Grã Bretanha: alternância no governo não representa mudanças. Por José Reinaldo Carvalho

Há muito tempo conservadores e trabalhistas não se distinguem na essência. São facções distintas da burguesia monopolista, financeira e imperialista na Grã Bretanha.

Depois de 13 anos no poder na Grã Bretanha, os trabalhistas cedem lugar aos conservadores, ancorados numa coalizão com os liberais-democratas. As eleições do último dia 6 não deram maioria absoluta a nenhum partido. O Partido Conservador, liderado por David Cameron, ganhou 97 cadeiras, ficando com 306 (20 a menos do número exigido para a maioria absoluta). Os trabalhistas do ex-primeiro ministro Gordon Brown encolheram, perdendo 91 cadeiras, ficando com apenas 258. E os liberais-democratas, embora também tendo encolhido sua cota de mandatos, acabou saindo, com as suas 57 cadeiras, como o fiel da balança para a formação da coalizão governamental.

Apesar da propalada “afinidade ideológica” com os trabalhistas, o partido de Nick Clegg abandonou o projeto da “aliança progressista” e acabou fechando acordo com os conservadores, formando o governo de coalizão. Conquistaram o posto de vice-primeiro ministro e quatro ministérios.

É difícil, quando se trata de um país imperialista e com um sistema político partidário sedimentado, compartilhado ou disputado entre frações representativas da grande burguesia monopolista e financeira, falar-se em diferenças essenciais e de princípios entre os partidos concorrentes nas eleições. Igualmente, soa como algo fictício, naturalmente uma ficção instrumentalizada com fins diversionistas, o enunciado “aliança progressista” para referir-ser à malograda união entre trabalhistas e liberais-democratas. O progressismo do Partido Trabahista britânico pertence a passado remoto. Quanto ao do Partido Liberal Democrata, nunca existiu.

O desgaste mais recente do Partido Trabalhista na Grã Bretanha é fenômeno que se iniciou na segunda metade do período de 10 anos em que Tony Blair foi o primeiro-ministro. Quando Gordon Brown assumiu a chefia do governo, em 2007, era já evidente o fracasso da sua gestão do ponto de vista dos interesses dos trabalhadores, assim como a crise de liderança nas hostes trabalhistas.

Blair governou com a bandeira da “terceira via” e do “novo trabalhismo”. A terceira via foi um diversionismo ideológico funcional aos interesses das frações dominantes do imperialismo à época, uma forma do próprio Blair, em parceria com o ex-presidente dos Estados Unidos, Clinton, apresentar-se como progressista, enquanto praticava o neoliberalismo internamente e uma política externa de alinhamento automático com os Estados Unidos. Como lembrete, fica a informação de que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, eterno fascinado pelos modismos do imperialismo, posou de integrante da “new wave” da terceira via e seu corolário, a “governança democrática global”.
Era muito difícil perceber qualquer diferença entre o neoliberalismo dos conservadores Maragreth Tatcher e John Major e a terceira via blairiana. No decanato do trabalhista, governo e mercado financeiro eram unha e carne. Blair aprofundou a desregulamentação do mercado financeiro e continuou o trabalho sujo de “sanear” as finanças públicas cortando gastos e investimentos sociais. Gordon Brown não fez diferente. Aliás, ele foi o ministro das finanças de Blair, o fiador portanto de todas as misérias perpetradas.

Aparentado ideologicamente a Clinton, Blair foi especialmente subserviente a George Bush, que o tratava com desfaçatez. Conta-se que quando se encontaravam em solenidades, o texano saudava-o sem cerimônia: “E aí, como vai, cara?” – era a linguagem com que o chefe da maior superpotência tratava o líder da ex-metrópole. Coisas da época. No exercício do poder, os trabalhistas envolveram-se nas guerras dos três últimos presidentes dos Estados Unidos. Blair foi parceiro de Clinton na guerra do Iraque de finais dos anos 1990, a famigerada Operação Tempestade no Deserto; no massacre à Iugoslávia em 1999, no ataque a Serra Leoa no ano 2000. Com Bush, os trabalhistas deram os braços na guerra ao Afeganistão, a partir de 2001, e de novo no Iraque, desde 2002. Agora, com Obama, o governo Brown, sucessor de Blair, manteve-se engajado tanto no Iraque como no Afeganistão, embora o anúncio de redução das tropas.

O novo primeiro ministro, David Cameron, conquista o poder no rastro do desgaste dos trabalhistas e fazendo um discurso de modernizador e moralizador, brandindo a bandeira do combate à corrupção. Suas primeiras declarações são reveladoras de que está em curso um reforço do conservadorismo e que serão aprofundadas as opções de direita, com o disfarce liberal-democrata do partido de Nick Clegg. “Acredito que a coalizão conservadores-liberais é a maneira correta de proporcionar a este país um governo forte, estável, bom, decente de que tanto necessitamos”, pontificou, para logo em seguida por acento no combate ao déficit público que se prevê de 12% para este ano, através de um novo arrocho fiscal.

As semelhanças entre o novo chefe do Gabinete britânico e o trabalhista que governou entre 1997 e 2007 são tantas que já o chamam de “Tory Blair”, numa alusão ao nome do Partido Conservador nos idos do século 17, fundido com o do ex-primeiro ministro.

Numa Europa em crise e cada vez mais convulsionada, o arranjo britânico tende a ser mais um passo no sentido de continuar retirando direitos aos trabalhadores, reforçando os traços imperialistas da ordem internacional e atacando a democracia.

* José Reinaldo Carvalho é diretor do Cebrapaz

Deixe uma resposta