Na Turquia, Conselho Mundial da Paz debate prioridades e fortalecimento da luta anti-imperialista

O Conselho Mundial da Paz (CMP) realizou importantes eventos entre 18 e 21 de junho em Istambul, Turquia. As reuniões debruçaram-se sobre desafios enfrentados pelo movimento anti-imperialista, como a crise internacional, a militarização, as armas nucleares e a necessidade de fortalecimento da luta pela paz.

Organizadas pela Associação de Paz da Turquia, uma das quase 100 entidades que integram o CMP, as reuniões da Região Oriente Médio e da Região Europa da organização, seguidas pela reunião do Secretariado, focaram em temas essenciais para os rumos do conselho, no sentido do fortalecimento e da maior abrangência das atividades da luta pela paz e da solidariedade internacional.

Os participantes, representantes das entidades integrantes do Secretariado e de outras organizações convidadas, discutiram objetivos comuns de elevada urgência para o fortalecimento do CMP em suas ações de solidariedade, com o foco para as campanhas contra as armas nucleares, pelo desmantelamento da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) e pela eliminação das bases militares estrangeiras, espalhadas pelo mundo como reflexo das doutrinas estadunidenses de extensão de sua presença no mundo.

O Apelo de Estocolmo, documento elaborado ainda no nascimento do CMP, em 1950, completa 65 anos ainda marcado pela atualidade. O documento, assinado por mais de 300 milhões de pessoas para exigir a abolição das armas nucleares, revela-se atual no momento em que a Conferência de Revisão do Tratado de Não Proliferação Nuclear, encerrada em maio, não resultou em um avanço para além dos insuficientes compromissos pela redução do arsenal mundial. O impedimento foi essencialmente provocado pelo veto estadunidense (impulsionado por Israel) à proposta de resolução que definia o Oriente Médio como zona livre de armas nucleares – o que colocaria em evidência o programa nuclear secreto de Israel, que possui cerca de 80 ogivas não declaradas, de acordo com o Centro Internacional de Pesquisas sobre a Paz de Estocolmo (Sipri).

Socorro abordou diversos dos desafios prementes no atual contexto de agravamento da militarização e das tensões com sinais claros da ascensão do fascismo, das ameaças aos processos democráticos na Venezuela, Argentina, Equador e Brasil e da ingerência imperialista ainda provocando devastadoras consequências na Síria, na Ucrânia e em diversos países da África, palco de um agressivo neocolonialismo.Este foi um dos pontos ressaltados pela presidenta do CMP, Socorro Gomes, durante seu discurso político.

Socorro colocou ênfase sobre os elevados gastos militares em todo o mundo, com destaque para o estadunidense, o saudita e o da própria Otan, que definiu, em sua Cúpula de 2014 no País de Gales, que todos os seus membros deveriam destinar 2% dos seus PIB ao setor militar. A exigência, resultado de uma pressão dos EUA para que seus aliados “invistam mais na segurança comum”, afeta até mesmo países em crise onde os trabalhadores são as principais vítimas de agressivas políticas de arrocho determinadas por “credores internacionais”.

pafilis istambulO secretário-geral Thanassis Pafilis (Grécia) pontuou os ataques característicos de um sistema imperialista assentado no capitalismo agressivo contra os povos e trabalhadores. Para Pafilis, a situação na Grécia e outros países europeus impactados pela crise sistêmica internacional, ao mesmo tempo que revela as prioridades contrárias à vontade popular e aos direitos sociais, revela também uma agenda de controle e ameaça para a manutenção de espaços de hegemonia e dominação. Por isso, a análise do atual contexto internacional, para o secretário-geral, deve necessariamente passar pela compreensão do caráter sistêmico da crise e de um modelo que só pode ter esses resultados de exploração e ataque contra os povos e trabalhadores, o que também deve ser prioritário na agenda de denúncias do movimento pela paz.

ilda istambulA coordenadora da Região Europa, Ilda Figueiredo, ressaltou a urgência da campanha contra a Otan, não só devido à já patente política de expansão para abranger, com uma política belicosa, cada vez mais partes do mundo, mas também pela iminência do maior exercício de guerra desde a chamada Guerra Fria, de setembro a novembro deste ano. Ilda, que preside a direção do Conselho Português pela Paz e Cooperação (CPPC), enfatizou, entre outros pontos, sobre a escalada da agressividade da Otan, que realizará os exercícios, com armamentos pesados, tanques, navios de guerra e caça, principalmente na Espanha, em Portugal e na Itália, sobretudo no Mar Negro e no Mediterrâneo. Para a coordenadora regional, também é especialmente urgente para o CMP abordar a situação dos imigrantes, vítimas de grandes tragédias humanitárias em travessias inseguras até a Europa, pelo Mediterrâneo. São sobretudo vítimas de um sistema de exploração e de políticas agressivas do imperialismo que atinge diretamente seus países, causando grande instabilidade, insegurança e condições extremas que levam à migração precária, ressaltou Ilda.

Na reunião do Oriente Médio, a situação na Síria, que ainda enfrenta a brutalidade do terrorismo e as investidas imperialistas contra o governo; os criminosos bombardeios contra o Iêmen e a permanente questão da Palestina, onde a ocupação israelense continua determinando os obstáculos à efetivação de um Estado soberano palestino. Além disso, a escalada da violência e o papel do sionismo israelense nas tensões regionais – em todo o Oriente Médio – ficou enfatizado.

cmp istambul

Importantes pontos foram levantados pelas oito organizações do Secretariado representados na reunião (de Cuba, Portugal, Brasil, Chipre, Grécia, Palestina, Estados Unidos e Nepal). Campanhas pelo desmantelamento da Otan, pela abolição das armas nucleares e pela eliminação das bases militares foram definidas como prioritárias. Além disso, abordou-se o 4º Seminário Internacional pela Paz e a Abolição das Bases Militares Estrangeiras, que será realizada em novembro, em Guantânamo.

Foram definidas a solidariedade do CMP ao povo nepalês, que trabalha pela reconstrução após o devastador terremoto; o apoio ao povo cubano na retomada das relações com os EUA e a continuidade da luta pelo fim do bloqueio estadunidense contra Cuba; o respaldo à luta do povo palestino pela responsabilização dos líderes israelenses por sucessivos e permanentes crimes de guerra; à causa do povo saaraui pelo fim da ocupação marroquina, entre outras prioridades da luta pela paz e anti-imperialista, contra a dominação dos povos e por relações internacionais mais justas.

Membros do CMP também foram convidados para falar sobre a agenda de debates do Conselho num evento público no Centro Cultural Nazim Hikmet, com uma expressiva audiência que também assistiu a uma apresentação da Associação de Paz da Turquia sobre o papel do país no conflito na vizinha Síria, em aliança com o imperalismo e a agenda desestabilizadora para a região.

Leia o discurso da presidenta do CMP, Socorro Gomes, na reunião do Secretariado:

Queridas companheiras, queridos companheiros,

A reunião de Istambul do Secretariado do Conselho Mundial realiza-se em meio a uma situação internacional marcada por graves tensões e ameaças, instabilidade e incertezas.  O aprofundamento da crise do sistema capitalista, com suas consequências sociais negativas para os trabalhadores e povos, as contradições de classe, os conflitos geopolíticos, as rivalidades entre grandes potências e blocos caracterizam em traços gerais a situação. Está em curso um importante realinhamento de forças em que se salienta o declínio relativo dos EUA, a ascensão da China e dos BRICS. Por toda a parte os povos resistem e lutam e conquistam vitórias parciais em seus esforços pela paz, a democracia, a soberania nacional e a justiça social.

Não obstante a luta pela paz e por um novo equilíbrio de forças no mundo, são cada vez mais presentes as agressões do imperialismo a todos os que não se submetem aos seus ditames e é real a ameaça de guerra. Setenta anos depois do triunfo das forças democráticas sobre o nazi-fascismo e do final da Segunda Guerra Mundial – que celebramos com importantes atos– mais uma vez reemergem no próprio centro da Europa forças fascistas instrumentalizadas pelo imperialismo estadunidense e a União Europeia. É o que demonstram os acontecimentos na Ucrânia, onde as potências imperialistas fomentaram um golpe de Estado e provocaram conflitos, com o propósito de transformar o país numa plataforma de ataque contra a Rússia. 

Realizamos esta nossa reunião, animados pela convicção de que uma nova catástrofe não é inevitável, desde que os povos se unam e mobilizem e consigam soerguer um amplo movimento anti-imperialista e solidário, uma frente ampla pela paz, a prosperidade de todas as nações e a democracia nas relações internacionais. 

Temos razões para sermos otimistas. No período recente, o Conselho Mundial da Paz realizou importantes reuniões regionais. Cito aqui algumas iniciativas que dizem muito sobre a essência de nossa luta.

Em março de 2014, participamos na conferência “Paz Global contra imperialismo e o intervencionismo global”, organizada pelo Fórum de Belgrado por ocasião dos 15 anos desde os bombardeios criminosos da OTAN contra a antiga Iugoslávia. 

Destacamos a participação do CMP nos eventos que marcaram os 75 anos do início da Segunda Guerra Mundial e da ocupação nazista de Praga, em encontro na República Tcheca, e as celebrações do 70º aniversário do triunfo dos povos contra o nazi-fascismo, um grande evento em Moscou, em maio último. Em ambas as ocasiões, enfatizamos a necessidade da união e do fortalecimento da solidariedade internacional na luta anti-imperialista e para angariar maior apoio contra a guerra.  Reagimos à militarização do planeta e reafirmamos que continuamos lutando por um mundo de progresso, cooperação e solidariedade internacional, baseado no respeito a autodeterminação dos povos.

Foi muito relevante a participação do CMP na delegação de observação eleitoral na Síria, país agredido pelo terrorismo e pelas potências imperialistas. Ali constatamos mais uma vez que o povo sírio continua defendendo-se heroicamente dos ataques criminosos das maiores potências do planeta e seus aliados na região, que deixaram o país destroçado. As eleições demonstraram a disposição do povo sírio para defender seu país, sua soberania e seu direito a decidir sobre seu próprio destino, assim como para encontrar a justa solução para o conflito em que está mergulhado, optando pelo diálogo e a diplomacia. 

No ano passado, realizamos também diversas atividades em diferentes países a partir do apelo por um Dia Global de Ação contra a OTAN, que completara em abril 65 anos de ameaças e agressões aos povos. Demos novo impulso à nossa denúncia incisiva e permanente contra esta máquina de guerra, inimiga dos povos e da paz.

A reunião do Comitê Executivo do CMP, realizada em novembro de 2014, em Goa, Índia, sob os auspícios da Aipso, e que marcou a comemoração dos 65 anos do CMP, foi um fato importante das nossas atividades no período recente. Relembro aqui que o comunicado final definiu como prioridades nossas ações pelo fortalecimento do movimento pela paz em todo o mundo, ampliando nossas frentes e atraindo amigos para a luta pela abolição das armas nucleares, pela eliminação das bases militares estrangeiras, pelo desmantelamento da OTAN pelo reconhecimento do Estado independente da Palestina, entre outras pautas essenciais.

Em fevereiro deste ano, o CMP participou da missão de solidariedade à Venezuela organizada pela FMJD e pelo Comitê de Solidariedade Internacional Venezuelano (Cosi), com o nosso apoio. Na ocasião, também se realizou a Tribuna Anti-Imperialista. Os movimentos sociais e personalidades ilustres solidários ao povo venezuelano na defesa da sua revolução bolivariana têm claro o que está em jogo. Acompanhamos com atenção a transformação não apenas da Venezuela desde a chegada do companheiro Hugo Chávez ao governo da nação, mas de toda a América Latina.

Também na América Latina, participamos de 9 a 11 de abril deste ano da Cúpula dos Povos, no Panamá, foro alternativo à Cúpula das Américas entre os chefes de Estado dos 35 membros da OEA. Temas como as ameaças dos Estados Unidos contra a América Latina e o Caribe, com mais de 70 bases militares espalhadas pelo continente, assim como a ingerência nos processos políticos da Venezuela e de Cuba estiveram na discussão, que também abordou a empreitada dos povos por desenvolvimento com justiça social e a construção de um modelo alternativo de relações solidárias e soberanas.

Há duas semanas, o CMP levou sua solidariedade ao povo colombiano, ao participar do Segundo Fórum pela Paz, que reuniu cerca de 1000 pessoas do continente latino-americano e de outras regiões, onde se reafirmou o compromisso de respaldar os diálogos para a construção da paz na Colômbia, com justiça social.

Companheiras e companheiros,

A retórica militarista dos Estados Unidos e a estratégia de cercar a Rússia com a concentração de tropas e armamentos da Otan na Europa estão entre as principais ameaças atuais à paz e à segurança internacional.

Segundo notícias divulgadas pelos meios de comunicação, o Pentágono planeja deslocar para a Europa Oriental armamentos pesados em quantidade suficiente para supostamente “conter qualquer agressão russa”.

Com um arsenal permanente baseado em territórios de países aliados no norte, centro e sul da Europa, a Otan, sob o comando dos Estados Unidos, prepara novas manobras militares permanentes para o adestramento de forças de rápido deslocamento.

A Força Aérea estadunidense prepara o envio para a região de caças F-22 Raptor, de última geração, para completar a blindagem armamentista em torno da Rússia.

Regularmente, aviões de combate dos Estados Unidos sobrevoam o espaço aéreo próximo às fronteiras russas no Báltico, acompanhados de meios terrestres e navais em exercícios conjuntos com os aliados, em uma intensidade que pode ser comparada aos piores momentos da guerra fria contra a antiga União Soviética.

Recentemente, a chancelaria britânica manifestou a disposição de acolher em seu território mísseis estadunidenses, com ogivas nucleares, sob o pretexto de contrapor-se a Moscou.

Segundo notícias divulgadas pelo jornal The New York Times, no último dia 13, o Pentágono tenciona posicionar armamentos pesados (tanques, canhões etc.) e 5 mil soldados na Lituânia, Letônia, Estônia, Polônia, Romênia, Bulgária e Hungria.

Enquanto Washington faz saber que não exclui instalar na Europa mísseis nucleares com base terrestre, o governo de Kiev anuncia que poderiam ser instalados na Ucrânia mísseis interceptores dos Estados Unidos e da Otan, análogos aos da Polônia e da Romênia.

Os comandos e bases dos Estados Unidos e da Otan estão em plena atividade para preparar a Trident Juncture 2015 (TJ15), “o maior exercício militar da Otan desde o fim da guerra fria”.

Este exercício militar será realizado na Itália, na Espanha e em Portugal, de 28 de setembro a 6 de novembro, com unidades terrestres, aéreas e navais e com forças especiais de 33 países (28 da Otan e mais cinco aliados): mais de 35 mil homens, 200 aeronaves, 50 navios de guerra. Participarão também as indústrias militares de 15 países para avaliar de que outras armas a Otan necessita. 

O proclamado objetivo desse exercício militar é testar a “força de resposta” (30 mil efetivos), sobretudo a sua “força de ponta” de altíssima prontidão operacional (5 mil efetivos).

Estas manobras se inscrevem no marco da ofensiva militarista e intervencionista ratificada na última cúpula da Aliança Atlântica no País de Gales.

A produção de artefatos de destruição em massa, as novas tecnologias militares e o aumento das despesas militares fazem parte deste quadro, em que as potências imperialistas põem em risco a paz mundial.

Três categorias gerais de sistemas de tecnologia de armamentos compõem a estratégia de novas tecnologias militares: mísseis balísticos, sistemas de ataque convencional de longa distância e armas espaciais. Assim, a militarização e a ameaça constante aos povos mantêm-se predominantes nas relações internacionais ditadas pelas potências imperialistas, que apresentam a nova abordagem como se se tratasse, por um lado, de melhorar seus sistemas de “segurança” e, por outro, de fingir uma boa intenção pela redução de seus arsenais nucleares.

De acordo com estimativa do Instituto Internacional de Pesquisas sobre a Paz (Sipri), da Suécia, as despesas militares no ano passado foram de 1,8 trilhão de dólares (2,3% do PIB mundial, uma ligeira queda de 0,4% em comparação com o ano anterior, mas contrastado com aumentos no Leste Europeu, Oriente Médio, África e Ásia). A Arábia Saudita teve o maior aumento entre os 15 maiores gastos militares: 17%. Embora os EUA tenham reduzido em 20% seus gastos desde o pico atingido em 2010, a soma ainda é 45% maior do que a de 2001, antes do 11 de setembro, com 610 bilhões de dólares em 2014.

Os EUA continuam à frente nos gastos entre os membros da Otan, destinando ao setor militar 3,5% do seu PIB. Turquia, Grécia, França e Reino Unido empatam em segundo lugar, com 2,2% do PIB, mesmo em tempos de uma crise avassaladora que colocou milhões de europeus no desemprego, atacando suas conquistas sociais frontalmente. Ainda que estas porcentagens revelem uma ligeira queda no gasto militar desses países assolados pela crise, na Cúpula da Otan no País de Gales, em setembro de 2014, o compromisso central foi, além da revisão do “conceito estratégico” sempre alargado para ameaçar ainda mais o mundo, o de elevar os gastos no setor, sobretudo por pressão dos EUA, definindo-os em 2% dos PIBs nacionais.

A Alemanha, um dos cinco maiores gastos na Europa Ocidental (junto com França, Reino Unido, Itália e Espanha), anunciou que pretende aumentar seu gasto militar a médio prazo.

Na América Latina, não podemos deixar de ligar a reativação da Quarta Frota, em 2008, com as descobertas expressivas de reservas de petróleo no Brasil, e com os avanços nos processos democráticos conduzidos por forças progressistas e de esquerda.

 

Companheiras e companheiros,

É notável o avanço da ingerência e da militarização promovida pelo imperialismo na África. Destacamos a instalação do Comando dos EUA na África (Africom), um dos seis espalhados pelo globo pela doutrina de controle militar de espectro completo, que iniciou oficialmente suas operações em outubro de 2007 e tornou-se um comando independente exatamente um ano depois, com sede na Alemanha. Segundo seu próprio site, “as operações do comando, seus exercícios e seus programas de cooperação securitária apoiam a política externa do governo dos EUA principalmente através de atividades Exército-Exército e programas de assistência. ” E prossegue: “Nossa missão principal na assistência aos Estados africanos e organizações regionais para o fortalecimento de suas capacidades de defesa permite melhoria da capacidade dos africanos de lidar com suas ameaças securitárias e reduz as ameaças aos interesses dos EUA”.

Essa estrutura está como pano de fundo para ações como os bombardeios criminosos contra a Líbia em 2011.

No mesmo sentido foi a ofensiva da França contra o Mali, denominada Operação Serval (que durou de 11 de janeiro de 2013 a 15 de julho de 2014), lançada unilateralmente e claramente à revelia da resolução 2085 (20 de dezembro de 2012) do Conselho de Segurança da ONU.

Destacaram-se também no último período as tensões agravadas pela ingerência estadunidense no Mar do Sul da China, onde as disputas territoriais não dizem respeito a esta potência imperialista estrangeira. No mesmo sentido, a constante desestabilização da Península da Coreia, com exercícios militares conjuntos entre EUA e Coreia do Sul, obstaculizam a reaproximação do povo coreano em prol da reunificação pacífica, objetivo compartilhado por ambos desde a sua separação forçada pelo imperialismo, na década de 1950. Esta política acompanha ainda o apoio estadunidense à retomada da militarização no Japão, à revelia da vontade do povo japonês, em cujo território os EUA também mantêm dezenas de bases militares aéreas, navais e de fuzileiros do Exército estadunidense. Não bastasse, Japão e EUA acordam o estabelecimento de bases militares nas Filipinas, em aberta provocação contra a China. 

 

Companheiras e companheiros,

A Síria continua enfrentando a disseminação e o avanço dos brutais grupos terroristas, ao mesmo tempo em que combate outros grupos violentos que pretendem derrubar o governo legítimo. A OTAN enviou os mísseis “Patriota” à fronteira da Turquia com a Síria, de onde partem grande parte dos mercenários que integram as fileiras do terrorismo. A OTAN, que também mantém no país cerca de 750 soldados, segundo seu próprio site, decidiu “colaborar para aumentar as capacidades de defesa da Turquia” em 2012, com início em 2013, no contexto da eclosão das tensões internas na Síria, transformando-se em porta de entrada para os mercenários a soldo do imperialismo e dos seus asseclas na região: a Turquia, a Arábia Saudita e o Catar.

A devastação das cidades e dos lares de milhares de sírios já é reconhecida como uma das maiores catástrofes na região, impondo sofrimentos inauditos ao povo sírio, massacrado ou forçado à condição de refugiados. O patrimônio histórico da humanidade da qual a Síria se orgulha, com razão, está sendo sistematicamente destruído, o que demonstra o obscurantismo brutal das forças combatidas pelo Exército Árabe-Sírio. Cidades de elevada importância estratégica, como Palmira, estão entre os alvos principais, e vozes do mais agressivo reacionarismo instam as potências imperialistas a tratar da guerra na Síria de forma conjunta, supostamente contra o terrorismo do autodenominado “Estado Islâmico” e o próprio governo sírio, para derrubá-lo. Como se seus objetivos não fossem constantemente estes.

Ultimamente a situação no Oriente Médio se deteriorou ainda mais com os bombardeios levados a efeito pela Arábia Saudita, aliada do imperialismo, contra o Iêmen.

A questão palestina permanece no centro das atenções e da solidariedade do CMP.  Em 2014, declarado pela ONU o Ano Internacional de Solidariedade ao Povo Palestino, assistimos novamente à repetição macabra do massacre cometido pelo regime sionista de Israel. A violência na Cisjordânia ocupada atingiu recordes, assim como a construção de colônias ilegais nos territórios palestinos, mas não bastasse essa violação diária dos direitos mais básicos dos palestinos, outra ofensiva de larga escala foi lançada por Israel contra a Faixa de Gaza em julho do ano passado.

Foi a terceira operação militar em cinco anos, deixando o território devastado, sem possibilidade de reconstrução devido ao ciclo de violência e ao bloqueio nefasto do território, além de ter massacrado mais de 2.200 pessoas – inclusive cerca de 600 crianças.

Diversas entidades mundiais solidárias ao povo palestino e também as agências das Nações Unidas já condenaram não só o massacre como a própria política de empobrecimento e subjugação sistemática. A catástrofe provocada pela nova ofensiva impulsionou as campanhas globais contra a ocupação da Palestina por Israel e contra a impunidade que a sustenta. Saudamos com esperança a estratégia palestina de apelo ao direito internacional e seu novo posicionamento contrário à dominação completa do inócuo processo de paz pelo maior aliado e patrocinador de Israel, os EUA.

A adesão do Estado da Palestina ao Tribunal Penal Internacional e a comissão de inquérito lançada pelo Conselho de Direitos Humanos da ONU – com apenas um voto contrário, o dos EUA – são caminhos que devem nos levar, finalmente, à responsabilização dos líderes israelenses responsáveis pelo genocídio do povo palestino. Devemos pressionar para que estas não sejam ações vazias e demandar o fim da ocupação da Palestina. Com o novo governo ainda mais racista e extremista em Israel e com a declaração de aliança inabalável pelo governo Obama – ainda que deparado com estremecimentos momentâneos – deve ficar mais clara a necessidade de transformação na abordagem, com o fortalecimento dos movimentos globais de solidariedade ao povo palestino em sua justa causa pela libertação e pela responsabilização de Israel.

Quisera, finalmente, referir-me à América Latina e Caribe. O heroico povo cubano conquistou a importante vitória da libertação dos seus cinco heróis que se encontravam presos nos Estados Unidos. Foi também uma conquista significativa a remoção de Cuba da infame lista de “Estados patrocinadores do terrorismo”. Saudamos os avanços que o país está alcançando na luta contra o bloqueio imposto pelos Estados Unidos. Consideramos como um fator positivo para o desenvolvimento de Cuba e para a luta pela paz mundial o reatamento de relações com os Estados Unidos.

Ao mesmo tempo, aumentamos a nossa vigilância e resistência em face da ofensiva desestabilizadora que o imperialismo estadunidense leva a efeito contra a Venezuela, a Argentina, o Equador e o Brasil.

 

Companheiras e companheiros,

Se queremos a paz, devemos resistir e lutar, aumentar nosso esforço organizativo para fortalecer a nossa organização e tornar o CMP um poderoso baluarte desta luta que tem a ver com a própria salvação da humanidade. Sobretudo, devemos fazer uma correta leitura da situação política, medir corretamente a correlação de forças, compreender o sentido geral dos acontecimentos, a essência dos fenômenos e a gravidade das ameaças que pesam sobre os povos. “A paz é uma questão de todos” (Frederic Juliot Curie) Mais do que nunca, está na ampla união de forças a chave para o avanço de nossa luta e a vitória de nossa causa.

Lembro aqui o vigor com que o escritor e pacifista francês Romain Rolland fez nos anos 1930 um apelo á união contra a guerra: “Apelamos a todos os povos, a todos os partidos, a todos os homens e todas as mulheres de boa vontade. Não se trata apenas do interesse de um povo, de uma classe, de um partido. Todos estão em jogo. A salvação não pode vir a não ser pelas mãos de todos.

Que todos entrem em ação! É necessário deixar de lado as discussões que nos dilaceram. Unamo-nos todos contra o inimigo comum! Impeçamos a guerra!”

Que este espírito, esta ênfase e esta determinação presidam os trabalhos de nossa reunião e as nossas ações.

 

Muito obrigada,

Socorro Gomes

Presidenta do Conselho Mundial da Paz

Istambul, 20 de junho de 2015

 

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