Agressão à Líbia é guerra de pilhagem

Socorro Gomes*

A agressão à Líbia já é, na verdade, guerra de pilhagem dos Estados Unidos e alguns aliados contra o povo daquele país. Além de matar civis com suas bombas, os agressores saqueiam não apenas os bens de lideranças nacionais, mas roubam a própria dignidade de um povo.

Trata-se de mais uma guerra imperialista dos Estados Unidos e seus aliados. As forças democráticas e amantes da paz em todo o mundo não podem silenciar perante os crimes de lesa-humanidade que esta guerra provoca. É preciso organizar a oposição e a resistência, defender a soberania nacional da nação agredida e o direito do seu povo à democracia, à paz e à autodeterminação.

Esta semana, vieram à tona detalhes das ações, algumas de caráter secreto, do governo de Barack Obama contra a Líbia. São atos que estarrecem o mundo, por transgredirem quaisquer limites do direito internacional e do princípio de auto-determinação dos povos.

A própria resolução do Conselho de Segurança da ONU de criar a “zona de exclusão aérea” sobre o espaço líbio, que já era uma medida exagerada, está sendo descumprida pelas forças invasoras. A denúncia partiu dos governos da China e da Rússia, países que se abstiveram de votar no momento da decisão, mas não utilizaram seu poder de veto, como espécie de “crédito de confiança”, agora quebrado.

O governo dos EUA, por seu lado, acenou com a possível compra de petróleo líbio de poços que caírem nas mãos dos rebeldes, por meio do vizinho Qatar. E o próprio presidente Obama disse que “não está descartado o fornecimento de armas aos rebeldes”. Mas não explicou de onde vêm as armas já em uso pelas forças contrárias ao governo.

Além disso, o pedido das autoridades líbias de aceitação do líder nicaraguense Miguel D’Escoto como porta-voz daquele país nas negociações internacionais sequer obteve resposta da ONU, até agora. D’Escoto já adiantou, porém, que a Líbia “está envolvida em uma guerra civil, que é assunto interno em que não cabe a intromissão de ninguém”.

Diferenças

Está mais do que claro que a rebelião em curso na Líbia é bem diferente dos processos populares de busca da democracia que vêm ocorrendo em outros países do Norte da África e Oriente Médio. Ali, trata-se de um movimento reacionário, cujo objetivo é fazer o jogo do imperialismo, transformando a Líbia em enclave dos países centrais.

Um fator que demonstra essas diferenças é a capacidade de ação das forças do presidente Muamar Kadafi, que já retomou grande parte do território assumido por rebeldes, sob a proteção da artilharia dos EUA e de países da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN).

Mais do que isso, Kadafi tem obtido crescente apoio de cidadãos líbios que já perceberam as reais intenções da guerra suja e não querem ver seu país nas mãos do imperialismo. Os próprios rebeldes têm dado declarações em que reconhecem o aumento do apoio popular a Kadafi, com mais e mais gente pegando em armas.

Esse fator não estava nos planos dos EUA. A representante estadunidense nas sucessivas rodadas de negociação, Hillary Clynton, reconheceu essa força de Kadafi. Mas repetiu em vários momentos, esta semana, o seu rosário predileto, que é o de que “esse homem tem que cair, esse homem não pode ficar no poder”.

Fica evidente, nessas rodadas entre as potências imperialistas, o uso de dois pesos e duas medidas nas ações da própria ONU. Esta, na prática, está servindo de escada para o crescimento da verdadeira face do governo de Obama, que se finge de bom moço para fazer o papel do lobo das estórias infantis.

Garras de Fora

O governo Obama vai, assim, colocando suas garras de fora. Na prática, a pele de cordeiro já não é mais capaz de esconder suas reais intenções. Quem segue mandando na política externa dos EUA são as indústrias de armamentos e os grupos financeiros de sempre. De olho no lucro rápido e na estratégia de controle de recursos naturais.

A perda de influência do imperialismo naquela parte do mundo tem sido bastante acentuada. No caso da Líbia, seria unir a fome com a vontade de comer, pois estaria sendo degolado um regime com coloração diferenciada, ao mesmo tempo, abrindo um enclave numa área de enorme importância geopolítica. E com abundantes reservas de petróleo.

O caso da Líbia serve, portanto, para que desvendemos as reais intenções dos EUA em todos os cantos do Planeta. Isto vale também para a América Latina e nos faz indagar sobre os verdadeiros propósitos da visita de Obama ao Brasil. Vale lembrar que foi daqui, durante sua estada no Palácio do Planalto, numa quebra de protocolo desrespeitosa ao nosso país, que ele ordenou os ataques à Líbia.

A prometida retirada de presos políticos da base americana encravada em território cubano não se cumpriu e nem será cumprida por Obama, segundo ele próprio já deixou claro. Isso também nos faz meditar sobre possíveis ações contra Cuba e em outros países latino-americanos.

O mesmo tipo de apoio secreto e mesmo aberto aos rebeldes líbios é usado para financiar ações contrárias ao governo cubano e ao do presidente Hugo Chaves, na Venezuela. A presença militar dos EUA na Colômbia, do mesmo modo, tem crescido ao invés de diminuir. E a marinha de guerra ianque, com a Quarta Frota,  realiza renovadas manobras em todo o hemisfério sul, tanto nas águas do Pacífico como do Atlântico.

No que se refere ao Brasil, o ministro da Ciência e Tecnologia, Aluísio Mercadante, confirmou que os EUA já manifestaram interesse em tentar mais uma vez um acordo sobre a base de lançamentos de Alcântara, no Maranhão. Na última vez que este passo foi tentado ficou tão descarada a intenção dos EUA de fincar um pé em solo brasileiro que o acordo foi recusado pelo Brasil.

Agora, porém, pode ser que venha uma nova proposta, mais sutil, mas com os mesmos objetivos. Como se sabe, os EUA tem agido ao longo dos anos para impedir acordos entre o Brasil e outras nações para projetos a partir de Alcântara. Muitos deles paralisados até hoje, desde a nebulosa explosão de um foguete que matou cientistas e técnicos brasileiros.

O Que Fazer

Cabe ao Brasil, agora, manter firme sua autonomia nas questões internacionais e não se submeter aos ardis armados pelo governo estadunidense e de outros países da OTAN, em formas de afagos. Uma maneira de demonstrar isso seria a de cobrar respeito ao povo líbio, no sentido de interromper a pilhagem daquele país.

*É presidente do Cebrapaz e do Conselho Mundial da Paz

Deixe uma resposta