Há 70 anos, Congresso Mundial de Intelectuais pela Paz impulsionava uma luta internacional

Em agosto de 1948, na cidade polaca Breslávia (Wrocław), o Congresso Mundial de Intelectuais pela Paz reunia personalidades engajadas na transformação do sistema internacional após os horrores da Segunda Guerra Mundial e a vitória dos povos contra o nazi-fascismo. Estavam lançadas as bases para o estabelecimento do Conselho Mundial da Paz (CMP), em 1949-1950. Entre os participantes de mais de 40 países estavam Jorge Amado, Pablo Picasso, Bertolt Brecht, Minnette de Silva, Irene e Frédéric Joliot-Curie, György Lukács, Anna Seghers, Zofia Nałkowska e Michaił Szołochow. Para marcar a ocasião, a organização amiga do Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz (Cebrapaz), o Conselho Português para a Paz e Cooperação (CPPC) –ambos membros do CMP– divulgou o texto a seguir.

 


70 anos em defesa da Paz
Agosto de 1948: marco histórico do movimento mundial da Paz

Há precisamente 70 anos, entre 25 e 28 de Agosto de 1948, a cidade polaca de Wroclaw acolheu o Congresso Mundial dos Intelectuais pela Paz, importante expressão do movimento mundial que, dois anos depois, se conjugaria em torno do Conselho Mundial da Paz.

Três anos após o fim da Segunda Guerra mundial e a vitória sobre o nazi-fascismo em 1945, este congresso reuniu centenas de delegados, oriundos de 45 países, entre os quais se contavam destacados intelectuais e artistas como Pablo Picasso, Eugénie Cotton, Irène Curie, Paul Éluard, Jorge Amado, Henri Wallon, Anna Seghers, Aimé Cesaire, Andersen Nexø e György Lukács, entre outros. As delegações mais numerosas provinham da própria Polónia e também dos Estados Unidos da América, Reino Unido, França, Itália e União Soviética.

No Manifesto aprovado ficava evidente o objectivo fundamental do Congresso: «Levantamos a voz em favor da paz, do livre desenvolvimento cultural dos povos, da sua independência nacional e da sua estreita cooperação.» Num tempo marcado já por novas ameaças à paz tão duramente conquistada – quando os EUA e os seus aliados levavam já a cabo aquela que ficou conhecida por Guerra Fria e brandiam, após Hiroxima e Nagasáqui, com a ameaça atómica perante o mundo – era tempo de agir com audácia e determinação: o Congresso instou os intelectuais a «organizar em todos os países congressos nacionais de homens de cultura em defesa da paz; criar em todos os países comités nacionais em defesa da paz; reforçar as ligações internacionais entre os intelectuais de todos os países para servir a paz».

Do Congresso de Wroclaw saiu ainda o apelo à realização, a curto prazo, de um congresso mundial dos defensores da paz, que se realizou efectivamente em Abril de 1949, poucas semanas após a constituição formal da NATO: no Primeiro Congresso Mundial dos Partidários da Paz participaram mais de 2000 delegados provenientes de 72 países. A sua realização simultânea em Paris e Praga deveu-se à recusa das autoridades francesas em permitir a entrada no país de delegados provenientes de alguns países do Leste da Europa e da Ásia.

Ao contrário do que sucedeu em Agosto de 1948, no Congresso Mundial dos Partidários da Paz não participaram apenas intelectuais e artistas, mas também trabalhadores, estudantes, camponeses, religiosos, deputados, governantes, em resposta ao Apelo lançado em Fevereiro de 1949 «a todas as organizações democráticas que têm como interesse principal a defesa da paz e que são dedicadas ao progresso – sindicatos, movimentos de mulheres e da juventude, organizações camponesas, cooperativas e grupos religiosos, organizações de cientistas, escritores, jornalistas, artistas e políticos democráticos» para que se manifestassem em favor da paz.

Imagens do Congresso Mundial de Intelectuais pela Paz e de Minette de Silva,
arquiteta do Sri Lanka pioneira do estilo moderno, que participou do evento. 

O Manifesto deste congresso, lido em Paris pelo poeta francês Louis Aragon, proclamava objectivos e princípios fundamentais do movimento que então se encontrava em gestação:

«(…) Nós somos pela Carta das Nações Unidas, contra todas as alianças militares que anulam esta Carta e conduzem à guerra.

Nós somos contra o fardo esmagador dos gastos militares responsáveis pela miséria dos povos.

Nós somos pela interdição das armas atómicas e dos outros meios extermínio em massa de seres humanos, exigimos a limitação das forças armadas das grandes potências e o estabelecimento dum controlo internacional efectivo da utilização da energia atómica para fins exclusivamente pacíficos e para o bem da humanidade.

Nós lutamos pela independência nacional e a colaboração pacífica entre todos os povos, pelo direito dos povos a determinar o seu futuro, condições essenciais para a liberdade e a paz.

Nós opomo-nos a todas as tentativas que, com o propósito de abrir caminho à guerra, procuram restringir e em seguida suprimir as liberdades democráticas. Nós constituímos um bastião global da verdade e da razão; queremos neutralizar a propaganda que prepara a opinião pública para a guerra.

Nós condenamos a histeria belicista, a pregação do ódio racial e da inimizade entre os povos. Preconizamos a denúncia e o boicote dos órgãos da imprensa, produções literárias e cinematográficas, personalidades e organizações que fazem a propaganda para uma nova guerra.

Nós, que selámos a unidade dos povos do mundo, exercermos os nossos esforços conjugados em prol da Paz. Na nossa determinação de permanecer vigilantes, devemos estabelecer um Comité Internacional para a Defesa da Paz, composto por homens de cultura e representantes de organizações democráticas. (…)»

Congresso Mundial de Intelectuais pela Paz 70 anos - CPPC.jpg

Pablo Picasso criou o cartaz do Congresso, que elegeu o Comité Permanente dos Partidários da Paz, sediado em Paris e coordenado pelo físico francês Frédéric Joliot-Curie. Foi este Comité que, em Março de 1950, lançou o Apelo de Estocolmo, pela proibição das armas nucleares, que recolheu em todo o mundo centenas de milhões de assinaturas e contribuiu decisivamente para a afirmação e alargamento do movimento mundial da Paz.

O Segundo Congresso Mundial da Paz, realizado em Novembro de 1950 em Varsóvia – esteve marcado para Sheffield, mas as autoridades britânicas recuaram na sua decisão de o autorizar – constituiu um passo determinante no processo de reforço, coordenação e conjugação de esforços do movimento mundial da Paz. As duas mil pessoas que nele participaram, oriundas de 80 países, definiram a composição do primeiro Conselho Mundial da Paz, presidido por Frédéric Joliot-Curie.

Os princípios aí consagrados definiam o carácter unitário, democrático, antifascista e anti-imperialista do Conselho Mundial da Paz, confirmado pela sua composição: entre os seus 221 membros contavam-se personalidades de diferentes nacionalidades, origens sociais, ideologias políticas e confissões religiosas. A defesa da paz e do desarmamento, da resolução pacífica dos conflitos internacionais e da soberania nacional e a solidariedade com os povos vítimas da guerra de agressão, ocupação, chantagem e bloqueio foram desde o início suas causas principais.

Entre outros importantes aspectos, O Manifesto aos Povos do Mundo, lançado pelo Segundo Congresso Mundial da Paz, realçava a necessidade e possibilidade de impedir uma nova guerra, cujas ameaças se faziam então sentir. «Toda a pessoa racional sabe que aquele que ousa afirmar “A guerra é inevitável” injuria a humanidade. Vocês que lêem esta mensagem, proclamada em nome dos povos de 80 nações, representados no Segundo Congresso Mundial da Paz, em Varsóvia, não podem nunca esquecer que a luta pela paz pertence-vos. Devem saber que centenas de milhões de defensores da Paz, unidos como um só, estendem-vos a mão. Com confiança no futuro, convidam-vos a tomarem parte na mais nobre luta alguma vez travada pelahumanidade. Não podemos esperar pela Paz! Temos de conquistá-la.», afirmava o Manifesto do Congresso. O próprio Congresso era expressão de que «homens e mulheres dos cinco continentes do mundo reunidos, apesar de grandes diferenças de opinião, podem chegar a acordo, de forma a esconjurar o flagelo da guerra e a manter a Paz», como também o Manifesto sublinhava.

Num momento, como aquele em que vivemos, marcado pelo agravamento das tensões e da militarização das relações internacionais; pelo incremento da ingerência, das operações de desestabilização e guerras de agressão; pelo desrespeito pela independência dos Estados, pela soberania e os direitos dos povos; pelo aumento das despesas militares e da corrida aos armamentos – em resultado da política belicista promovida pelos EUA, a UE, a NATO e os seus aliados –, importa ter presente o exemplo dos defensores da paz que, em tempos igualmente difíceis, souberam, apesar de diferenças, determinar a ameaça e o perigo principal e unir forças contra uma nova guerra, em defesa da paz e da sobrevivência da Humanidade. Levantemos alto e continuemos hoje e no futuro o seu legado e luta.

28 de Agosto de 2018
Conselho Português para a Paz e Cooperação