Socorro Gomes: Povo sírio repudia a guerra e anseia a paz

Leia a íntegra do pronunciamento da presidenta do Conselho Mundial da Paz (CMP) e do Cebrapaz, Socorro Gomes, feito no último domingo (18), na Reunião de Diálogo Nacional da Síria, em Teerã, capital da República Islâmica do Irã.

Agradeço o convite, que muito me honra como ativista brasileira de movimentos sociais pacifistas, para participar desta tão importante reunião convocada pelo governo da República Islâmica do Irã.

Sob a justa palavra de ordem “Violência não, democracia sim”, esta iniciativa pelo diálogo e a paz está destinada a repercutir positivamente no quadro político da região e do mundo, em uma demonstração clara sobre o papel pró-ativo em favor da paz mundial desempenhado pelo Irã e o Movimento dos Países Não Alinhados.

Comungamos com o governo iraniano e todos os que aqui se encontram que o diálogo é um dos mais importantes mecanismos para o entendimento, a solução de conflitos, a reconciliação nacional e para alcançar a paz. Os problemas políticos e sociais devem ser solucionados sem o recurso às armas e muito menos as intervenções estrangeiras. Por isto, saudamos todos os governos e as forças políticas sírias aqui presentes, que se predispõem a construir um diálogo nacional e soberano.

Do nosso longínquo país, acompanhamos com interesse os esforços que a República Islâmica do Irã vem fazendo, desde o início da crise na Síria, para favorecer a interrupção da violência e promover o diálogo nacional que corresponda ao objetivo de concretizar as legítimas aspirações do povo sírio.

A crise na Siria se torna cada dia mais complexa devido ao recrudescimento dos enfrentamentos internos e ao apoio crescente de atores externos aos bandos armados que praticam a violência no país.

Temos a plena convicção de que o povo sírio repudia a guerra e anseia a paz. Ao mesmo tempo, quer fazer valer sua vontade de viver soberanamente em um país democrático, com plenos direitos sociais, no qual o seu destino esteja em suas próprias mãos, sem a interferência ou a intervenção estrangeira.

Porém, sabemos que as aspirações democráticas do povo sírio nada têm a ver com as ações de grupos mercenários que estão tentando usar indevidamente o sentimento religioso e os problemas sociais com o objetivo de servir aos interesses de forças imperialistas e de seus aliados regionais.

É de nosso conhecimento que uma grande campanha internacional está em operação contra a Síria. Para atender a interesses diversos que vão desde a mudança na correlação de forças da geopolítica da região, a mesquinhos objetivos de saquear os recursos naturais do país, formou-se uma coalizão de potências imperialistas objetivando a derrubada do atual governo.

Os Estados Unidos e seus aliados pretendem fazer da crise na Síria mais um episódio da aplicação do plano de reestruturação do Oriente Médio, pelo qual visam a controlar os recursos energéticos e obter mais uma esfera de influência em uma região estratégica.

A imensa campanha midiática realizada a fim de criar pretextos para uma intervenção militar estrangeira na Síria é parte de um plano mais amplo do imperialismo estadunidense e europeu para redesenhar o mapa político do Oriente Médio de acordo com seus interesses, fortalecendo os regimes locais que os apoiam, bem como derrubando aqueles que se lhe contrapõem.

A Síria é hoje alvo de mercenários e de bandos armados, contratados e pagos para fomentar o terror e o caos no país. Isto de forma alguma levará a Síria a estabelecer uma democracia enraizada em seus princípios e valores nacionais. Ao contrário, poderá levar inclusive a uma fragmentação política do país e a guerras sectárias.

A política fomentada pelo imperialismo e por forças regionais retrógradas, apenas tem estimulado o ódio e o sectarismo político e religioso, em contraste com a história de um país sempre tolerante com a diversidade.

Somos solidários ao povo sírio e nos opomos frontalmente a qualquer tipo de intervenção militar estrangeira. Os exemplos recentes ocorridos nesta e em outras regiões do mundo demonstram que os resultados dessas intervenções são sempre traumáticos, com perdas humanas, prejuízos materiais e o sacrifício da soberania nacional.

Para as potências imperialistas a instituição da democracia, as liberdades individuais, os direitos humanos não passam de pretextos para derrubar governos que não se submetem às suas vontades e seus planos imperialistas.

Em nosso entendimento, um importante passo para a solução da crise na Síria seria que os países estrangeiros que financiam os bandos armados e mercenários parassem imediatamente com essa política. O destino do povo sírio deve ser definido unicamente por ele próprio, por suas instituições soberanas, e nunca por interesses externos.

Igualmente, é indispensável que cessem as ameaças de intervenção externa e que as grandes potências, nomeadamente os Estados Unidos e a União Europeia, retirem sua exigência de derrocar o governo vigente na Síria.

Confiamos inteiramente na capacidade de discernimento do povo sírio, na boa vontade das suas forças políticas, inclusive nas que fazem oposição legítima, democrática e baseada em sinceros propósitos, na capacidade dos seus movimentos sociais e na decisão do seu governo de empreender as medidas políticas, econômicas, sociais, jurídicas, e administrativas que correspondam aos anseios patrióticos da população. Auguramos que os entendimentos entre estas forças ilumine o caminho das reformas e da paz.

Consideramos que da parte da comunidade internacional, mormente da Organização das Nações Unidas, todos os esforços diplomáticos devem ser feitos para estimular o diálogo sírio. Nesse sentido, é necessário afastar as atitudes de confrontação, as políticas de sanções e toda e qualquer tentativa de isolamento internacional do governo sírio.

Nesse sentido, saudamos os governos da República Popular da China e da Federação Russa que, ao atuarem no âmbito do Conselho de Segurança, têm evitado a aprovação de resoluções que apenas piorariam o já complicado cenário sírio. Consideramos positivas e viáveis as propostas contidas no plano de pacificação encaminhado pelo enviado especial da ONU e da Liga Árabe para a Síria, Lakhdar Brahimi. Nenhum passo adiante poderá ser dado sem um cessar-fogo permanente. A ONU existe precisamente para promover a coexistência pacífica entre nações soberanas, assegurar o equilíbrio no mundo, garantir a aplicação das normas do Direito Internacional, dirimir os conflitos internacionais e promover a paz mundial, o que só se alcançará através do diálogo, da cooperação, de consistentes iniciativas diplomáticas e com a prevalência dos critérios da justiça.

Por estas razões, não nos parece justo que os Estados Unidos e alguns de seus aliados na região impulsionem a unificação das forças oposicionistas, não com objetivos de pacificação, mas como meio para mais confrontação, porquanto o fim perseguido é tão somente a derrocada do governo do presidente Bashar al-Assad, ou seja, fins agressivos. Esta tentativa de unificação da oposição aparece, assim, como algo articulado com uma cada vez mais clara ingerência imperialista no conflito e com a presença de milhares de mercenários estrangeiros que lutam contra as forças leais ao governo.

Penso que o que se deve estimular não é a unificação de um dos lados em confronto, mas a reconciliação nacional.

A pacificação da Síria será um passo importante para que o Oriente Médio torne-se uma região de paz.

Um dos mais importantes pressupostos para a paz na região é a solução definitiva da questão palestina. A época atual já não comporta políticas de agressão, colonialismo, limpezas étnicas e genocídio, como ocorre nesse território ocupado.

Ao augurar a paz para toda região do Oriente Médio, fazemos os melhores votos para que o povo palestino alcance a sua libertação, a constituição do seu Estado nacional, tendo como capital Jerusalém leste e o reconhecimento na ONU.

Igualmente, consideramos que a paz estável no Oriente Médio pressupõe a criação de uma zona livre de armas nucleares e que cessem todas as ameaças provenientes do imperialismo estadunidense e seus aliados contra o Irã, assim como que sejam suspensas as injustas sanções contra este país. O Irã tem direito a desenvolver seu programa nuclear com fins pacíficos.

Mais uma vez cumprimento todos os que estão aqui presentes, em especial as forças políticas sírias, para que novos e importantes passos sejam dados para garantir um futuro justo, próspero e soberano aos sírios, bem como a todas as nações do Oriente Médio, um futuro de Paz.

Reuniões como esta significam que há forças no mundo que lutam por soluções diplomáticas e políticas para os conflitos, forças que lutam pela paz. Entre estas forças está a República Islâmica do Irã, um flagrante contraste com o imperialismo estadunidense e seus aliados na região. Quando os povos do mundo se unem com os movimentos sociais e os governos da justiça, do progresso e da paz, temos diante de nós um chamado à boa luta, uma oportunidade de trilhar um caminho novo para a humanidade, em tudo diferente da ordem injusta imposta aos povos. Tudo isso são sinais de que o imperialismo não é invencível, pode ser derrotado e de que a paz é possível.

Muito obrigada,
Socorro Gomes

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