Assalto ao quartel de Moncada: As razões revolucionárias

O assalto ao Quartel de Moncada, em 26 de julho de 1953, portanto completando nesta quinta-feira 65 anos, foi um dos principais acontecimentos que antecederam a revolução cubana. A ação envolveu 131 jovens (eram 135 mas quatro desistiram pouco antes). Eles foram organizados e liderados por Fidel Castro, Abel Santamaría e Raúl Castro, e tinham por objetivo desencadear a luta armada contra a ditadura de Fulgêncio Batista.

Por Wevergton Brito Lima*

Antes de partir para a ação, Fidel fez um último discurso a seus camaradas:

“Companheiros: Poderemos vencer dentro de poucas horas ou sermos vencidos, mas em todo caso, ouçam bem, companheiros, o movimento triunfará de qualquer forma. Se vencermos amanhã, será mais cedo do que Martí esperava. Se ocorrer o contrário, nosso gesto servirá de exemplo ao povo de Cuba, para tomar a bandeira e seguir adiante, o povo nos apoiará no oriente e em toda a ilha. Jovens do Centenário do Apóstolo! Como em 68 e 95, aqui no oriente damos o primeiro grito de Liberdade ou Morte! Vocês já conhecem os objetivos do plano. Sem dúvida alguma é perigoso, e todo aquele que saia comigo esta noite deve fazê-lo por sua vontade absoluta. Ainda está em tempo de decidir. Alguns terão que ficar por falta de armas, aqueles que estão determinados a ir, deem um passo à frente (foi este o momento em que quatro desistiram, Nota do Autor). A consigna é não matar, a não ser como última necessidade“.

Quartel de Moncada crivado de tiros.

Quartel de Moncada crivado de tiros.

A heroica iniciativa resultou em uma derrota militar. O Quartel de Moncada abrigava mil homens fortemente armados e o fator surpresa, fundamental para o sucesso da ação, por uma série de imprevistos não se concretizou. Outros 28 jovens atacaram, conforme os planos, o quartel Carlos Manuel de Céspedes, em uma ação que igualmente fracassou. Mesmo assim, o assalto aos quartéis Moncada e Céspedes foi o motor impulsionador e inspirador das ações futuras que redundaram na Revolução Cubana.

Seis revolucionários morreram no momento da ação. Outros 55, feitos prisioneiros ou capturados em seguida, foram torturados e assassinados, entre eles o segundo no comando do ataque, Abel Santamaria, de 25 anos.

Poucos rebeldes conseguem escapar da furiosa onda repressiva. Fidel e Raúl afinal são presos e condenados, assim como outros companheiros, a pesadas penas de prisão. No entanto, a simpatia popular cresce em torno dos jovens patriotas e em 1955 os presos políticos são anistiados e exilam-se no México, onde formam o Movimento 26 de Julho.

Rebeldes libertados em maio de 1955

Rebeldes libertados em maio de 1955

Regressam a Cuba em Dezembro de 1956, a bordo do iate Granma e dão início à guerrilha contra o regime a partir da Sierra Maestra. A Revolução triunfa em 1º de janeiro de 1959.

Para Fidel, não haveria revolução sem Moncada:

“Em primeiro lugar (Moncada) iniciou um período de luta armada que não terminou até a derrota da tirania, e em segundo lugar criou novas lideranças e uma nova organização que repudiava o conformismo e o reformismo, que eram combatentes e decididos e que no próprio julgamento levantaram um programa de transformações socioeconômicas e políticas exigidas pela situação em Cuba“.

Em 2003, Fidel faz um discurso em homenagem aos 50 anos do Assalto aos Quartéis de Moncada/Céspedes e citou trechos selecionados de sua histórica autodefesa (“A história me absolverá”) pronunciada durante o julgamento que a tirania de Batista promovia contra os sobreviventes do ataque aos Quartéis em 16 de outubro de 1953. Eis os trechos selecionados pelo próprio Fidel:

“600 mil cubanos estão sem trabalho.”

“500 mil camponeses trabalham quatro meses por ano e passam fome no restante.”

“400 mil trabalhadores industriais e braçais cujas pensões estão desfalcadas, cujas moradias são os infernais quartinhos dos cortiços, cujos salários passam das mãos do patrão às do vendeiro, cuja vida é o trabalho perene, e cujo descanso é a tumba.”

“10 mil profissionais jovens: médicos, engenheiros, advogados, veterinários, pedagogos, dentistas, farmacêuticos, jornalistas, pintores, escultores etc. saem das escolas com seus diplomas, ansiosos por luta e cheios de esperança, para ver-se num beco sem saída, com todas as portas fechadas.”

“85 por cento dos pequenos agricultores cubanos estão pagando arrendamentos e vivem sob a constante ameaça do desalojamento de seus lotes.”

“200 mil famílias camponesas não têm um pedaço de terra onde semear alimentos para seus filhos famintos.”

“Mais da metade das melhores terras de produção cultivadas está em mãos estrangeiras.”

“Cerca de 300 mil ‘caballerías’ (mais de três milhões de hectares) permanecem sem cultivar.”

“Dois milhões e duzentas mil pessoas de nossa população urbana pagam aluguéis que consomem entre um quinto e um terço de seus rendimentos.”

“Dois milhões e oitocentas mil pessoas de nossa população rural e suburbana não têm luz elétrica.”

“Às escolinhas públicas rurais comparecem, descalças, seminuas e desnutridas, menos da metade das crianças em idade escolar.”

“90 por cento das crianças do campo estão cheias de vermes.”

“A sociedade permanece indiferente diante do assassinato em massa de milhares e milhares de crianças que, todos os anos, morrem por falta de recursos.”

“Entre os meses de maio e de dezembro, um milhão de pessoas se encontram sem trabalho em Cuba, com uma população de cinco milhões e meio de habitantes.”

“Quando um pai de família trabalha quatro meses por ano, com que poderá comprar roupas e medicamentos para seus filhos? Crescerão raquíticos, aos 30 anos não terão um dente saudável na boca, terão ouvido dez milhões de discursos, e no final morrerão de miséria e decepção. O acesso aos hospitais públicos, sempre repletos, só é possível mediante a recomendação de um magnata político, que exigirá do infeliz seu voto e o de toda a sua família, para que Cuba continue sempre igual ou pior.”

“O futuro da nação e a solução de seus problemas não podem continuar dependendo do interesse egoísta de uma dúzia de financistas, dos frios cálculos de lucros traçados por dez ou doze magnatas, em seus escritórios com ar-condicionado. O país não pode continuar de joelhos, implorando os milagres de uns poucos bezerros de ouro que, como aquele do Velho Testamento derrubado pela ira do profeta, não fazem nenhum milagre. […] E não é com estadistas cujo estadismo consiste em deixar tudo como está e passar a vida gaguejando bobagens sobre a ‘liberdade absoluta da empresa’, ‘garantias ao capital investido’ e a ‘lei da oferta e da procura’ que serão resolvidos tais problemas.”

“No mundo atual, nenhum problema social se resolve por geração espontânea.”

O Quartel de Moncada hoje é uma cidade universitária / Foto: Roberto Merino

O Quartel de Moncada hoje é uma cidade universitária / Foto: Roberto Merino

Esta seleção mostra perfeito domínio da realidade concreta do povo, profundo apego aos seus anseios como motor primário para a ação e descortino sobre as causas e soluções dos problemas.

Mais do que isso, revela a completa atualidade da opção revolucionária.

Transcorridos 65 anos desta defesa/denúncia de Fidel, constata-se que as razões que motivaram a juventude cubana no assalto aos quartéis de Moncada e Céspedes ainda retratam a triste realidade de boa parte do Brasil e do mundo.

* Wevergton Brito Lima é jornalista, secretário-geral do Cebrapaz