Mulheres ainda são usadas como armas de guerra, diz Socorro Gomes

Teve início nesta quarta-feira (24) e vai até a sexta-feira (25) a Conferência Nacional de Mulheres e Paz na Colômbia. O evento debate o papel das mulheres no processo de paz levado a cabo entre o governo colombiano e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) e conta com a participação de mais de 400 mulheres de Colômbia, Brasil, El Salvador, Espanha, Guatemala, Irlanda e Uganda.

Em comunicado publicado por ocasião do evento, a Delegação de Paz das Farc elogiou a iniciativa da Conferência e pontuou a preocupação a respeito da aprovação da realização de um referendo sem que, no entanto tenha ficado claro qual será a natureza da consulta. “Não obstante, é nosso maior desejo que a participação de todas vocês, do conjunto da sociedade, e em especial da mulher no processo de Diálogo se dê não delimitado à presença em um ou outro ponto em específico, mas que seu desenvolvimento, seu protagonismo, seja parte de todo o conjunto do desenvolvimento das conversações”, destaca o comunicado.

O texto ressaltou ainda o desejo das Farc de que sejam abertas as portas da discussão para todos os pontos da Agenda discutida pelas partes em Havana e reitera que têm feito um grande esforço para que “as vozes do povo cheguem até a Mesa dos Diálogos, com ênfase nas reivindicações e direitos dos setores mais excluídos, especialmente as mulheres”.

Para a presidenta do Centro Brasileiro de Solidariedade e Luta pela Paz (Cebrapaz), Socorro Gomes, que participa do evento, “as mulheres têm sido vitimadas de diferentes formas [neste conflito]. Especialmente as mais pobres e as que vivem no campo, são constantemente vítimas de violência seja dos militares, do narcotráfico ou dos grupos de paramilitares que destroem seus cultivos e seus lares. São milhares de assassinatos, muitos com enterros em covas coletivas que expressam o terror generalizado imposto a vilas e povoados”, denunciou.

E apontou ainda que “mulheres que exercem liderança no processo de paz como as senadoras Piedad Córdoba e Glória Inés Ramírez são constantemente ameaçadas, perseguidas e correm o risco iminente de serem assassinadas por grupos paramilitares e mesmo pelo Estado colombiano”.

A esse respeito, as Farc enfatizaram que a violência contra a mulher faz parte da violência estrutural que geralmente as classes exploradoras exercem contra o conjunto da sociedade. “Urge que o processo de paz em Havana abra as portas da participação ao conjunto da sociedade e, em especial, à mulher desde já”, sublinhou a guerrilha.

Em seu discurso, a ativista refletiu que “a representação política e a visibilidade das mulheres seguem como fatores pouco mencionados nos processos de paz” e lembrou que “como em todos os conflitos, a violência sexual à mulher é muitas vezes usada como arma de guerra”. Mencionando dados do Instituto Nacional de Medicina Legal y Ciências Forenses (INML), órgão do Estado colombiano, apontou que “em 2007 foram registrados 46,2 casos de violência sexual contra as mulheres a cada 100 mil habitantes, em um incremento de 65,9% com relação a 1997. Isto é notável principalmente em mulheres camponesas, muitas das quais negras e indígenas”, observou.

Conflito

Para Socorro, a solução para o conflito colombiano ultrapassa os limites do país e abrange todo o continente: “o atual processo da paz na Colômbia é um fator crucial para a paz e a estabilidade em nosso continente”. E enfatizou a importância da integração regional neste contexto: “vivenciamos um momento ímpar, de avanço no processo de integração entre nossos países latino-americanos e caribenhos, com experiências muito ricas de desenvolvimento e inclusão social”, ressaltando que espera, em breve, ver a “Colômbia integrada à nossa América”.

O governo colombiano, no entanto, vai na contramão deste processo e “optou por uma integração que vira as costas à América Latina”. Isso porque “junto com Peru, Chile e México, aderiu à Aliança do Pacífico e a tratados de livre-comércio com os Estados Unidos. Aceitando assim um papel de submissão que vem causando fortes estragos na economia do país. Uma consequência nefasta deste acordo é a Lei 9.70, que penaliza os agricultores por usarem suas sementes crioulas. A grande greve do setor agrário do país demonstra a insatisfação popular com esse tratado, no mesmo contexto em que se avançavam as negociações de paz entre o governo e a guerrilha”, ressaltou.

A Conferência Nacional de Mulheres e Paz é uma iniciativa das organizações de mulheres colombianas Casa de la Mujer, Ruta Pacífica de las Mujeres, Red Nacional de Mujeres, Mujeres por la Paz, Colectivo de Pensamiento y Acción Mujeres, Paz y Seguridad, Coalición 1325, Conferencia Nacional de Organizaciones Afrocolombianas, Iniciativa de Mujeres por la Paz (IMP) e Asociación Nacional de Mujeres Campesinas, Negras e Indígenas de Colombia (ANMUCIC).

Texto de Vanessa Silva, publicado originalmente no Portal Vermelho

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