Socorro Gomes analisa a luta pela paz e o contexto internacional em reunião do CMP na Índia

O Conselho Mundial da Paz (CMP) teve o primeiro dia de reunião entre os membros do Comitê Executivo em Goa, na Índia, nesta quarta-feira (26/11). Os representantes de diversos países prosseguem nesta quinta-feira (27) com os debates sobre as atuais e recrudescidas ameaças do imperialismo e os desafios da sua luta mundial pela paz. A presidenta do CMP, Socorro Gomes, abordou as principais ameaças impostas pelas potências, mas também apelou ao fortalecimento da resistência dos povos. Leia a íntegra do discurso.

No contexto dos 65 anos do Conselho Mundial da Paz, os membros do Comitê Executivo reúnem-se na Índia para debater os rumos do movimento internacional e a oposição ao imperialismo, que impõe cada vez mais graves ameaças ao planeta. Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, momento em que nasceu o CMP, novos desafios surgiram na sua luta contra a guerra, a militarização e a opressão dos povos.

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A avaliação do percurso histórico do Conselho e das entidades que o compõem é crucial para os debates realizados na Índia, até a sexta-feira (28). Por isso, Socorro Gomes, também presidenta do Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz (Cebrapaz), retomou tanto as ameaças apresentadas pelo imperialismo ao longo da história e atualmente (principalmente em suas agudas fases de crise estrutural e recorrente), quanto a resistência oferecida pelos povos em sua luta pela paz, a soberania e a liberdade.

Leia a seguir a íntegra do discurso político de Socorro Gomes sobre o atual contexto internacional e sobre as atividades do Conselho Mundial da Paz, em busca do fortalecimento da sua luta anti-imperialista:

Queridos camaradas e amigos;

É um prazer reunir-me mais uma vez com vocês, nos marcos do Comitê Executivo do Conselho Mundial da Paz, num quadro internacional preocupante, uma situação instável e carregada de ameaças aos povos e nações.

Agradeço ao povo da Índia pela acolhida e à AIPSO pela organização da nossa reunião, possibilitando o debate urgente sobre a atual conjuntura, o que é fundamental para o nosso posicionamento claro e inequívoco sobre as ameaças que enfrentamos e sobre a luta que travamos.

Como afirmamos reiteradamente, a luta anti-imperialista, pela paz e a soberania dos povos tem se mostrado imprescindível. A crise do capitalismo em que o mundo está mergulhado há sete anos revelou com ainda maior força o caráter agressivo do imperialismo, ainda mais deletério devido à falência estrutural do seu modelo, baseado na exploração e na opressão dos povos e dos trabalhadores. Enquanto lutamos pela paz e por um mundo mais justo, democrático e com progresso social, as potências imperialistas intensificam as ameaças em todo o mundo e nos impõem novos desafios em nossa luta.

As ameaças recrudescem; as potências ocidentais debatem-se para superar o novo episódio de uma crise cíclica, para enterrar as evidências de um modelo fadado ao colapso, baseado na exploração. O retrocesso é notável para a maior parte da população mundial, que resiste às agressões das elites políticas e econômicas sustentadas pelo capital financeiro. Estas, em detrimento das necessidades vitais da grande maioria da humanidade, impõem os altos custos da sua política de dominação e guerra aos já depauperados trabalhadores de todo o mundo, inclusive os das chamadas economias centrais.

Sob a lógica da dominação imperialista, tentando debalde resolver a crise sistêmica através da força bruta, os conflitos e as guerras são disseminados. Nações soberanas são destruídas. Presidentes, depostos e assassinados. Milhares de civis são dizimados na ofensiva belicosa, liderada pelos EUA, em busca da ampliação de sua esfera de domínio e influência, transformando países em alvos do saque e exploração de seus recursos naturais e energéticos, como sempre à custa das soberanias nacionais, da paz e da liberdade.

Por isso, as reflexões que os movimentos sociais têm feito em todo o mundo sobre o centenário da Primeira Guerra Mundial e os 75 anos da Segunda Guerra têm grande significado e ensinamentos necessários para enfrentarmos as ameaças e agressões imperialistas, que têm se agravado, com o uso do grande aparato tecnológico militar, acentuando sua característica essencial de principal inimiga do progresso social e da Paz entre povos e nações.

Quando as potências imperialistas europeias depararam-se com o esgotamento do seu sistema de exploração, no início do século 20, decidiram tentar calar as vozes daqueles valentes defensores da paz e de um modelo social mais justo para garantir, através da guerra, a exploração dos recursos de outros povos, através do colonialismo, da subjugação, das invasões e das ocupações militares. Naquele momento, o imperialismo estadunidense já se desenvolvia, primeiro para estender seus tentáculos sobre a América Central e do Sul e depois para se afirmar, progressivamente, como a polícia do mundo, enquanto os arquitetos da política externa imperialista promoveram o conceito torpe da supremacia dos EUA.

A expansão dos ideais do imperialismo para a formatação do mundo se acelerou a partir da Segunda Guerra Mundial. Ao mesmo tempo em que se construía, a duras penas, a Organização das Nações Unidas, com o propósito de evitar a guerra e garantir a paz, os Estados Unidos e seus aliados europeus construíam a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), inaugurando oficialmente o período chamado Guerra Fria. Mais uma fase sombria da história foi, assim, lançada sobre os povos.

Novos pretextos foram usados para garantir não só a sobrevivência desta máquina de guerra, mas seu fortalecimento e expansão. Além das ameaças que a aliança nos impõe, com milhares de bases militares disseminadas pelos territórios de outras nações e as frotas da marinha de guerra que nos cercam, o imperialismo também realiza alianças deletérias com grupos criminosos, nazifascistas, que têm devastado regiões inteiras, deixando um rastro de horror e morte, como fizeram com o Iraque, Líbia e fazem na nação árabe síria.

O mesmo vemos na Ucrânia, onde os grupos que incendiaram as ruas foram ajudados pelas potências ocidentais a tomar o governo, lançando uma operação militar contra civis no leste e abrindo as portas para o avanço da Otan, em provocação direta à Rússia. Como sabemos, em sua Cúpula no País de Gales, em setembro, após fortalecerem os grupos extremistas no Leste europeu e no Oriente Médio, os líderes da aliança usaram esta mesma ameaça como pretexto para garantir maior orçamento e maior “robustez” à sua máquina de guerra, aumentando efetivos militares e preparando-os para a “resposta imediata” a crises em que lhes interessar interferir, muitas vezes provocadas por sua própria ingerência.

Por isso, camaradas e amigos, neste ano, o CMP marcou novamente a sua firme oposição à existência desta aliança belicosa, por exemplo, com o Dia Global de Ação contra a OTAN, em que vários movimentos voltaram a exigir a sua dissolução. Deve continuar constante a nossa denúncia dos vultuosos gastos militares que sustentam esta aliança imperialista em detrimento do progresso humano e dos direitos sociais dos povos, enquanto impõem a outras nações a sua ameaça, suas invasões e suas provocações militares.

Num impressionante contraste, enquanto os valentes médicos cubanos enfrentam ameaças gravíssimas aos povos como a disseminação do vírus Ebola, na África e além, a OTAN terá um orçamento ainda mais elevado, em relação ao 1 trilhão de dólares em 2013, segundo seus líderes reunidos em Gales.

As prioridades são visivelmente contraditórias e hipócritas: enquanto invasões militares que só têm potencial destruidor são apresentadas como “humanitárias”, as ameaças mais essenciais à humanidade, como a miséria, as enfermidades, a fome e a degradação ambiental são negligenciadas pelas grandes potências. O orçamento militar não apenas da aliança, mas principalmente dos países membros mais afetados pela crise internacional, será aumentado à revelia dos apelos populares contra o investimento em armas, pela defesa dos salários, dos direitos sociais e dos empregos.

Na América Latina e Caribe, denunciamos a militarização durante o seminário internacional em Guantânamo, em novembro de 2013, onde voltamos a exigir a eliminação das bases militares estrangeiras e saudamos com alegria o anúncio de uma região de Paz, livre das armas nucleares, pelos líderes da CELAC, no início de 2014. No mesmo sentido, foi importantíssima a contribuição dos parlamentares cipriotas, que aprovaram em outubro a resolução por um Oriente Médio sem armas de destruição em massa e pelo compromisso com a Resolução 68/32, aprovada pela Assembleia Geral da ONU em dezembro de 2013. Trata-se de um apelo ao qual devemos nos somar com total empenho, pelo início imediato das negociações na Conferência sobre o Desarmamento a nível global, com a conclusão de um Tratado mais abrangente pela proibição completa e destruição de todas as armas nucleares. Lembramos, por isso, que não apenas o aliado mais fiel do imperialismo no Oriente Médio, o sionismo israelense, possui centenas de ogivas não declaradas, como também a Turquia abriga arsenal nuclear do imperialismo, colocando em risco todos os povos da região.

Camaradas e amigos,

Nossa história, também ameaçada pelo revisionismo e pela propaganda das potências ocidentais contra aqueles que não se renderam aos seus planos, precisa ser debatida para trazermos ao presente as lições de eventos em que a luta pela paz e por justiça foi combatida com repressão e perseguição. Nossos heróis e sua resistência devem servir de libelo acusatório, como a força que nos moverá em nossa própria luta contra a guerra e contra o imperialismo, enfrentando desafios inimagináveis, como o renascimento do fascismo e das forças pró-imperialistas reacionárias.

Na América Latina, tentamos construir um processo de avanços democráticos, defesa da independência nacional e conquistas sociais, com uma nova agenda progressista de desenvolvimento nacional e de integração regional, mas as ameaças e os intentos golpistas ainda não foram superados.

Cresce a importância do apoio e da solidariedade ao povo venezuelano que vem sofrendo um incessante processo de sabotagem contra a sua República Bolivariana, vítima de constantes ataques à economia nacional, com o objetivo de destruir os avanços conquistados e retomar o controle dos seus recursos energéticos. Também são cruciais o apoio e a solidariedade ao povo colombiano, que enfrenta desafios preocupantes em seus diálogos de paz, buscando encerrar um conflito armado e estrutural e avançar num processo de construção de uma paz justa e democrática.

Sabemos, companheiras e companheiros, que as ameaças que as potências alegam combater foram criadas por elas mesmas. Seja através das intervenções militares e ingerências que deliberadamente desestabilizam nações ou regiões inteiras, seja através do financiamento e do respaldo direto a grupos específicos que disseminam o terror, como meras ferramentas para a criação de turbulências que visam derrubar governos contrários à dominação imperialista. Foi assim no Iraque e é assim na Síria, onde o povo enfrenta, há quase quatro anos, a disseminação de uma horda terrorista que também cruzou fronteiras, com apoio direto das monarquias fantoches.

Não houve interrupções na história recente da ingerência imperialista no Oriente Médio. Na promoção de uma política militarista para supostamente “derrotar o terrorismo” – ou “geri-lo” – os EUA lideram uma aliança duradoura contra os povos árabes e o persa, na tentativa de dominá-los e reformatar o Oriente Médio como lhes convém. O projeto não é recente, mas a brutalidade disseminada e os resultados de uma longa cadeia de guerras, golpes e ingerência de bastidor são assustadores, mais cruéis do que nunca e mais ameaçadores para os povos da região e do mundo. Em 2006, quando Israel havia invadido o Líbano, a então secretária de Estado norte-americana, Condoleezza Rice, disse em traços claros qual é a perspectiva dos EUA para o Oriente Médio, que enfrentava, segundo ela, as “dores do parto”: a reformatação através da catástrofe.

Naquele momento, condenávamos a política agressora do governo de George W. Bush, que havia invadido e ocupado o Iraque e o Afeganistão, dando guarida e definindo os contornos do que viriam a ser os novos “grupos extremistas” que hoje devastam a região e infligem nova tragédia aos povos. Mais uma vez, a reposta do imperialismo é a ofensiva militar. O criador e suas criaturas usam o terror sem limites para impor seus vis desígnios.

Por isso, companheiras e companheiros,

Denunciamos veementemente a intensificação da agressão e o aumento da escalada militarista, promovida pelo imperialismo, sob o pretexto de lidar com uma grave ameaça, o chamado Estado Islâmico, ou a milícia chamada Estado Islâmico do Iraque e do Levante (EIIL), que ele próprio gestou. A denúncia da ingerência e da agressão é contínua e se faz cada vez mais necessária uma vez que, ao mesmo tempo em que condenamos enfaticamente o terrorismo e os ataques aos povos da região por grupos como o EIIL, rechaçamos o ambiente propício criado e o papel direto do imperialismo na concepção e sustentação da ameaça que agora ele diz combater, impondo mais violência e mais sofrimento aos povos.

Além disso, neste que foi estabelecido pela ONU como o Ano de Solidariedade Internacional com a Palestina, vimos o seu povo novamente martirizado pelo imperialismo israelense com o apoio cúmplice dos EUA e a negligência das potências ocidentais. Os palestinos da Faixa de Gaza e da Cisjordânia voltaram a ser vítimas de um dos vários episódios do seu genocídio, principalmente através de duas “ofensivas militares” e do aprofundamento da política de ocupação, desapropriação e expulsão, com a expansão das colônias criminosas de Israel nas terras palestinas e as mais variadas violações dos direitos humanos dos palestinos, aos quais o governo sionista israelense impõe o Apartheid efetivo e a opressão generalizada. Em todo o mundo, manifestações massivas dos cidadãos exigiram dos seus governos um posicionamento claro contra os crimes de guerra perpetrados pelos líderes israelenses e a sua política genocida. O CMP esteve diretamente envolvido nessas ações, seja em visitas de solidariedade ou em manifestações em vários países, e afirmou de forma inequívoca a sua solidariedade aos palestinos, exigindo o fim da ocupação, o fim da impunidade israelense e o reconhecimento do Estado da Palestina, livre e soberano.

Em consonância com as importantes ações e debates que realizamos, desde a lembrança dos 15 anos dos bombardeios da Otan contra a antiga Iugoslávia, os 75 anos da ocupação nazista de Praga, assim como as missões de solidariedade, conferências e manifestações diversas, é necessário nosso posicionamento claro, fruto do debate coletivo, que identifique as mais graves ameaças imperialistas. Precisamos ampliar nossa capacidade de mobilização e de articulação dos diversos segmentos do povo de cada país na luta pela Paz, com vistas a fortalecer movimentos amplos capazes de barrar os criminosos intentos imperialistas.

Devemos reafirmar nossas bandeiras comuns com declarações firmes e um programa de ações sobre as causas centrais da nossa luta, contra as armas de destruição em massa, pelo fim da ingerência imperialista e pelo respeito à soberania dos povos, pela solução pacífica dos conflitos, pela dissolução da OTAN e a eliminação das bases militares estrangeiras, pelo reconhecimento do Estado livre e soberano da Palestina, em apoio ao processo de paz na Colômbia, pelo fim do bloqueio a Cuba e a libertação dos heróis cubanos antiterroristas, por um sistema internacional mais justo e representativo e o fim das políticas agressivas de arrocho que miram diretamente nos trabalhadores.

O CMP precisa se fortalecer para enfrentar os desafios mais brutais impostos pelo imperialismo aos povos!

Muito obrigada,
Socorro Gomes

26/11/2014

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