Emir Mourad: A Batalha da Palestina na ONU

Quando Iasser Arafat, em seu famoso discurso na ONU, em 1974, disse: “trago em uma das mãos o fuzil de um combatente e na outra o ramo de oliveira, não deixem o ramo de oliveira cair de minhas mãos” e repetiu três vezes para que não deixem o símbolo da paz, o ramo de oliveira, cair de suas mãos. O então presidente da OLP, proclamada pela ONU como única e legítima representante do povo palestino, foi ovacionado de pé pelos países membros daquela Assembléia Geral.

Por Emir Mourad*

Essa frase do líder palestino sintetizava a estratégia dos palestinos em sua luta de libertação nacional: a luta armada não era um fim em si mesmo, é um instrumento de resistência contra a ocupação estrangeira de sua pátria natal, a Palestina. O objetivo não era a guerra, mas a libertação de sua pátria, o estabelecimento do Estado da Palestina independente, com capital em Jerusalém e a solução do direito ao retorno dos refugiados palestinos (hoje somam cerca de 5 milhões) à sua terra palestina e seus lares. O objetivo final era consolidar a paz entre Israel e a Palestina.

Passados 37 anos, em setembro último, o sucessor de Arafat, Mahmud Abbas, faz um discurso também histórico na Assembleia Geral da ONU. Foi interrompido várias vezes por aplausos demorados, ovacionado tal qual Arafat.

Na prática, a mensagem dos palestinos de hoje não difere substancialmente da mensagem de ontem. Mudou o método, não o objetivo. No lugar da resistência armada, a resistência das pedras, das marchas, das manifestações pacificas, das greves de fome, dos gritos e das canções, da pena e da diplomacia, da palavra que não cala.

Nesse intervalo de quase 40 anos entre esses dois discursos, uma coisa não mudou: a posição dos Estados Unidos e de Israel, aliados de sempre, unha e carne. Um casamento perverso que coloca em perigo a própria paz mundial, gerando guerras, perda de milhares de vidas, recursos materiais e humanos a serviço de ocupar a Palestina para matar, roubar e rezar para um Deus que não é o Deus dos humanos! Sem dúvida que petróleo e vigilância dos interesses ocidentais nessa região do planeta têm muito a ver com a não solução da questão palestina.

Obama é totalmente refém do discurso e ação do governo de Israel e de seu primeiro-ministro Netanyahu. Humilhante para Obama, mas é o preço dos milhões de dólares do lobby judaico nos EUA investidos na campanha do primeiro negro presidente dos norte-americanos e que carrega uma origem islâmica e árabe de família e no próprio nome: Barack Hussein Obama. Qualquer presidente, seja democrata e republicano, acabou compactuando com as regras e compromissos da cartilha israelense.

Na ONU os palestinos pedem que o Estado da Palestina seja admitido como membro de pleno direito. Hoje são mais de 130 países que já reconhecem esse Estado e têm embaixadas palestinas em seus países. Israel teve seu reconhecimento pela ONU e agora não admite que os palestinos tenham. Para ser encaminhado à votação na Assembleia Geral da ONU, o pedido dos palestinos precisa ser aprovado pelo Conselho de Segurança, ou seja, precisa de 9 votos dos 15 e que nenhum dos países com assento permanente no Conselho vete a proposta.

Como Obama já prometeu vetar, o pedido pode ser encaminhado à Assembleia Geral para que o Estado da Palestina seja admitido como membro observador e não mais como membro pleno. Israel rejeita as duas propostas, tal qual Obama, não querem ver um Estado palestino fazendo interpelações judiciais junto ao Tribunal Penal Internacional contra as ações israelenses de guerra e seus crimes cometidos nos territórios palestinos ocupados. Seria um Estado palestino negociando com um Estado israelense, de igual para igual no terreno jurídico, o que muito fortaleceria a posição dos palestinos. Seria Israel ocupando territórios de outro Estado, e ai o mesmo argumento usado quando Saddam Hussein invadiu o Kuwait em 1990, poderia ser usado contra Israel: qualquer país membro da ONU, ao ter suas fronteiras invadidas, poderá pedir as ações penais, econômicas e militares cabíveis.

A segunda fase da batalha palestina na ONU se aproxima: dia 11 de novembro o Conselho de Segurança decidirá e Obama poderá ser derrotado pela segunda vez. Ironia da história, mas foi Mahmud Abbas, presidente da OLP e da Autoridade Nacional Palestina, cercado pela máquina de guerra, política e econômica de Israel, aliado da maior potencia mundial, impôs ao chefe do império, Obama, uma derrota politica quando discursou na Assembleia Geral da ONU. O mundo apoiou o discurso e as reinvindicações dos palestinos e Obama se prestou a ser um mero papagaio da posição israelense, obrigado a repetir o que o mundo inteiro não esperava: a guerra continua contra os palestinos!

O presidente norte-americano sabe que a sua reeleição depende do lobby judeu, mas caso mude de posição e apoie os palestinos, o que realmente não se espera, seria surpreendido com uma avalancha de votos da comunidade árabe dos EUA como nunca tinha visto antes. Quem disse que os árabes não podem formar um lobby também?

Emir Mourad, Engenheiro e Diretor da FEPAL – Federação Árabe Palestina do Brasil

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