Irã: tensões e perspectivas

No último dia 10 de julho, Donald Trump afirmou que aumentaria as sanções ao Irã. De lá até aqui a situação somente se agrava.

Por Elton Arruda*

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Guarda Revolucionária Islâmica faz exercício no Golfo Pérsico para defender suas fronteiras, em 2017. Fonte: Tehran Times

Trump e seus assessores esclarecem o tensionamento vociferando que tal postura se justifica alegando que o governo iraniano estaria burlando os limites estabelecidos em acordo nuclear firmado nos tempos de Obama. O citado acordo aconteceu em 2015 e implicou no fim das sanções ao Irã e a imposição de limites ao seu programa nuclear. Tudo foi supervisionado pelo Conselho de Segurança da ONU e a Alemanha (P5+1) e posto em prática de fato no começo de 2016 quando a Agência Internacional de Energia Atômica atestou que o Irã tinha fins pacíficos em seu programa nuclear.

Para entender melhor deve ficar claro que o urânio, tal como encontrado na natureza, por si só não serve para bomba. É necessário enriquecer (torná-lo mais puro) até que ele chegue a 90% de enriquecimento. Segundo os relatórios da própria Agência Internacional de Energia Atômica, o enriquecimento notificado pelo próprio Irã no último dia 7 de julho era 5%, depois no dia 8 de julho a 4%. No mesmo dia 8 a agência coletou material para analisar. São taxas baixíssimas de enriquecimento de urânio, chegam nem perto de uma bomba.

Em 2018 os Estados Unidos retiraram-se do pacto que gerou o acordo nuclear de 2015 e voltaram as sanções estadunidense contra o Irã. Noutras palavras: Trump sabotou o acordo. Assim, o presidente do Irã, Hassan Rohani, deu um prazo para que a situação se revertesse e, sem resposta, decidiu passar de 3,6% e ir até 5% nas taxas de enriquecimento.

Outro item que teve proeminência entre as notícias internacionais envolvendo o Irã foi a tensão militar entre iranianos e estadunidenses e seus aliados no Golfo Pérsico e Estreito de Ormuz. Ainda na primeira quinzena de junho deste ano, dois navios petroleiros (um japonês e outro norueguês) foram bombardeados no Golfo de Omã e Mike Pompeo, secretário de Estado dos EUA, pessoalmente e imediatamente responsabilizou o Irã pelo ocorrido.

Na ocasião, não por coincidência, o primeiro-ministro do Japão, Shinzo Abe, visitava Teerã. Os estadunidenses chegaram a divulgar vídeos do que seria uma embarcação com iranianos colocando uma mina magnética na lateral do casco do navio japonês. A farsa foi revelada logo que a própria tripulação do navio contou que havia um drone sobrevoando o navio e que a explosão teria sido causada por um projétil que veio de cima, não dos lados. Desde então outros navios sofreram ataques, drones dos EUA foram derrubados, espiões presos, e a disputa tem o seu centro geográfico no estreito de Ormuz, controlado pela Guarda Revolucionária Islâmica do Irã, que liga Golfo de Omã, Golfo Pérsico e Oceano Índico. Por este trecho passa boa parte do petróleo do planeta.

Nos dois casos os Estados Unidos agem no sentido de desestabilizar as relações daquela região com o resto do mundo. Enquanto as diferenças se acirram, o presidente do Irã já afirmou que os Estados Unidos serão responsáveis pela “mãe de todas as guerras”. De fato, deve-se considerar que o Irã tem uma população de mais de 80 milhões de habitantes (mais que Iraque e Afeganistão juntos), mais de 500 mil soldados na ativa e capacidade bélica moderna. Deve ser considerado também que esse conflito inevitavelmente envolveria dezenas de outros países dos dois lados e criaria um aumento disparado do já gigantesco número de refugiados pelo mundo, além da alta do petróleo e o risco de uma hecatombe nuclear.

Entretanto, a valentia de Trump é limitada. A eleição presidencial nos EUA se aproxima e ele deve agir com mais cautela em algumas áreas do que sinalizam suas bravatas no Twitter. Ele já mandou cartinha para a República Popular Democrática da Coreia e a China, brindou com Putin e recuar, mesmo que momentaneamente, nos ataques ao Irã, também não é impossível. Oremos pela saída pacífica.

* Elton Arruda é professor, geógrafo e presidente da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB) no Piauí