Omeima Abdeslam, do Saara Ocidental: “Estão roubando meu país e destruindo a sua democracia”

Omeima Abdeslam - Frente Polisario

Omeima Abdeslam, representante da Frente Polisario na Suíça e para a ONU em Genebra

O Conselho de Segurança das Nações Unidas é um órgão criado no fim da Segunda Guerra Mundial para conservar o equilíbrio de uma frágil paz. Este Conselho foi criado incluindo o direito a veto de seus cinco membros permanentes, o que em si constitui grande injustiça. Desde que o conflito no Saara Ocidental está na agenda do Conselho de Segurança, sua situação está congelada devido, especialmente, à ação do Grupo de Amigos do Saara Ocidental, que ao invés de ser um promotor da paz na região, se converteu na pedra que bloqueia qualquer tipo de solução ao conflito. Impõe, assim, um status quo inaceitável e que beneficia especialmente o Marrocos, a potência ocupante do território.

Por Omeima Abdeslam*

O problema mais grave é que este Conselho de Segurança, com seu desinteresse por resolver pela via pacífica uma questão de descolonização que está na agenda de vários dos comitês da ONU, criou um monstro, o Marrocos, que crê poder violar todas as leis impunemente. Um país cuja política externa está baseada na manipulação, na chantagem e na corrupção.

As garras da chantagem do Marrocos alcançaram as distintas agências das Nações Unidas, corrompendo assim autoridades e funcionários da organização, atirando ao solo a seriedade da ONU.

A forma como as Nações Unidas tratam o tema do Saara Ocidental chegou a extremos vergonhosos, onde vemos nos diferentes fóruns como as autoridades nestas instruções estão destroçando a democracia que tanto custou construir, por todas as nações do mundo.

Um exemplo doloroso foi ver o secretário-geral das Nações Unidas pedir aos saaráuis que se manifestavam pacificamente em Gargarat, em janeiro de 2020, contra o rally Eco Africa Race, que deixassem passar o rally, em violação clara do acordo entre Marrocos e a Frente Polisario que resguarda a área, enquanto o mesmo secretário-geral permanece calado diante das atrocidades que o Marrocos comete diariamente nos territórios ocupados do Saara Ocidental.

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Vergonhosamente, a ONU nunca reagiu às violações dos direitos humanos perpetradas diária e constantemente no Saara Ocidental.

As e os saaráuis nos comprometemos com este processo de paz porque estamos certos da justiça da nossa causa, estávamos certos de que a comunidade internacional protegeria suas leis e não deixaria que ninguém ultrapassasse as linhas vermelhas que foram traçadas para garantir a coexistência da humanidade. Tínhamos uma confiança cega nas Nações Unidas e na comunidade internacional, mas, infelizmente, traíram-nos.

O Conselho de Segurança traiu-nos, e com isso destruiu a democracia no seu país, essa que tanto custou a construir.

Com isso, aponto especialmente à Espanha e à França, que se converteram em garantidores dessa injustiça, por seu bloqueio à solução pacífica desse conflito por mais de 29 anos. Mas também são responsáveis aqueles países que se omitem ou participam de alguma maneira no espólio dos recursos naturais do povo saaráui, explorados pelo Marrocos no território ocupado.


Entrevista de Omeima Abdeslam a Juan Gasparini para “Tres Puntos Noticias”, 2018.

O que o mundo espera do povo saaráui? Não bastam os anos de exílio, de separação de famílias por mais de 45 anos, e por um muro de mais de 2.720 quilômetros, cercado por minas antipessoais? Não bastam as centenas de desaparecidos durante o conflito? Não bastam os mortos? Não bastam os 29 anos de processo de paz fracassado e uma paciência infinita desse povo heróico? Quanto horror deverá a comunidade internacional ver até que force o Marrocos a aplicar o Plano de Paz que aceitou e firmou, que supõe a realização do direito à autodeterminação para o povo saaráui?

O povo saaráui não está pedindo o impossível; só pede que se respeite as resoluções das nações do mundo e que os que não as cumpram sejam responsabilizados. Porque essas resoluções são as que garantirão a coexistência do mundo inteiro; se deixarem de protegê-las, estarão destruindo a sua democracia e a coexistência mundial.

O povo saaráui merece ter seu país, merece a independência, porque só com o Estado saaráui se garante a possibilidade da paz e a prosperidade no norte da África.

Quem escreve é uma mulher refugiada do Saara Ocidental, que tenta preservar suas forças para seguir acreditando na ONU, na comunidade internacional e na solidariedade internacional.

*Omeima Abdeslam é a representante da Frente Popular para a Libertação de Saguía el Hamra e Rio de Ouro (POLISARIO) na Suíça e para o escritório e agências da ONU em Genebra.