Por José Reinaldo Carvalho*
Um dos fatos mais relevantes da semana foi o encontro entre o Presidente chinês, Xi Jinping, e o chanceler russo, Sergey Lavrov. A crescente consolidação da parceria estratégica entre China e Rússia é um dos principais eixos estruturantes da construção da nova ordem internacional. Em um cenário marcado por instabilidade, disputas geopolíticas e guerras, a coordenação entre Pequim e Moscou emerge como um elemento de estabilidade, novo equilíbrio de forças, fator de paz e como um vetor de reorganização da nova governança global.
Essa relação, construída ao longo de décadas e fortalecida por valores e propósitos comuns, projeta-se como um modelo alternativo de cooperação entre grandes potências, baseado na complementaridade econômica, na confiança política e na rejeição a práticas hegemônicas. É uma parceria consistente, previsível e sobretudo potente, capaz de vencer os desafios do ambiente internacional conturbado.
O ponto central dessa articulação está na defesa da paz, do desenvolvimento e do mundo multipolar. A China e a Rússia atuam de forma coordenada para conter a concentração de poder em um único polo e, ao mesmo tempo, abrir espaço para uma governança global mais equilibrada. Essa postura dialoga diretamente com os interesses da maioria global, também identificada como Sul Global, que historicamente foi marginalizada nas decisões estratégicas internacionais.
Nesse sentido, não é exagero afirmar que a relação entre Pequim e Moscou constitui um dos pilares fundamentais do mundo multipolar e da constelação de grupos e coordenações embrionárias desse mundo, designadamente o BRICS. Este grupo, que vem ampliando sua relevância e atraindo novos membros, encontra na sintonia entre essas duas potências uma base de sustentação política e estratégica. A capacidade de articulação conjunta fortalece iniciativas multilaterais, amplia alternativas econômicas e reduz a dependência de estruturas dominadas pelas potências imperialistas ocidentais.
Além disso, a cooperação entre China e Rússia contribui para reforçar a resiliência de ambos os países diante de pressões externas. Ao aprofundar laços comerciais, energéticos, tecnológicos e culturais, os dois Estados constroem um sistema de apoio mútuo que diminui vulnerabilidades e amplia margens de autonomia.
Outro aspecto relevante é o papel desempenhado por essa parceria na defesa do multilateralismo. Em um momento em que as instituições internacionais enfrentam questionamentos e perda de legitimidade, a atuação coordenada de China e Rússia busca revitalizar organismos como a ONU e ampliar a representatividade de países em desenvolvimento. Trata-se de uma tentativa clara de reequilibrar o sistema internacional, tornando-o mais inclusivo e menos suscetível a imposições unilaterais.
A intensificação dessa coordenação estratégica também responde a um contexto global marcado por conflitos e tensões crescentes. A expansão de disputas regionais, aliada à persistência de políticas intervencionistas, tem gerado incertezas e instabilidade. Nesse ambiente, a convergência sino-russa funciona como um contraponto, oferecendo uma alternativa baseada na cooperação, no respeito à soberania e na busca por soluções negociadas.
Por fim, a relevância dessa parceria vai além dos interesses imediatos dos dois países. Ela sinaliza uma transformação mais ampla, na qual o Sul Global assume um papel cada vez mais ativo na definição dos rumos internacionais. Ao fortalecer sua coordenação, esses países não apenas defendem seus próprios interesses, mas também contribuem para a construção de uma ordem global mais equilibrada, plural e representativa.
Diante desse cenário, a parceria estratégica China-Rússia é um componente importante da geopolítica contemporânea para se afirmar como um dos principais alicerces do mundo multipolar e da reorganização da governança global.
*José Reinaldo Carvalho é jornalista, editor do Resistência e Presidente do Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Luta pela Paz (Cebrapaz).
Esse é um artigo de opinião e não necessariamente reflete a opinião do Cebrapaz
