A política de desarmamento do governo Obama. Por José Luís Fiori

Depois de 15 meses de discursos e indecisões, o presidente Barack Obama conseguiu transformar em fatos, o que deseja ser a marca de sua política externa, voltada para o desarmamento e o controle nuclear. No inicio o mês de abril, Obama redefiniu a estratégia nuclear dos Estados Unidos, prometendo não utilizar mais armas atômicas contra países que não as possuam e que assinem e cumpram com o Tratado de Não-Proliferação.

Logo em seguida, no dia 8 de abril, em Praga, Obama, assinou um acordo com o presidente russo, Dmitri Medvedev, com o objetivo de reduzir o arsenal nuclear duas maiores potências atômicas do mundo. E, quatro dias depois, liderou a reunião da Cúpula de Segurança Nuclear, em Washington, para discutir com 47 chefes de Estado e de governo sua própria proposta de controle da proliferação nuclear ao redor do mundo. Tudo foi feito de olho na reunião quinquenal de reexame do tratado, no próximo mês em Nova York, com a participação dos 189 países signatários.

Até agora, a retórica e a encenação foram perfeitas, mas os limites e contradições desta nova proposta de desarmamento do presidente Obama são muito visíveis. Em primeiro lugar, o que ele chamou de “nova estratégia nuclear norte-americana” não passa de uma decisão e de um compromisso verbal que pode ser revertido e abandonado a qualquer momento, dependendo das circunstâncias e de uma decisão arbitrária dos próprios Estados Unidos.

Em segundo lugar, o acordo entre os presidentes Obama e Medvedev envolve uma redução insignificante e quase só simbólica dos seus arsenais atômicos, permitindo ao mesmo tempo a substituição e modernização das ogivas nucleares dos vetores já existentes. Além disto, o novo acordo de desarmamento não incluiu nenhuma discussão a respeito do aumento exponencial dos gastos militares norte-americanos nos últimos anos, nem do aperfeiçoamento dos novos vetores X-51 da Boeing, com capacidade nuclear, que entrarão em ação em 30 meses, capazes de alcançar qualquer país do mundo em menos de uma hora.

Tampouco se falou dos novos submarinos russos Iassen, que têm capacidade de transportar 24 mísseis, cada um com seis bombas atômicas. Em terceiro lugar, em nenhum momento e em nenhuma destas reuniões se mencionou o armamento atômico da Otan, localizado secretamente na Alemanha, na Itália, na Bélgica, na Holanda e na Turquia. Muito menos se incluíram na discussão os arsenais atômicos de Israel e Paquistão, hoje sob o controle de governos com forte presença de forças fundamentalistas e belicistas, e que agem sob a batuta dos próprios norte-americanos.

Por fim, é lógico que não aparecem, em nenhum momento, nesta agenda "pacifista" de Barack Obama, o aprofundamento recente da guerra no Afeganistão e os preparativos dos Estados Unidos e de Israel para um ataque arrasador contra o Irã — país que não possui armamento atômico e que assinou o Tratado de Não-Proliferação, ao contrário de Israel.

Potência global

Estas contradições não são novas nem surpreendentes: fazem parte da política externa dos Estados Unidos desde o fim da Guerra Fria. O importante, neste caso, é que os demais países envolvidos entendam e assimilem a lição, e que saibam se posicionar em função dos seus próprios interesses. Os Estados Unidos são uma “potência global”, e os “interesses nacionais” de uma potência global envolvem posições a defender em todo o mundo, o que diminuiu muito sua capacidade de sustentar princípios e valores universais.

Por isto, depois do fracasso do fundamentalismo quase religioso do governo Bush, o presidente Obama vem surpreendendo alguns analistas com o realismo pragmático e relativista de sua política externa. Mas o seu objetivo central continua o mesmo — ou seja, a primazia mundial dos Estados Unidos.

Além disto, ao contrário das aparências, em plena crise econômica, Obama decidiu mudar o foco e dedicar-se à consolidação do poder militar norte-americano em todo o mundo, sem grandes preocupações com diretos humanos ou com a difusão da democracia, demonstrando plena consciência de que este poder militar é indispensável à reconstrução da economia e da própria liderança mundial do dólar.

Congelamento

Deste ponto de vista, o que o presidente Obama está propondo, de fato, é uma espécie de congelamento da atual hierarquia do poder militar mundial, com a manutenção do direito e da obrigação norte-americana de aumentar continuamente os seus próprios arsenais.

Os reveses econômicos e militares dos Estados Unidos na primeira década do século XXI atingiram o projeto de poder global do país, mas ele não foi abandonado. Hoje, está em curso um realinhamento interno de forças dentro do establishment norte-americano — como ocorreu na década de 1970 — e desta luta interna poderá surgir uma nova estratégia internacional, como aconteceu nos anos 1980, com o governo Reagan. Mas estes processos de realinhamento costumam ser lentos e seus resultados dependerão da própria luta interna e dos desdobramentos dos conflitos externos em que os Estados Unidos estão envolvidos.

De qualquer maneira, o que é importante compreender é que, seja qual for o resultado desta disputa interna, os Estados Unidos não abdicarão voluntariamente do poder global que já conquistaram e não renunciarão à sua expansão futura. A política externa das potências globais tem uma lógica própria e, por isso mesmo, com ou sem política de desarmamento, os Estados Unidos deverão seguir aumentando sua capacidade militar de forma contínua, e numa velocidade que deverá crescer nos próximos anos, na medida em que se aproxime a hora da ultrapassagem da economia norte-americana pela chinesa.

Fonte: Opera Mundi

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