Claudio Daniel: O flagelo das armas químicas, ontem e hoje

A imagem mais conhecida da Guerra do Vietnã é a fotografia de uma menina correndo nua com o corpo todo queimado pelo napalm. A divulgação de imagens como essa sensibilizou a opinião pública mundial, levando milhares de pessoas a se manifestarem nas principais cidades dos Estados Unidos e da Europa exigindo o fim da guerra.

Por Claudio Daniel*

“Eu sou o flagelo de Deus e a erva não crescerá
por onde o meu cavalo tiver passado”

— Átila, o Huno

Nas duas décadas do conflito, morreram cerca de 1,5 milhão de vietnamitas, em sua maioria civis, e a infra-estrutura urbana e industrial do país foi destruída pelos bombardeios norte-americanos, que também afetaram seriamente a produção agrícola, pelo emprego de agentes químicos que envenenaram as terras cultiváveis. Calcula-se que a quantidade de bombas despejadas pelos Estados Unidos no Vietnã seja superior ao total de bombas utilizadas em toda a Segunda Guerra Mundial.

Além das armas convencionais, as Forças Armadas norte-americanas fizeram amplo uso de armas químicas proibidas pela Convenção de Genebra como o napalm (bomba incendiária preparada à base de gasolina gelatinosa) e o agente laranja (mistura de herbicidas desfolhantes capazes de destruir as zonas agrícolas e de provocar doenças irreversíveis como o câncer, síndromes neurológicas e malformações congênitas. O agente laranja foi desenvolvido pela Monsanto, empresa de agricultura e biotecnologia norte-americana conhecida também pelo desenvolvimento de alimentos transgênicos consumidos no Brasil).

Entre 1961 e 1971, as forças norte-americanas despejaram 80 milhões de litros de herbicidas no Vietnã, causando danos irreparáveis à saúde de quase cinco milhões de homens, mulheres e crianças. A heroica resistência do povo vietnamita conseguiu derrotar e expulsar do país os invasores norte-americanos, mas a devastação causada no país ainda não foi superada: quarenta anos depois da guerra, a dioxina(1) produzida pelo agente laranja – que provoca doenças de pele, malformações genéticas, câncer e problemas neurológicos – continua biologicamente ativa, afetando milhares de crianças cujos pais foram expostos aos herbicidas.

Em 2005, a Associação Vietnamita do Agente Laranja moveu uma ação judicial contra as indústrias químicas norte-americanas responsáveis pela tragédia, mas o juiz federal Jack Weinstein não acolheu a ação, alegando cinicamente que “nada comprova que o agente laranja tenha causado as doenças a ele atribuídas”, principalmente pela “ausência de uma pesquisa em larga escala”. Os crimes do imperialismo norte-americano permanecem impunes.

Fósforo branco

O uso de armas químicas tem sido constante nos conflitos do Oriente Médio, em especial durante a guerra Irã-Iraque. Em 28 de junho de 1987, aviões iraquianos atacaram a cidade iraniana de Sardasht com gás mostarda, deixando dez civis mortos e 650 feridos. O Iraque também utilizou armas químicas contra os curdos, especialmente em 1988, durante a operação conhecida como Anfal, que levou à destruição de duas mil aldeias e ao assassinato de até cem mil civis curdos.

O arsenal químico do Iraque, aliás, foi um dos pretextos apresentados pelos Estados Unidos para a agressão a esse país árabe, em 2003, quando o governo iraquiano já tinha eliminado esse tipo de armamento de seu território, atendendo à Resolução 687 da ONU. Dez anos depois, a mesma alegação da “posse de armas de destruição em massa” foi utilizada pelos Estados Unidos contra a Síria, após um ataque químico realizado nas imediações de Damasco, com um tipo de arma que não faz parte do arsenal do Exército Árabe Sírio.

O governo de Bashar Al-Assad acusou os fundamentalistas islâmicos que lutam no país pelo ataque, preparado com o objetivo de justificar uma intervenção norte-americana em favor dos rebeldes, que vêm sofrendo repetidas derrotas militares, apesar do apoio financeiro, militar e logístico que recebem da Arábia Saudita. A intervenção da diplomacia russa, apoiada pelo Irã e pela China, conseguiu obter um acordo que impediu a agressão imperialista, em troca de um compromisso do governo sírio de eliminar todos os seus estoques de armas químicas.

O país que detém o maior arsenal de armas de destruição em massa no Oriente Médio, no entanto, nunca foi o Iraque, o Irã nem a Síria, mas o Estado de Israel, que possui centenas de ogivas nucleares, armas químicas e biológicas, muitas delas empregadas em ataques à Faixa de Gaza, Beirute e Damasco. As bombas de fósforo branco (artefatos incendiários que podem causar ferimentos terríveis ou morte por queimadura, inalação ou ingestão), por exemplo, foram utilizadas pelos sionistas em seus bombardeios no Líbano, em 2000.

As queimaduras causadas por esse tipo de arma acarretam um risco maior de mortalidade que outras formas de queimadura devido à absorção do fósforo pelo organismo, afetando o coração, fígado, rins e provocando, em alguns casos, a falência múltipla de órgãos. Outro tipo de armamento não-convencional utilizado por Israel, especialmente na Faixa de Gaza, são as bombas de fragmentação (artefato explosivo que libera projéteis ou fragmentos menores em alta velocidade e em todas as direções, com o objetivo de causar um grande número de vítimas, sobretudo crianças.

Esse tipo de armamento não é incluído na classificação das armas químicas, mas também é proibido por leis internacionais). A arma mais cruel usada pelos sionistas, no entanto, são as bombas de urânio empobrecido (consideradas pelos especialistas como um tipo de armamento nuclear), que provocam horríveis deformações nas vítimas, além de afetar outras gerações, por herança genética. Segundo Araf al Hidmi, diretor do único hospital palestino de Jerusalém Oriental, as forças sionistas usam “balas explosivas, gases tóxicos, havendo muitos indícios de que recorrem a urânio empobrecido”.

Além disso, prossegue, “os gases lacrimogêneos utilizados pelas forças israelenses contêm gases tóxicos que acarretam asfixia e envenenamento”, acrescentou, explicando que “provocaram a morte de muitas crianças e anciãos e abortos naturais”. O médico também acusou Israel de “impedir os feridos palestinos atingidos por esses disparos de fazer tratamento médico no estrangeiro para que esses crimes não sejam descobertos”.

Durante a segunda guerra do Iraque, os Estados Unidos despejaram 1.700 toneladas de bombas de urânio empobrecido no país árabe, com desdobramentos até os dias de hoje: apenas em Falluja, uma das cidades mais castigadas pelos imperialistas, devido à sua heroica resistência, cerca de 25% dos recém-nascidos apresentam graves anomalias físicas. A incidência de câncer em Babil, área localizada no sul de Bagdá, aumentou de 500 casos em 2004 para 9.000 casos em 2009. Infelizmente, ainda estamos longe de termos informações mais detalhadas sobre o custo humano provocado por esse tipo de armamento no Iraque, pois, conforme escreveu o jornalista Renato Pompeu em seu blog, a Organização Mundial da Saúde vetou, em 2004 e depois em 2012, a publicação de estudos a respeito do tema, e em especial sobre as malmorfações registradas em recém-nascidos. Este é o triste legado que o imperialismo norte-americano e o sionismo deixaram para as futuras gerações de iraquianos, libaneses e palestinos.

E o Brasil?

É possível perguntar: o que o Brasil tem a ver com essa tragédia? Qual é a importância de discutirmos a questão das armas químicas, se não estamos envolvidos em nenhum conflito? Na verdade, o Brasil conheceu, em passado recente, o uso de armas químicas, durante a Guerrilha do Araguaia, na década de 1970, quando a ditadura militar utilizou bombas de napalm na campanha militar desenvolvida no sul do Pará, conforme relato de Claudio Fonteles, da Comissão Nacional da Verdade.

Em 2005, o jornalista e escritor Luiz Maklouf Carvalho divulgou um artigo escrito pelo coronel Álvaro de Souza Pinheiro que confirmava o uso do napalm na Serra das Andorinhas, na região de São Geraldo do Araguaia. Nos dias de hoje, esse tipo de armamento continua sendo utilizado na Colômbia – com quem o Brasil faz fronteira e compartilha recursos hídricos – no combate à guerrilha das FARC, com consequências ainda desconhecidas no ecossistema da região, assunto que não despertou o interesse da imprensa.

A indústria bélica brasileira, por sua vez, continua produzindo e exportando bombas de fragmentação para países como Zimbábue e Arábia Saudita, o que em 2010 gerou uma receita de 70 milhões de dólares. O debate sobre o consumo no Brasil de alimentos transgênicos produzidos pela Monsanto – mesma empresa responsável pela produção do agente laranja despejado no Vietnã – também está relacionado com o tema, inclusive pelas denúncias de esse tipo de alimento pode ter efeitos cancerígenos na população. O Cebrapaz acredita que está na hora de as entidades sindicais e populares brasileiras realizarem um amplo debate sobre o assunto, ainda tão pouco conhecido em nosso país.

(1) As concentrações dessa substância encontradas em regiões do Vietnã superam em 400 vezes o limiar de toxicidade, conforme o Canada Hatfield Consultants.

*Claudio Daniel é poeta, professor de Literatura Portuguesa na UNIP e integrante do Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz (Cebrapaz).

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