Maduro envia carta a líderes mundiais garantindo resistência à ofensiva dos EUA e compromisso com a paz e a cooperação internacional

O presidente da Venezuela Nicolás Maduro enviou uma carta aos chefes de Estado e Governo de todo o mundo neste domingo (29), denunciando o cerco ao país neste momento de enfrentamento à pandemia de coronavírus. Maduro destaca a ofensiva estadunidense, intensificada na semana anterior pela Procuradoria-Geral dos EUA, que acusa o presidente venezuelano e outras autoridades por crimes como narcotráfico. Conforme denunciou o Conselho Mundial da Paz, trata-se de medida vil na cadeia já longa da ofensiva imperialista para derrubar o governo Maduro. Leia a carta do presidente venezuelano:

Caracas, 29 de março de 2020

Excelência:

Ao saudar-lhe, com afeto, me permito dirigir-me a V.S. nesta ocasião para denunciar os graves acontecimentos que se produzem contra a paz e a estabilidade da Venezuela, em momentos em que a preocupação dos Estados e Governos deveria estar centrada na proteção da vida e da saúde de seus habitantes, devido à aceleração da pandemia do COVID-19.

Como é de conhecimento público, no último 26 de março o Governo dos Estados Unidos anunciou uma gravíssima ação na contramão de um grupo de altos servidores públicos do Estado venezuelano, incluindo a minha pessoa, Presidente Constitucional da República Bolivariana da Venezuela.

A referida ação consistiu na apresentação de uma acusação formal ante o sistema judicial estadunidense, o qual por si mesmo é ilegal, senão que além disso, pretende sustentar uma falsa acusação de narcotráfico e terrorismo, com o único objetivo de simular a suposta judicialização das autoridades venezuelanas.

Esta pantomina estadunidense inclui o insólito oferecimento de uma recompensa internacional a quem forneça informação sobre o Presidente e os altos servidores públicos venezuelanos, conduzindo a um perigoso momento de tensão no continente, pelo que considero necessário fazer uma contagem dos fatos, que revelam a perversa trama por trás das acusações do Departamento de Justiça.

Apenas um dia antes, em 25 de março, a República Bolivariana da Venezuela denunciou ante a opinião pública nacional e internacional, o desenvolvimento em território colombiano de uma operação que tinha como fim atentar contra a vida do Presidente da República, seus familiares e altos servidores públicos do Estado, bem como atacar objetivos civis e militares em nosso país; indicando como chefe militar de dita operação o senhor Clíver Alcalá, general aposentado da força armada venezuelana.

Esta denúncia foi realizada com toda responsabilidade, depois que no dia 24 de março se soubesse de uma operação de controle na estrada ao norte de Colômbia, próxima à fronteira com Venezuela, na qual a polícia daquele país capturou um lote de armas de guerra em um veículo civil.

As investigações revelaram que se tratava de um sofisticado arsenal cujo destinatário era um grupo de ex-militares e paramilitares venezuelanos e colombianos, que treinam em acampamentos localizados em território de Colômbia.

No dia 26 de março, o referido Clíver Alcalá, deu uma declaração ante um meio de comunicação colombiano – da sua residência na cidade de Barranquilla, Colômbia – em que confirmava sua participação nos fatos denunciados, confessando ser o líder militar da operação e revelando que as armas foram adquiridas por ordem do senhor Juan Guaidó, deputado nacional, que se auto-proclama Presidente interino de Venezuela e age como operador de Washington no país. Além disso, confirmou que o armamento tinha como objetivo realizar uma operação militar para assassinar altas personalidades do Estado e do Governo venezuelano e produzir um Golpe de Estado na Venezuela.

O senhor Alcalá declarou que as armas foram adquiridas mediante um contrato assinado por sua pessoa, o senhor Juan Guaidó, assessores estadunidenses e o senhor Juan José Rendón, assessor político do Presidente Iván Duque, e realizado com conhecimento de autoridades do governo colombiano.

Ante esta confissão, a insólita resposta do governo estadunidense tem sido a publicação das acusações mencionadas no começo desta carta, com a extravagante inclusão do nome do senhor Alcalá, como se fosse parte das autoridades da Venezuela e não um mercenário contratado pelos Estados Unidos para levar a cabo uma operação terrorista na contra-mão do governo venezuelano.

Como demonstração desta afirmação, não preciso mais que mencionar a suposta captura do senhor Alcalá por parte das forças de segurança colombianas e sua imediata entrega às autoridades da DEA estadunidense, em um curioso ato em que o réu, sem algemas, se despedia estreitando as mãos de seus captores, ao pé da escada do avião que o levaria em voo especial VIP para Estados Unidos, o que demonstra que na realidade toda essa montagem se trata do resgate de alguém a quem consideram um agente estadunidense.

É preciso ressaltar que a frustrada operação armada foi projetada originalmente para ser executada no final do mês em curso, enquanto toda Venezuela se encontra lutando contra a pandemia do COVID-19. E que é, justamente, esta a principal batalha que preocupa atualmente a humanidade.

Uma luta que nossa nação se encontra atuando de maneira exitosa, ao ter conseguido deter a curva de contágios, tendo reforçado as previsões sanitárias e mantendo a população em uma quarentena em massa, com um número baixo de casos positivos e falecidos.

Por tudo isso, o Governo da República Bolivariana de Venezuela alerta seu distinto Governo, sobre os temerários e criminosos passos que está dando a administração de Donald Trump que, apesar da pavorosa aceleração do crescimento do COVID-19 que afeta o povo estadunidense, parece decidido a aprofundar sua política de agressão contra Estados soberanos da região, e em especial contra o povo venezuelano.

Durante a pandemia, o governo de Estados Unidos, em lugar de focar nas políticas de cooperação mundial em matéria de saúde e prevenção, tem incrementado as medidas coercitivas unilaterais, tem recusado as solicitações da comunidade internacional para que se levantem ou flexibilizem as ilegais sanções que impedem a Venezuela de acesso a medicamentos, equipes médicas e alimentos.

Ao mesmo tempo, tem proibido a realização de voos humanitários dos Estados Unidos para Venezuela para repatriar centenas de venezuelanos atingidos pela crise econômica e sanitária que vive o país do norte.

Venezuela, ao denunciar estes graves fatos, ratifica sua vontade inquebrantável de sustentar uma relação de respeito e cooperação com todas as nações, ainda mais nesta inédita circunstância que obriga os governos responsáveis a trabalhar unidos e afastar suas diferenças, como é o caso da pandemia do COVID-19.

Diante de tão graves circunstâncias, solicito seu inestimável apoio ante esta insólita e arbitrária perseguição, executada mediante uma requentada versão daquele ranço do Macarthismo desatado depois da 2a Guerra Mundial. Então, estigmatizavam seus adversários de Comunistas para persegui-los, hoje o fazem mediante as voláteis categorias de terroristas ou narcotraficantes, sem contar para isso com elementos probatórios de nenhum tipo.

Condenar e neutralizar hoje estes ataques injustificáveis contra Venezuela, será de grande utilidade para evitar que no dia de manhã Washington empreenda campanhas semelhantes contra outros povos e governos do mundo. Devemos nos apegar todos aos princípios da Carta das Nações Unidas, para evitar que o unilateralismo desmedido nos leve ao caos internacional.

Excelência, tenha V.S. a absoluta certeza de que Venezuela se manterá firme em sua luta pela paz e que, ante qualquer circunstância, prevalecerá. Nenhuma agressão imperialista, por feroz que seja, nos desviará do caminho soberano e independente do que há 200 anos temos forjado, como também não nos afastará da sagrada obrigação de preservar a vida e a saúde de nosso povo ante a pavorosa pandemia mundial do COVID-19.

Agradeço de antemão a consideração que tem tido ao ler esta carta, e confio em que lhe será de utilidade para manter corretamente informado o seu respeitado Governo, ocasião que aproveito para lhe reiterar a certeza de minha consideração mais distinta.

Atenciosamente,

Nicolás Maduro Moros