Grupo de Reflexão sobre Relações Internacionais emite nota convocando à defesa da UNASUL

O Grupo de Reflexão sobre Relações Internacionais (GRRI) emitiu em 27 de abril uma declaração, à qual convida subscrições, contra a decisão da Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, Peru e Paraguai de suspender participações na União de Nações Sul-Americanas (UNASUL). A nota condena o prejuízo à integração regional soberana, estratégica e solidária, seguido das ações do chamado Grupo de Lima, criado em 2017 em reunião que resultou em uma de várias condenações à Venezuela. Leia a nota do GRRI a seguir saiba como endossá-la.

Em defesa da UNASUL

Recebemos com extrema preocupação e pesar a decisão conjunta de Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, Peru e Paraguai em suspender temporariamente a participação de seus Estados nas atividades da União de Nações Sul-Americanas – UNASUL. O motivo alegado, a falta de consenso ao redor do sucessor do ex-presidente colombiano Samper como Secretário-Geral do Bloco, é uma escusa que não esconde a vontade política desses países de desarticular um foro democrático que tem desempenhado um importante papel para a manutenção da paz e o diálogo político na região. Além de constituir uma ofensa coletiva para a recentemente empossada presidência pró tempore da Bolívia no Bloco.

Precursora de um modelo de regionalismo e integração sem precedentes na história da América do Sul, pautado em temas transversais construídos por meio do consenso e do respeito à pluralidade ideológica da região, a UNASUL impulsionou, internamente, iniciativas que contribuíram sobremaneira para o fortalecimento democrático das nações sul-americanas, engendrando iniciativas econômicas, sociais e políticas essenciais para o bem-estar de seus povos. Além disso, partindo de uma perspectiva de “dentro para fora”, tem assegurado uma inserção autônoma e simultaneamente de não confronto, que contribui para a própria reorganização das relações de poder globais rumo a um ambiente internacional mais justo, equitativo e multipolar.

Debilitar a UNASUL em um momento, na mais otimista das hipóteses, de acirrados extremismos no âmbito global é, na prática, enterrar a América do Sul em uma espécie de auto-abandono. Significa negligenciar experiências manifestamente bem-sucedidas e que apresentavam, entre avanços e recuos, certa continuidade. Dentre os exemplos estão a criação de um arcabouço institucional em matéria de segurança e defesa através das ações do Conselho de Defesa Sul-Americano (CDS) e a criação do Conselho Sul-Americano de Infraestrutura e Planejamento (COSIPLAN), que diferentemente da IIRSA, constitui um fórum de debate amplo regional sobre a integração física da América do Sul.

Significa, também, enfraquecer a vigência de instituições democráticas e do Estado de Direito na região, que o Conselho Eleitoral do bloco ajuda a garantir. Significa a interrupção dos avanços em termos de intercâmbio de conhecimento e gestão de políticas públicas propugnadas pelo Instituto Sul-Americano de Governo em Saúde (ISAGS). Da mesma forma, obstaculiza a obtenção da soberania energética regional prevista, dentre outras iniciativas, no projeto do Anel Energético Sul-Americano. Significa, igualmente, abrir mão de uma voz concertada regional capaz de ação e projeção de poder de maneira mais equilibrada com relação aos países e blocos hegemônicos. E, principalmente, debilitar a UNASUL significa retroceder à fragmentação regional que marcou historicamente nosso continente e gerou tanta miséria, pobreza e exclusão.

Condenamos este movimento do governo brasileiro e do braço-sul do chamado Grupo de Lima[A1], pois ele enfraquece, de forma inequívoca, uma inserção internacional minimamente autônoma dos países da região, justamente no contexto de uma organização cuja característica predominante é a construção de consenso através do diálogo político entre os integrantes.

[A1] O grupo foi criado em agosto de 2017 depois da reunião de vários países das Américas na capital do Peru para tratar a crise venezuelana. O grupo reuniu os países que consideram que na Venezuela existe uma “ruptura del orden democrático” (Declaração de Lima, 8 de agosto de 2017)

Promove: Grupo de Reflexão sobre Relações Internacionais – GRRI

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