Professores rejeitam colaboração da UnB com o apartheid israelense

A professora Muna Muhammad Odeh e o professor Hilan Bensusan, dos departamentos de Saúde Coletiva e Filosofia, respectivamente, publicaram artigo nesta quarta-feira (5) no Brasil de Fato com mais uma firme manifestação contra a aproximação entre a Universidade de Brasília (UnB) e o Governo de Israel. O protesto de docentes, dicentes e outros solidários à luta do povo palestino em geral registram-se há semanas.

Reitora da UnB, Márcia Abrahão Moura, encontrou-se com o embaixador de Israel, Yossi Shelley, em fevereiro; nas redes da universidade, ele foi descrito como “grande parceiro” – Reprodução / UnB

De acordo com a publicação sobre a moção de março da Associação dos Docentes da UnB, a reitora Márcia Abrahão Moura divulgou uma proposta de colaboração com o embaixador de Israel Yossi Shelley e o convite a empresas israelenses a se instalarem no parque científico e tecnológico da Universidade. Em resposta, um grupo de docentes e discentes enviou uma carta-manifesto à reitora rejeitando tal colaboração, denunciando “o caráter racista e expansionista de Israel e do regime de apartheid que o caracteriza.”

O documento enviado à reitora da UnB afirma:

“Nós, membros da comunidade acadêmica da Universidade de Brasília, palestinas e palestinas comprometidos com a causa dos direitos humanos, acreditamos que a história e a identidade da UNB não são compatíveis com colaboração com ações de estratégia de marketing para normalizar infrações ao Direito Internacional e aos Direitos Humanos, legitimando apartheid, injustiça ambiental e limpeza étnica. Por isso que pedimos para não estreitar laços de colaboração com entidades que desenvolvem tecnologias sob aquelas condições, ou mais ainda, em prol de impetrá-las e perpetuá-las, uma vez que as atitudes de tal governo não estão em congruência com a constituição brasileira de 1988, no artigo 5.º no que se refere aos direitos e deveres individuais e coletivos, que garante a todo ser humano o direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade sem qualquer tipo de descriminação.”

“Os Estados não praticam violências apenas por ação e coação, mas também por complacência seletiva. Aquilo que era marcante nos governos de muitas partes do mundo oitenta ou noventa anos atrás, pode ser entendido como um experimento de gerência sorrateira que passou a figurar em todos os manuais acerca de como governar diante da opinião pública. Assim no Brasil, e assim na Palestina. E a presença de bandeiras israelenses nas marchas de apoio ao atual governo revelam a torção, a recombinação e o disfarce do ressurgimento de práticas do século passado,” escrevem os professores Muna Odeh e Hilan Bensusan, para o Brasil de Fato

O artigo denuncia como supremacistas recentes manifestações realizadas por israelenses em Jerusalém, com evidentes incitações contra os palestinos, pouco depois de parlamentares terem protestado contra as pressões externas em defesa dos direitos humanos dos palestinos. “O governo instituído não quer considerar as palestinas e palestinos como cidadãos, trabalha implícita e explicitamente para conferir a essas pessoas um estatuto de subalternos,” escrevem os professores.

Recordam ainda que em 2018 o Parlamento de Israel aprovou a Lei Básica Israel: Estado-Nação do Povo Judeu, que determina como exclusivo aos judeus o direito à autodeterminação, entre várias outras discriminações contra não-judeus, embora, na prática, “os preceitos desta lei já vinham vigorando desde a autoproclamação/criação do Estado de Israel em 1948 com base na destruição e a limpeza étnica (Ilan Pappé) de mais de 400 vilarejos palestinos e sua população de 700.000 expulsos por força militar e através de crimes de guerra como o massacre de Deir Yassin.”

Aliando a denúncia cada vez mais reiterada internacionalmente de que Israel sustenta um regime de apartheid na Palestina à persistente denúncia do que é um sistema de colonização sionista, os professores escrevem: “O que se passa na região não é uma briga tribal ancestral – e toda briga desse tipo tem elementos cósmicos – mas é mais uma torção de uma batalha colonial. Os estados que se produziram depois da experiência colonial prosseguiram a missão de fazer o pensamento, a economia e o modo de vida europeu (e branco) prevalecer. Assim na subalternização insistente das populações nativas e rurais na América do Sul e na África, assim no longo apartheid sul-africano, assim na supressão dos direitos das populações palestinas.”

Daí resulta, explicam, o protesto contra acordos do governo brasileiro com autoridades israelenses e a colaboração acordada entre a reitoria da UnB e o governo israelense, e a adesão ao movimento pelo Boicote, Desinvestimento e Sanções (BDS) a Israel. “Esses boicotes surgiram efeito, depois de longos anos, em destituir o racismo institucional na África do Sul”, afirmam.  

O protesto pela colaboração de universidades mundo afora com o Governo de Israel tem crescido internacionalmente, assim como a reação dos apoiadores de Israel e do seu governo, com o movimento pelo BDS na mira. Em 2015, por exemplo, a Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) entrou na lista de instituições assediadas ao responder à demanda de diversas entidades por informações sobre seu envolvimento institucional com empresas militares de Israel ou o polo espacial então gestado no Rio Grande do Sul, em parceria com a israelense Elbit Systems. A Universidade foi taxada de “antissemita”.

Mas o BDS palestino, reiteram os professores, “é um movimento que ‘trabalha para acabar com o apoio internacional para a opressão dos palestinos e pressionar Israel a respeitar o direito internacional'” e tem ganhado “mundialmente maior adesão nos âmbitos acadêmico, econômico e cultural tendo apoiadores de renome como o sul-africano Desmund Tutu, Roger Waters e Angela Davis.”

“O BDS tem 3 objetivos: o fim da ocupação e da colonização dos territórios palestinos, a igualdade de direitos para os cidadãos árabes de Israel, e o respeito ao direito de retorno dos refugiados palestinos.” Além disso, continuam, “a história do sionismo é uma história colonial. E que tem sido um pesadelo para a memória da Shoah [Holocausto]: ela se tornou uma desculpa para a segregação e a subalternização institucional.”

“É preciso mostrar ao sionismo que nós, judeus e outros povos, não estamos de acordo com essas práticas. Como dizia Edward Said, procedimentos discriminatórios têm uma economia, como na África do Sul, e combatê-la é procurar torná-la insustentável.” Por isso, os professores afirmam que “seria intolerável que a UnB fizesse acordos com o governo sul-africano, digamos, há 30 ou 40 anos atrás. Aquilo que oferece uma dispensa especial às autoridades israelenses parece ser não mais do que a história de antissemitismo da Europa e dos poderes coloniais.”

“Protestar contra os acordos com esse governo não é anti-semitismo; pelo contrário, é zelar pela memória da Shoah, da Nakba e de todas os combates anticoloniais que procuram dar a possibilidade de um país como o Brasil pensar a si mesmo em seus próprios termos,” afirmam.

Leia a íntegra do artigo no Brasil de Fato.