Brasil e Estados Unidos: Diplomacia sim, anti-imperialismo também

A presidenta Dilma Rousseff iniciou no domingo (28/6) viagem de quatro dias aos Estados Unidos, mantendo encontro de alto nível com o presidente Barack Obama, em meio a uma movimentada agenda de trabalho em Nova York, Washington e São Francisco.

Por José Reinaldo Carvalho*

Segundo comunicado do Ministério das Relações Exteriores, a visita “consolida a parceria Brasil–Estados Unidos e permitirá traçar novas metas para a cooperação bilateral, dando continuidade ao diálogo presidencial”.

Dilma Rousseff retoma o referido diálogo depois de importante turbulência entre os dois países com a revelação da espionagem exercida por órgãos policialescos estadunidenses sobre a atividade da mais alta autoridade, eleita pelo povo, da República Federativa do Brasil. Esta será, assim, a primeira visita oficial da presidenta Dilma aos Estados Unidos desde que ela cancelou viagem àquele país em 2014, depois de denúncias de espionagem. Recorde-se que a interferência abusiva alcançou dimensões internacionais, porquanto, segundo denúncias, atingiam também a chanceler alemã, Angela Merkel. Na semana passada, novas revelações sobre a espionagem estadunidense contra chefes de Estado vieram à tona, desta feita relacionadas com líderes franceses. A dimensão ampla e a persistência das práticas de espionagem dos Estados Unidos fazem crer que o problema não está superado, como equivocadamente difundem as chancelarias.

Malgrado isso, não se desconhece a importância das relações bilaterais com os Estados Unidos, no quadro de uma situação mundial complexa, em que são válidos todos os esforços para neutralizar as tendências imperialistas e hegemonistas da superpotência do Norte. Igualmente, há que se levar em conta os eventuais ganhos para a economia brasileira nos setores de infraestrutura, ciência, tecnologia e inovação, e as oportunidades de investimentos externos diretos na economia brasileira.

Podem ser proveitosos os convênios que a presidenta Dilma Rousseff firmará com altos executivos dos setores de tecnologias da informação e comunicação, aeroespacial, biotecnologia e biomedicina, com o objetivo de incentivar parcerias na área de inovação entre instituições dos dois países.

Igualmente são válidos os esforços para incrementar o comércio bilateral. Em 2014, os Estados Unidos foram o 2º principal parceiro comercial brasileiro, com participação de 13,66% no comércio exterior do Brasil, atrás apenas da China. Entre 2005 e 2014, o intercâmbio comercial cresceu 76,2%, passando de US$ 35,2 bilhões para US$ 62 bilhões. De janeiro a maio de 2015, o intercâmbio Brasil–EUA somou US$ 21,4 bilhões.

Em suma, se o objetivo principal da visita presidencial aos Estados Unidos é ampliar as relações comerciais e políticas entre os dois países, no quadro da busca por vantagens recíprocas, no terreno econômico, e no respeito mútuo à soberania e autodeterminação, é justo o empenho diplomático vis-à-vis a superpotência do Norte.

Sabe-se que também faz parte do escopo da visita a abordagem de temas da agenda internacional, como a reforma das Nações Unidas, a ampliação do Conselho de Segurança, as crises regionais e a situação internacional em geral, segundo fontes do Itamaraty.

Neste aspecto, todo cuidado é pouco. Brasil e Estados Unidos têm cosmovisões e estratégias geopolíticas distintas. Suas relações, próprias de dois países gigantes vocacionados a conviver, não são necessariamente de aliança. Ao contrário, prevalecem as contradições, porquanto os Estados Unidos inserem-se no mundo, em particular na América Latina, como potência imperialista, e o Brasil como país emergente, favorável à democratização das relações internacionais, portanto avesso a qualquer tipo de hegemonismo. Há mais de um século, os Estados Unidos percorrem uma via intervencionista, belicista e militarista para impor-se sobre as demais nações. Já o Brasil optou pela soberania, a autodeterminação, a integração entre povos amigos e a paz. Foi-se o tempo em que o que era “bom para os Estados Unidos também era bom para o Brasil”, na visão tacanha e subalterna dos governos de antanho das classes dominantes. O mundo mudou e o Brasil também. Não se trata apenas de não ter alinhamento automático com os Estados Unidos, mas de não ter alinhamento algum.

Por isso, não deixa de despertar preocupação que entre os acordos a serem firmados entre Dilma e Obama esteja um convênio de cooperação entre Brasil e Estados Unidos em matéria de defesa, em que se prevê a participação em treinamento e instrução militar combinado, exercícios militares conjuntos e intercâmbio de informações, bem como a colaboração em assuntos relacionados a sistemas e equipamentos e a cooperação em quaisquer outras áreas militares que possa ser de interesse mútuo, segundo comunicado do Ministério da Defesa do Brasil.

Há trinta anos, em plena ditadura dos generais, o Brasil denunciou um acordo de cooperação militar com os Estados Unidos. É um contrassenso firmar convênios desta natureza agora, como não fazem sentido tampouco outras iniciativas de convênio militar com países que se comportam como párias internacionais, como o Estado sionista de Israel. Defesa e Diplomacia têm uma fraternidade siamesa, por isso é bom não descurar da nossa independência completa na área militar, para que não se confundam os campos em que cada força se situa e as orientações que seguem.

Diplomacia, sim. Anti-imperialismo também.

*José Reinaldo Carvalho é diretor do Cebrapaz

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