Noam Chomsky: Obama só mudou a retórica

Em visita à Colômbia, o linguista e ativista norte-americano Noam Chomsky voltou a atacar a ação do imperialismo nesta década. “A guerra no Iraque foi tão agressiva e terrível que lembra o que os nazis fizeram. Se aplicássemos a mesma regra, Bush, Blair e Aznar seriam enforcados”, declara. Confira.

Nesta fase da sua vida, o que o apaixona mais: o ativismo político ou a linguística?
Tenho sido completamente esquizofrênico desde jovem e continuo assim. É por isso que temos dois hemisférios na mente.

Devido a esse ativismo tem tido problemas com alguns governos – um deles, e o mais recente, foi o de Israel, que o impediu de entrar em território palestino para dar uma palestra.
É verdade, não pude fazê-lo, apesar de ter sido convidado por uma universidade palestinina. Mas deparei-me com um bloqueio em toda a fronteira. Se a palestra fosse pró-Israel, tinham me deixado passar.

Essa censura tem a ver com um de seus livros, intitulado Guerra ou Paz no Médio Oriente?
É provocada pelos meus 60 anos de trabalho pela paz entre Israel e a Palestina. Na verdade, eu vivi em Israel.

Como classifica o que acontece no Oriente Médio?
Desde 1967 foi ocupado o território palestino, e isso fez da Faixa de Gaza a maior prisão a céu aberto no mundo, onde a única coisa que resta a fazer é morrer.

Chegou a ter ilusões sobre as novas posições do presidente Barack Obama?
Já escrevi que é muito semelhante a George Bush. Fez mais do que esperávamos em termos de expansionismo militar. A única coisa que mudou com Obama foi a retórica.

Que pensou quando Obama ganhou o Prêmio Nobel da Paz?
Meia-hora após a nomeação, a imprensa norueguesa perguntou-me o que pensava disso e eu respondi disse: "Dado o seu registro, não foi a pior nomeação." O Prêmio Nobel da Paz é uma piada.

Os Estados Unidos continuam a repetir os seus erros de intervencionismo?
Têm sido muito bem-sucedidos. Por exemplo, a Colômbia tem o pior histórico de violação dos Direitos Humanos desde que começou o intervencionismo militar dos EUA no país.

Qual a sua opinião sobre o conceito de guerra preventiva que apregoam os Estados Unidos?
Esse conceito não existe, é simplesmente uma forma de agressão. A guerra no Iraque foi tão agressiva e terrível que lembra o que os nazis fizeram. Se aplicássemos a mesma regra, Bush, Blair e Aznar seriam enforcados, mas a força é sempre aplicada aos mais fracos.

Que vai acontecer no Irã?
Hoje há uma grande força naval e aérea a ameaçar o Irão, e só a Europa e os EUA acham bem. O resto do mundo considera que o Irã tem o direito de enriquecer urânio. Três países do Oriente Médio (Israel, Paquistão e Índia) desenvolveram armas nucleares com a ajuda dos EUA e não assinaram qualquer tratado.

Acredita na guerra contra o terrorismo?
Os EUA são os maiores terroristas do mundo. Não consigo pensar em qualquer país que tenha causado mais danos do que eles. Para os EUA, terrorismo é o que você nos faz, e não o que nós lhe fazemos.

Há alguma guerra justa dos Estados Unidos?
A participação na Segunda Guerra Mundial foi legítima e aconteceu tarde demais.

Esta guerra por recursos naturais no Médio Oriente pode ser repetida na América Latina?
É diferente. O que os EUA fizeram tradicionalmente na América Latina foi impor brutais ditaduras militares, que não são discutidas devido ao poder da propaganda.

A América Latina é realmente importante para os EUA?
Nixon disse: "Se não pudermos controlar a América Latina, como poderemos controlar o mundo?”.

A Colômbia desempenha algum papel na geopolítica norte-americana?
Parte da Colômbia foi roubada por Theodore Roosevelt com o Canal do Panamá. Desde 1990, este país tem sido o maior receptor de ajuda militar dos EUA, e a partir desta mesma data tem o maior registro de violação de direitos humanos no hemisfério. Antes, o recorde era curiosamente de El Salvador, que também recebeu ajuda militar.

Está sugerindo que essas violações têm alguma relação com os Estados Unidos?
No mundo acadêmico, concluiu-se que existe uma correlação entre a ajuda militar dada pelos EUA e a violência nos países que a recebem.

Qual a sua opinião sobre as bases militares dos EUA na Colômbia?
Não são uma surpresa. Depois de El Salvador, é o único país da região disposto a deixar que se instalem bases militares. Enquanto a Colômbia continuar a fazer o que os EUA lhe peçam que faça, nunca irão derrubar o governo.

Está dizendo que os EUA derrubam governos na América Latina?
Nesta década apoiaram dois golpes. O fracassado golpe militar na Venezuela em 2002, e em 2004 sequestraram o presidente eleito do Haiti e mandaram-no para a África. Mas agora é mais difícil fazê-lo, porque o mundo mudou. A Colômbia é o único país latino-americano que apoiou o golpe em Honduras.

Tem alguma coisa a dizer sobre as atuais tensões entre a Colômbia, a Venezuela e o Equador?
A Colômbia invadiu o Equador, e não conheço nenhum país que lhe tenha oferecido apoio, a não ser os Estados Unidos. E quanto à Venezuela, as relações são muito complicadas, mas defendo que melhorem.

A América Latina continua a ser uma região de caudilhos?
Foi uma tradição muito má, mas, nesse sentido, a América Latina tem progredido — e pela primeira vez o Cone Sul do continente está avançando para uma integração que supere os seus paradoxos, como por exemplo ser uma região rica, mas com uma grande pobreza.

O tráfico de drogas é um problema exclusivo da Colômbia?
É um problema dos Estados Unidos. Imagine-se se a Colômbia decidisse fumigar a Carolina do Norte, ou o Kentucky, onde se cultiva tabaco, que provoca mais mortes do que a cocaína.

Com informações da Semana.com

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