Iraque: ocupação transforma prosperidade em dependência

A saída do último contingente militar norte-americano do Iraque não apaga os crimes cometidos pelos invasores, que transformaram um país próspero e soberano numa nação enfraquecido e dependente.O derradeiro comboio militar norte-americano atravessou, domingo (18), a fronteira entre o Iraque e o Kuwait, emirado onde permanecerão milhares de tropas dos EUA. Impune fica a esmagadora maioria dos crimes cometidos durante a ocupação.

Invadido em 2003 na base de uma campanha de mentiras que colocava o país no conjunto de nações do “eixo do mal” e detentoras de “armas de destruição em massa”, no Iraque terá morrido cerca de 1 milhão de civis e pelo menos outros 4 milhões foram obrigados a abandonar as respectivas casas, ora para outro lugar no território, ora para países vizinhos.

O número de estropiados de guerra e dos que perecerão em resultado do contato com urânio empobrecido e químicos como o fósforo branco, ou fruto da contaminação da cadeia alimentar por aqueles e outros agentes tóxicos, é difícil de calcular.

A rede de serviços públicos que ainda não havia sucumbido a uma década de sanções impostas por Bush-pai, em 1991, foi arrasada pelo conflito levado a cabo por George W. Bush, o filho. O conjunto da população iraquiana deixou de ter acesso à saúde, à instrução e à cultura ou ao saneamento básico, como antes, e passou a recear o terror, o banditismo e a violência sectária que tomou conta das ruas.

Na hora da propaganda sobre a retirada, o presidente Barack Obama falou de “feitos extraordinários” e o atual secretário de Defesa norte-americano, Leon Panetta, de “um país livre e soberano”. Mas não pode ser considerado livre e soberano um país cujo principal recurso é explorado para avolumar o lucro de um punhado de multinacionais; cujo governo só se mantém mediante complexos acordos entre as facções político-confessionais dominantes e com o beneplácito dos invasores; onde as empresas estrangeiras e os altos dirigentes nacionais e forasteiros se escudam em exércitos privados compostos por dezenas de milhares de mercenários; no qual só a embaixada dos EUA em Bagdad alberga 16 mil “funcionários”.

Não podem ser considerados «feitos extraordinários» os genocídios levados a cabo em Fallujah, as torturas de Abu Grahib, as matanças de civis em Bagdad ou Haditha, nem a execução de antigos dirigentes com requintes bárbaros, só para referir os casos mais chocantes.

Custos

No balanço de quase nove anos de invasão e ocupação, é difícil falar em custos, mas só referindo alguns dos suportados pelo povo norte-americano, note-se que os dados oficiais indicam a perda de 4474 soldados e pelo menos 32 mil feridos e incapacitados permanentes.

Os EUA chegaram a manter no Iraque quase 200 mil soldados e mais de 500 bases militares, isto sem contar com as dezenas de milhares de homens e as centenas de instalações de retaguarda e apoio às operações no território.

Foi o próprio Obama quem admitiu que a factura direta é de mais de um bilhão de dólares. O Prêmio Nobel da Economia, Joseph Stiglitz, triplica aquele valor estimando os custos indiretos suportados pelo Pentágono e os fundos necessários nos próximos 50 anos (por exemplo para pagar tratamentos e pensões a veteranos arredados da vida ativa por incapacidade adquirida).

Se, em 2003, cerca de 70 por cento dos norte-americanos entrevistados eram favoráveis à guerra e apenas 25 por cento contra, hoje, afirma a CNN, 68 por cento são contra a guerra e apenas 29 por cento a favor, sendo que 67 por cento dos inquiridos considera igualmente que invadir e ocupar o Iraque não valeu a pena.

Com o abandono formal do Iraque, o imperialismo procura limpar a face, mas a verdade é que a sua imagem ficará gravada na memória dos iraquianos com a configuração que lhe deu os horrores cometidos durante a agressão.

Fonte: Jornal Avante

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