Palestina: do shabat sangrento de 1948 ao apartheid do “Acordo do Século”

A maior parte da humanidade aproveitaria este sábado para, além de descansar, ver amigos e parentes, viajar, passear, dar liberdade ao corpo e ao espírito, não fosse o impedimento de ir e vir provocado por um vírus letal. Esta pandemia está servindo a grande parte da humanidade para que conheça o que é não poder sair de casa, não poder viajar, não poder visitar parentes ou entes queridos, ir de um bairro ao outro, de uma cidade a outra, sair do país. Pois é isso o que acontece na Palestina há 72 anos ininterruptos.

Por Ualid Rabah*

Nakba 6

Tudo começou horas antes do descortinar de um sábado daquele brutal maio de 1948. Era 14 de maio quando estrangeiros euro-judeus, recém-chegados à Palestina na condição de imigrantes impostos à população originária pelo império colonial britânico, então mandatário nesta parte do mundo por uma ficção da antiga Liga das Nações, resolveram, de armas em punho e determinação genocida, autoproclamarem-se estado e autodenominarem-se Israel. Isso se deu às 16 horas daquela sexta-feira, dia sagrado aos muçulmanos, pouco antes do pôr do sol, momento em que se inicia o shabat, o dia da semana sagrado aos judeus.

E no dia seguinte, o shabat propriamente dito, que deveria ser guardado, pela tradição judaica, para o repouso e aos assuntos religiosos, foi dada a ordem a estes mesmos euro-judeus de matança dos palestinos, às suas expulsões massivas, às destruições de suas vilas, aldeias, bairros e cidades, ao aniquilamento de seus negócios e de suas lavouras e criações. Grupos fortemente armados e portadores de uma ideologia supremacista, forjada na Europa colonialista e racista, ainda na segunda metade dos 1800, estes nacionalistas euro-judeus promoveram uma verdadeira barbárie na Palestina, tudo em nome do que acreditavam ser um mandamento divino, de “retorno” a uma terra que teria sido habitada por seus ancestrais.

Na verdade, embora Deus e a fé tenham sido instrumentalizados pelos estrangeiros recém-chegados, o que de fato tinham em mente era a implantação, na Palestina, de um projeto colonial, racista, exclusivista, supremacista, de apartheid e que, conforme desenhado muito antes, deveria se dar numa palestina sem palestinos, faxinada etnicamente. A alegoria religiosa era apenas instrumento ideológico para afirmação de “direitos” pretensamente históricos. Ao que de fato davam andamento era o preconizado pela liderança sionista em finais dos 1800: “uma terra sem povo para um povo sem terra”.

Sem entrar em grandes detalhes acerca da impropriedade quanto à existência de um povo judeu, assunto já bem sedimentado no meio científico e acadêmico com resposta negativa (é apenas uma fé religiosa que aglutina pessoas de várias nacionalidades, línguas, culturas, etc.), o fato é que há um mito que precisa ser desmistificado: a Palestina era habitada, com densidade demográfica de 26 habitantes por KM², conforme o senso britânico de 1922. Para se ter uma ideia, a do Brasil, no mesmo período, não alcançava os 4 habitantes por KM², e a da China, já à época o país mais populoso do mundo, era de 37 por KM². E quando da limpeza étnica, em maio de 1948, a densidade demográfica na Palestina, excetuados os professantes do judaísmo, era de 50 habitantes por KM².

Portanto, o que estava por trás deste mito era outra coisa, bem mais concreta: prometiam fazer da Palestina uma terra sem povo, a despovoariam. E para levar a cabo este genocídio de proporções monumentais, os sionistas euro-judeus gestaram um plano, o chamado Plano Dalet, de 1947, que desenhou, metodicamente, vários procedimentos de expulsão da população nativa.

Em 9 de abril do ano seguinte, o Plano Dalet foi testado na pequena aldeia palestina de Deir Yassin, distante 5 Km de Jerusalém e habitada por cerca de 700 camponeses desarmados. Nem o fato de terem feito um pacto de não agressão com os grupos terroristas euro-judeus, justamente para evitar serem atacados, bastou. Cercaram o lugarejo pela madrugada e o invadiram pela manhã, quando os homens estavam nos campos, cultivando ou em pastoreio. Perto de 300 pessoas, maioria mulheres, anciãos e crianças, foram brutalmente assassinados e a notícia espalhada pelos assassinos. Buscavam plantar o terror na população palestina, um dos mandamentos do Plano Dalet, por meio de propaganda de guerra similar a usada pelos nazistas pouco tempo antes.

E o que se deu a partir de 15 de maio fez deste dia um shabat sangrento: 774 cidades e povoados palestinos foram ocupados, dos quais 531 totalmente destruídos; 70 massacres foram cometidos, com mais de 15 mil mortos, incontáveis feridos e mutilados e dois terços da população originária, a palestina, expulsa pelos estrangeiros recém-chegados.

Foram tomados pela força, pelo terror, pelas matanças e pela expulsão, 76% do território da Palestina Histórica e desta parcela de território, dos seus 900 mil habitantes, perto de 800 mil foram mortos ou expulsos, quase 90%.

A esta população foi negado o direito ao retorno. Tudo lhes foi tomado e é destes quase 1 milhão de desterrados que derivam os atuais 5 milhões 870 mil refugiados palestinos, a maior população refugiada do mundo, perto de 9% da atual população refugiada mundial, algo descomunal, especialmente porque a população total palestina, de 13 milhões, representa apenas 0,2% da população global. Isto dá, em cada grupo de 46 refugiados, absurdos 45 refugiados palestinos para cada 1 eventual refugiado de outro grupo étnico/nacional!

De lá para cá as coisas só se agravaram. Novas agressões, novos confiscos de terras, novas expulsões, imposição de um regime de apartheid, com cerca de 50 legislações aplicáveis somente aos palestinos, que vão da negativa do direito de construção e reformas em seus imóveis ao impedimento de acesso aos recursos hídricos.

Nenhuma das dezenas de resoluções da ONU, dentre elas a 194, a do retorno dos refugiados, foi acatada por Israel. O Direito Internacional segue sendo violado por Israel. Os sequestros políticos de palestinos, hoje mais de 6 mil nos cárceres ilegais da ocupação, aumentaram desde o início deste ano. As demolições de casas e negócios de palestinos aumentaram, inclusive impostas aos familiares dos presos, um dos castigos coletivos utilizados contra os palestinos pelos britânicos antes da Nakba.

E tudo isso ameaça se agravar com a busca, com o apoio irrestrito dos EUA de Trump, da normalização da ocupação por meio de um mal denominado “Acordo do Século”, que prevê a anexação da maior parte da Cisjordânia. Os EUA têm descartado a Palestina aos poucos: reconhecendo Jerusalém capital de Israel e impedindo-a aos palestinos, negando aos refugiados o direito de retorno e cortando os fundos destinados à ONU para suas assistências, admitindo a anexação das Colinas de Golã, território sírio, bem como defendendo que os assentamentos judaicos ilegais na Cisjordânia não ferem o Direito Internacional, para dizer pouco só do que foi feito nesta gestão Trump.

Com o malfadado “Acordo do Século”, de que os Palestinos não tomam parte, isto é, é celebrado apenas entre os inimigos do povo palestino, será normalizada não apenas a ocupação, mas também o regime de apartheid em toda a sua extensão e profundidade. Num ligeiro resumo, este novo crime contra os direitos nacionais, civis e humanitários dos palestinos prevê:

  • Israel é um estado EXCLUSIVAMENTE JUDEU, único com esta natureza no mundo, baseado na supremacia de um grupo humano, étnico ou miticamente assim entendido;
  • Jerusalém é integralmente anexada por Israel, sendo impedido aos palestinos, muçulmanos ou cristãos, acesso à cidade;
  • Água e outras riquezas do subsolo serão controladas somente por Israel;
  • As colônias ilegais em terras confiscadas aos palestinos serão anexadas por Israel, incluindo o Vale do Jordão;
  • A Palestina não teria portos ou aeroportos próprios e pagaria a Israel pelo uso dos israelenses;
  • Os refugiados, expulsos pelos sionistas quando da limpeza étnica, não teriam direito de retorno;
  • O exército israelense de ocupação permaneceria para sempre na Palestina e, pior, os palestinos teriam que PAGAR a Israel pela sua “proteção”;
  • O “Estado” da Palestina não teria contiguidade territorial, sendo recortado por quase 100 blocos de assentamentos ilegais.

Ou seja: o que TRUMP chama de estado palestino seriam mais de 80 ilhotas, bantustões, enclaves, cercados de colônias de estrangeiros judeus recém-chegados à Palestina, recortados por estradas exclusivas para estes extremistas e para as forças de ocupação, por postos militares de controle etc. Os palestinos não se curvarão a isto.

Se os sionistas se enganaram ao acreditarem, quando do shabat sangrento de 1948, que “eles  morrerão (as vítimas da limpeza étnica) e seus filhos (todos os seus descendentes) esquecerão” (David Ben Gurion, primeiro-ministro do recém autoproclamado Israel), mais enganados ainda estão atualmente: não haverá paz enquanto a Palestina não for um estado soberano, com Jerusalém sua capital, o retorno dos refugiados e fronteiras definitivas. O pretenso “Acordo do Século” não passa de miragem sionista, como tudo o mais que construíram até agora sobre os escombros e cadáveres da Palestina.

Aproveitemos esta sexta-feira do sagrado mês de Ramadan, na qual infelizmente recordamos a catástrofe palestina pela 72ª vez, e que daqui a pouco dá início ao shabat, para refletirmos sobre esta injustiça histórica e buscar os meios de corrigi-la. Será bom para todos na Palestina. E também para os israelenses. Para os judeus ainda mais, porque precisam se livrar do sionismo, que só faz instrumentalizar a fé para legitimar seus crimes de lesa humanidade. Só a paz justa é duradoura e do interesse de todos.

* Ualid Rabah é presidente da FEPAL – Federação Árabe Palestina do Brasil