Porto Príncipe, não permitindo a entrada de ajuda humanitária, pois os mesmos estavam priorizando a saída de americanos do país e o desembarque de materiais para suas tropas.

Logo após realizaram a ocupação do Palácio Presidencial, instalando no centro de Porto Príncipe seu comando central. Os EUA com estas ações transformaram o Haiti em uma de suas principais bases militares, com mais de 16 mil homens e vários porta-aviões, controlando os portos do país.

Unidade dos povos na luta contra o imperialismo! Fora Bases Militares Estrangeiras!

Frente a estas agressões, torna-se necessário a construção de um amplo movimento internacional contra as bases militares estrangeiras e a Otan. Estas representam esforços de implementar uma política de neo-colonização, buscando de todas as maneiras impedir mudanças no atual cenário internacional.

O Conselho Mundial da Paz em conjunto com uma ampla gama de entidades realizou no último mês de janeiro no Brasil, o lançamento da campanha “América Latina uma Região de Paz – Fora Bases Militares Estrangeiras” – O intuito é a partir da campanha promover ações para tornar o continente um território livre de bases militares estrangeiras.

Devemos em cada região estabelecer coalizões que nos permitam ampliar nossa luta pela Paz, e ampliar e fortalecer a consciência e luta antiimperialista e seus instrumentos de agressão. Ao trazermos a proposta de constituição de uma campanha mundial contra as bases militares estrangeiras, estamos cientes de que contribuímos para a construção de um mundo com mais progresso, justiça e paz – Um mundo sem imperialismo!

Inspiramo-nos na luta de nossos anfitriões que demonstraram que é possível conquistar a democracia, para afirmar uma vez mais que o imperialismo não é invencível. Com a unidade dos povos ele será derrotado.

Muito obrigada.

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